SPEED RACER
Direção: Larry e Andy Wachowski
Elenco:
Emile Hirsch, Nicholas Elia, Christina Ricci, John Goodman, Melissa Holroyd, Susan Sarandon, Matthew Fox, Ariel Winter, Scott Porter
Distribuidora:
Warner
Duração:
135 min.

Região:
A, B, C

Lançamento:
16/09/2008

Nº de discos:
3

Cotações:
Filme -

BD -

Comentários de
Jorge Saldanha

SINOPSE
Speed Racer (Emile Hirsch) tem no sangue o dom para correr em alta velocidade e o seu poderoso carro Mach 5 é o seu grande aliado nas pistas. Com a ajuda de seus pais, Pops e Mom Racer (John Goodman e Susan Sarandon), de sua namorada, Trixie (Christina Ricci), seu irmão mais novo, Gorducho (Paulie Litt), e do misterioso Corredor X (Matthew Fox), Speed encara competidores ferozes e velozes para salvar o negócio de sua família e proteger o esporte que tanto ama.

COMENTÁRIOS
Da turma de jovens diretores e roteiristas que hoje estão em Hollywood, a dupla de irmãos Andy e Larry Wachowski são dos poucos que procuram imprimir um estilo próprio na escrita e no visual de seus filmes. O problema é que eles, em 1999, fizeram um “filminho” chamado Matrix, que virou uma espécie de objeto de veneração de uma horda de hackers e geeks, e quando vieram as duas continuações, ficou claro que a obra não era a Bíblia de uma nova cyber-religião, a pedra-base de uma revolução, mas sim uma nova trilogia sci fi à la Star Wars, com heróis rebeldes (humanos) lutando contra um Império do Mal (as máquinas).

Os “traídos” (os já citados acima e mais uma leva de críticos que exageraram na louvação ao filme de 1999) não perdoaram aqueles a quem haviam considerado os arautos de uma nova era, e passaram a detonar toda e qualquer obra da fraternal dupla. O fabuloso V de Vingança (2006, apenas escrito pelos Wachowski) foi acusado de ser uma apologia ao terrorismo, numa reação surpreendente das mesmas almas que, em 1999, achavam que Matrix era o início da revolução que iria destruir as estruturas arcaicas da sociedade. E agora com este Speed Racer eles voltam à carga, mas sem muito a ter o que dizer. O que importa é que, se é dos Wachowski, tem que falar mal.

Confesso que este projeto, desde o início, nunca me chamou muito a atenção - exceto pelas razões que teriam levado a dupla a, entre tantas opções de projetos, se jogarem de corpo e alma na transposição para o cinema de um anime (desenho japonês) dos anos 1960. Mas na verdade os motivos são óbvios - a linguagem dos desenhos animados e as referências ao Japão são uma constante na obra dos Wachowski. Quando eu criança assistia eventualmente Speed Racer, apesar de achá-lo divertido não era algo ao qual retornasse com freqüência. E quando vi o primeiro trailer do filme, a minha impressão não foi boa - obviamente os irmãos fizeram um desenho com atores onde tudo, exceto eles, era artificial e com cores brilhantes. E a física das corridas era coisa de desenho mesmo. Se era para ser assim, para que afinal de contas perder tempo fazendo um filme? Já estava esperando algo na linha do pavoroso Thunderbirds, outra adaptação de um clássico da época que, além de infantil, era oca como uma bola de pingue-pongue.

Finalmente, quando vi o filme, não tive uma experiência que me “iluminou” e mudou minha existência, mas comprovei (de novo) que os Wachowski são cineastas diferenciados que conseguem criar uma identificação própria em cada obra sua. É sim um filme para crianças - as cores exageradas, com ênfase nas básicas, são de gibi, a violência é de mentirinha, o casal Speed / Trixie só se beija no fim do filme, tem muita piadidinha com a dupla Gorducho / Zequinha e as corridas são delírios non sense em computação gráfica, misturando as que víamos no desenho original com as de outro clássico, este americano e de outra dupla, a Hanna/Barbera - Corrida Maluca. O roteiro de Speed Racer é trabalhado em torno de duas idéias básicas constantes na obra da dupla - o poder de grandes corporações (máquinas?), que tentam absorver os indivíduos, e a importância da união familiar. E a conjunção dessas idéias com um visual de viagem de ácido sessentista faz do filme algo diferente.

Além disso, me agradou a mensagem que o filme deixa: a de que vale a pena lutar contra a opressão (seja ela as máquinas, as corporações ou um governo repressor) e defender sua família. A relação dos irmãos Speed e Rex Racer é exemplar neste aspecto, e me pergunto se ali não está espelhada a própria experiência pessoal dos irmãos cineastas. Que, sem dúvida, possuem experiência em lutar contra jogos de cartas marcadas. Se em Speed Racer são as corridas que são arranjadas, aqui fora é o que? Seja o que for, só espero que os dois continuem tendo liberdade para fazer seus filmes. Por piores que eles sejam, sempre terão duas coisas que faltam na maioria das produções de massa atuais: estilo e alma.


O BD
A decepção nas bilheterias de Speed Racer claramente se refletiu no lançamento do filme em DVD e em Blu-ray. Este último não chega a ser um título ruim, mas claramente faltou maior capricho da distribuidora, seja na apresentação do filme em si, seja na dos extras. O problema começa na decisão questionável da Warner em lançar o filme e os extras principais num único BD de camada simples (25Gb), o que, devido à limitação do espaço, fatalmente teria que levar a que alguma coisa fosse cortada. Quanto ao visual, pouco há do que reclamar: a transferência 1080p/VC-1, em seu formato original widescreen anamórfico 2.40:1, é deslumbrante. O filme foi capturado em vídeo de alta definição, a fim de que a imagem fosse mais facilmente manipulada para ter o pretendido visual de “anime com atores”, e sua transposição para Blu-ray não poderia ser mais acurada. As cores não são apenas vibrantes, elas chegam a ser agressivas, com ênfase nos tons primários, mas sempre sólidas e estáveis. Os pretos são fortes, assim como o contraste geral. As sombras são bem delineadas, e o nível de detalhes elevadíssimo. Pragas típicas dos DVDs como edge enhancement ou artefatos inexistem. A manipulação feita na imagem para o lançamento do filme nos cinemas apresenta aspectos como suavização de texturas faciais, mas isso se prende a uma decisão criativa, não a um problema na transferência do BD, que sem dúvida é muito bonita.

Mas é no quesito áudio que primeiramente encontramos os prejuízos decorrentes da limitação de espaço em disco. Seria de se esperar que, pelo menos em inglês, houvesse uma faixa multicanal lossless. No entanto, dada a limitação do BD de camada simples e a fim de não comprometer a qualidade da imagem e a presença de um mínimo de extras, as quatro opções de áudio presentes (inglês, português, espanhol e francês) são apenas Dolby Digital 5.1 standard. A mixagem está longe de ser medíocre, e para os padrões de DVD é ótima. Os graves são pesados, os canais surround são bem dinâmicos e os diálogos sempre soam claros. Mas uma faixa lossless de alta definição certamente daria maior fidelidade à trilha sonora, com ganhos nas freqüências dos sons médios e agudos, além de propiciar ao ouvinte uma ambientação mais acurada. A impressão que dá é que a Warner trocou a inclusão de uma faixa de áudio HD pela inclusão de mais dois discos – um trazendo uma cópia digital do filme (totalmente dispensável) e o outro um game, que pode agradar aos mais jovens mas que é igualmente descartável.

Aliás, os três discos estão embutidos numa embalagem de BD adaptada com um suporte central que acomoda dois deles – similar às amarays para dois ou três DVDs – envolta por uma luva de cartolina. Os menus são estáticos, disponíveis apenas em inglês, enquanto o filme traz legendas nos mesmos idiomas do áudio - p
ortuguês, inglês, espanhol, francês.

OS EXTRAS
Exceto pela cópia digital e pelo game que acompanham o filme, os extras deste Blu-ray norte-americano de Speed Racer estão concentrados no mesmo disco do filme, apresentados em definição standard e o pior, em formato 4:3 letterbox. Certamente, mais um preço a pagar pela questionável decisão da Warner de colocar tanto o filme como os extras em um único BD de camada simples. Pelo menos, eles possuem a opção de legendas em português. Pior ainda é o DVD nacional, que em relação ao similar norte-americano perdeu o making of principal dos extras.

  • Car Fu Cinema (28 min.) – O principal extra é este making of que enfatiza os bastidores da criação da arte conceitual, pré-produção, efeitos CGI, cenários (a maioria substituídos por fundos verdes) e tudo mais que colabora para que o filme tenha um visual ímpar. A maior parte, como o nome indica, é dedicada ao conceito das corridas vistas no filme, onde os pilotos e seus carros realizam proezas impossíveis. Há depoimentos do produtor Joel Silver, do diretor de segunda unidade James McTeague e membros do elenco e equipe técnica. Os Wachowski, como sempre, não aparecem em momento algum;

  • Gorducho nas Grandes Ligas (15 min.) – Featurette dirigido para as crianças, onde o ator-mirim Paulie Litt, que interpreta o engraçado Gorducho, faz um tour pelos sets e bate um papo com integrantes de várias equipes técnicas;

  • Speed Racer: Sobrecarregado (16 min.) – Outro featurette para os pequenos, agora narrado em tom cartunesco, mas bem mais interessante que o anterior porque examina os carros, os pilotos e os circuitos que aparecem no filme;

  • Cópia Digital - Como vem sendo comum nos últimos tempos, o pacote inclui um disco à parte contendo a cópia digital do filme (em resolução standard) para ser vista em outros dispositivos – neste caso, apenas em computadores baseados em Windows. Como já referi em outras resenhas, dificilmente alguém que já viu o filme em Blu-ray terá a coragem de revê-lo em resolução comum, ainda mais no computador;

  • Crucible Challenge – O terceiro disco do pacote traz o já citado game, que poderá agradar às crianças. Porém, mesmo como experiência de jogo ele não é lá essas coisas, trazendo gráficos em padrão de Playstation 2 e controles ruins. Para um adulto que experimentar jogá-lo, será uma experiência frustrante, que mais uma vez o fará lamentar a estratégia da Warner em subvalorizar o áudio e os extras de Speed Racer, em prol de bônus dispensáveis como este.

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