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“Prepare-se para a Glória!” diz o cartaz do filme 300,
adaptação, bastante fiel, diga-se de passagem, de “300 de
Esparta”, graphic novel de Frank Miller, que narra a
saga de Leônidas e seus 300 soldados para defender sua Esparta
do ataque do exército de milhões (?!) do Rei-Deus Xerxes.
Ainda que um tanto quanto exagerado (o exército persa parece
uma mistura de sobras do último filme da trilogia O Senhor
dos Anéis com desfile do Joãozinho Trinta, só para citar um
exemplo), realmente trata-se de um filme épico, tecnicamente
magnífico, impactante, violento e ao mesmo tempo um libelo
contra a opressão e o absolutismo. Se, por um lado, o filme é
daqueles que devem ser assistidos, por outro, o que
encontramos na trilha sonora de Tyler Bates está longe de algo
glorioso.
Tyler
Bates não é o que podemos chamar de um compositor clássico,
pois começou sua carreira como músico profissional nas
guitarras da obscura banda Pet, onde ficou até 1997, quando
então passou a dedicar-se às trilhas para cinema. Até aí tudo
bem, pois Danny Elfman foi vocalista do
Oingo Boingo e hoje é
um dos ícones da nova geração, mas Bates não teve padrinhos
como Tim Burton e Emilio Estevez e começou sua carreira em
filmes de baixíssimo orçamento como Tammy and the T-Rex,
Deep Down e Suicide, the Comedy e seu trabalho para um
grande estúdio foi para o terrível Get Carter, com Sylvester
Stallone, em 2000. As coisas não pareciam ir muito bem até
conhecer o diretor Zack Snyder, que o chamou para musicar o
seu filme Madrugada dos Mortos, um cult do gênero.
Não por coincidência, Zack convocou novamente Bates para
trabalharem juntos em 300.
O CD
possui 25 faixas, nenhuma delas com mais de quatro minutos, de
cara dando quase a certeza de tratar-se de uma trilha
incidental que funciona somente com as imagens grandiosas do
filme à frente, e isso acaba realmente acontecendo. Se você
viu o filme, os títulos “Tree of the Dead”, “Fight in the
Shade”, “Immortal Battle”, “Tonight We Dine in Hell” e
“Xerxe’s Final Offer” vão levá-lo diretamente às cenas em
questão, porém essas faixas de forma independente não possuem
o mesmo impacto.
Com seu
passado de guitarrista e muitos filmes de terror na bagagem,
Bates acaba não sendo muito ortodoxo em sua abordagem, o que
ao mesmo tempo lhe traz benefícios e problemas. Ao passo que
utiliza de forma satisfatória sintetizadores para criar os
climas apropriados em “The Wolf”, em “No Sleep Tonight” ele
antecipa o clímax, seguido de um desnecessário ataque de
violinos. Bernard Herrmann deve ter pulado do caixão. Sua
vertente roqueira é latente em todo o álbum, mas sobressai
principalmente em duas faixas, “The Hot Gates” e “Fever Dream”,
onde encontramos até uma referência à música “Kashmir”,
clássico do Led Zeppelin. A acelerada bateria eletrônica e as
guitarras de timbre grave nos remetem à banda White Zombie. A
propósito, o diretor Rob Zombie, líder dessa banda (e para
quem Bates já trabalhara em
Os
Rejeitados do Diabo), chamou Bates para compor a
trilha da sua refilmagem de Halloween. Coincidência?
A trilha
também possui momentos, digamos, mais clássicos, onde é
possível identificarmos a influência de
Gladiador, porém sem
a mesma sutileza de
Hans Zimmer, além de música árabe e dos
coros de “Carmina Burana”, de Carl Orff. Destaques para o
vigoroso tema de encerramento “To Victory”, com vocais á la
Ofra Haza e uma bateria extremamente agressiva fazendo
contraponto com cítaras; a belíssima “Goodbye my Love” e seus
melodiosos vocais árabes; ”Come and Get Them”, que remete aos
antigos épicos romano-egípcios das décadas de 1950 e 1960; e
“Message for the Queen”, com uma melancólica combinação de
flauta doce, oboé e violinos. Em alguns momentos, porém, Bates
volta a errar a mão, como em “Returns a King”, um amontoado de
referências tratadas de forma confusa e histriônica, ou em
“Xerxe’s Tent”, uma combinação bastante infeliz das melodias
árabes das “1001 Noites” com percussão tribal e tons graves
usados em filme de horror classe B. Ele está desculpado nesse
caso, a cena do filme também é bastante constrangedora...
Tyler Bates terá um 2007 bastante atribulado, com o já citado
Halloween,
além da (também) refilmagem do (também) clássico Dia dos
Mortos, o novo filme da série Resident Evil e o aguardadíssimo
Watchmen. Parece que ele quer realmente
tornar-se um especialista em filmes de terror e quadrinhos...
A conferir, mas por hora, a trilha de 300 é recomendada aos
fãs do filme e aos não puristas.
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