21 GRAMAS (21 Grams, EUA, 2003)
Gênero: Drama
Duração: 125 min.
Elenco: Sean Penn, Naomi Watts, Benicio Del Toro, Charlotte Gainsbourg, Melissa Leo, Clea DuVall, Danny Huston, Carly Nahon
Compositor: Gustavo Santaolalla
Roteiristas: Guillermo Arriaga, Alejandro González Iñárritu
Diretor: Alejandro González Iñárritu

Dolorosa e humana experiência

Revolucionário drama de Alejandro González Iñárritu propõe uma série de questões, não para serem respondidas, mas para serem analisadas e vividas

Por que duas pessoas se conhecem? Por que existe o amor? Por que há solidão? Por que há tristeza? Por que há dor? Por que sofremos? Por que muitas vezes passamos perto da morte? Por que morremos? Por que tudo isso se liga com tanta intensidade, de modo a poder destruir nossas vidas? Por que? Por que? Por que? A vida não faz sentido, diria David Lynch. 

Mas Alejandro Gonzales Iñarritu não é David Lynch. É um cineasta extremamente humano, que usa a dor de seus personagens de maneira incomum, provocando ainda mais dor na platéia. E ele pensa que sim, a vida faz sentido. E pensa que a morte também faz. Iñarritu se propõe a analisar as questões levantadas aí em cima, tendo por centro três personagens que se envolvem da mais trágica maneira possível. E o filme caminha no silêncio, olhando para esses seres com carinho, mas sem julgá-los. Isso cabe ao público, que também não consegue fazê-lo. 

Sean Penn. Homem de meia idade que precisa urgentemente de um transplante de coração. A morte está próxima. Sua mulher quer um filho "para guardar de recordação". Penn se revolta. Mas ele depende dela, pelo menos até receber um coração novo - sua liberdade. Conhece uma nova garota, linda. Mas mergulha no fundo do poço - ela sofreu demais para que ele tivesse sobrevivido. Culpa? Remorso? O que ele pode sentir? O que ele pode pensar? O dilema moral domina tal personagem. 

Benício Del Toro. Ex-presidiário que fez tudo o que pode ser considerado errado no mundo. Encontrou Deus. Redimiu-se, juntou-se a família, passou a acreditar na salvação. Era a fé salvando um homem perdido. Ou não? Ele atropela acidentalmente três pessoas. Todas morrem. Onde estava Deus naquele momento? Por que isso teria acontecido, se Deus o amava tanto? A loucura, a demência, todos se apossam dele. 

Naomi Watts. Garota que vive na noite. Viciada em drogas, conhece um homem pelo qual se apaixona. Tem duas lindas filhas, larga todo seu passado e vira uma excelente mãe. Um acidente. Sua família está morta. O sofrimento a corrói. Ela volta à sua vida antiga. Conhece um novo homem. Era a sua chance. 

O filme tem esse turbilhão de desastres e redenções em sua primeira metade. Caminha para um final ainda mais triste, ainda mais desesperador, no qual os três personagens se juntam. O público, a essa altura, está angustiado, espremido contra a cadeira. Iñarritu sabe que a alma humana é muito mais profunda. Esse show de tristezas e desilusões é apresentado de maneira absolutamente revolucionária por Iñarritu. Se PULP FICTION era desconstruído temporalmente, 21 GRAMAS eleva isso à milésima potência. Não há nada linear, a estrutura é fragmentada entre passado, presente e futuro, cabendo somente a nós ligar a edição. Lance brilhante de Iñarritu. 

No final de 21 GRAMAS acompanhamos três atores naquelas que podem ser as melhores interpretações de suas carreiras, fazendo seus personagens ficarem queridos do público e sofrendo de maneira descontrolada, desoladora. O filme é desolador. 

E assim voltamos para aquelas perguntas feitas no primeiro parágrafo. O que foi respondido? Nada. O filme virou algo tão profundo que devastou nossas almas com a seguinte constatação - nada daquilo tem resposta. E talvez David Lynch esteja certo.

Cotação:
Carlos Massari
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