ABOMINABLE
Música composta e regida por Lalo Schifrin

Selo: Aleph
Catálogo: 036
Lançamento: 2006
Faixas

1. Pre-title Sequence
2. Main Title
3. Animal Mutilations
4. Preston’s Memories
5. Abduction
6. There is Something Out There
7. Monster Vision
8. Preston and Amanda
9. The Cave
10. Squatch Revealed
11. Rampage
12. Setting the Trap
13. Rappelling
14. Escape Attempt
15. Off-Road Rage/ Final Battle
16. The Survivors
17. Searching the Woods
18. One Blade of Grass
19. Girls Next Door
20. Otis Leaves
21. Rampage – Alternate Version

Duração: 61:28
Cotação:


Comentário de
Jorge Luis Viera

 

Logo após seu inspirado score para The Bridge of San Luis Rey (2004) e antes de Rush Hour 3 (2007) e Josiah's Canon (2007), Lalo Schifrin, esse grande clássico autor da música do cinema, retornou com a trilha sonora de um filme de terror, gênero onde ele nos deu ótimos trabalhos como Amitiville Horror (1979). O filme Abominable é, até agora, o único que tem a característica de ser o primeiro filme onde um compositor estabelecido em Hollywood trabalha na estréia de seu descendente. Isso porque o diretor Ryan Schifrin é o filho do criador de Voyage Of the Damned, enquanto a produtora Donna Schifrin, já conhecida pelos aficionados através do selo musical Aleph Records, não é outra que não sua esposa. Podemos, então, considerar este como um filme familiar.

No argumento do filme, um homem tratará de salvar um grupo de jovens excursionistas do ataque do Abominável Homem das Neves, um terrível monstro antropófago que habita as montanhas. O filme apresenta, como vemos, uma versão obscura e diferente do tema do Sasquatch. Uma boa produção para uma película que remete diretamente aos filmes de monstros dos anos 1980. Ryan Schifrin fala sobre seu pai no encarte do CD: "Que ele tenha levado em conta que se tratava do meu primeiro filme é uma das coisas mais especiais que já experimentei. Estou muito orgulhoso do fato de que conseguimos colaborar em sua realização. É algo que guardarei até o resto da minha vida..." 

Apesar de Lalo ter uma importante experiência em filmes de terror, ele é mais conhecido por sua música para séries e películas de espionagem (recordemos
Mannix, The Eagle Has Landed, The Venetian Affair, Mission: Imposible, The Man from U.N.C.L.E.) e suas obras para filmes policiais como Cool Hand Luke, Bullitt e Dirty Harry. Ele foi indicado ao Oscar® por Amityille Horror em 1979, e foi o argentino quem compôs a partitura original rejeitada para The Exorcist. Como seria de se esperar nesta ocasião, o compositor pôde criar livremente sua partitura; o diretor, além de ser seu filho, é fã incondicional do gênero, tanto que incluiu no elenco os excelentes Dee Wallace Stone (a mãe de Elliot em E.T. The Extraterrestial), Lance Henriksen (Aliens) e Jeffrey Combs (Reanimator) - uma declaração de princípios, portanto.

Em seu desenvolvimento, Schifrin baseia muito de seu score no suspense, criando uma atmosfera não de horror, mas gloriosamente tensa. Quando a ação surge, ocorre de uma maneira muito natural que traz reminiscências musicais de antigos filmes, em contraste com o que estamos acostumados a ouvir na atualidade. "Monster Vision" também compartilha deste critério. Encontramos um interlúdio melodicamente estranho no tema "Preston and Amanda" onde há uma referência indireta ao romance, ainda que, de acordo com o contexto, continue sendo predominantemente sombria.

Através de todo o score a orquestra se arrasta gerando um sentido definido de ameaça, com freqüências graves e sinistras, quase agressivas. O piano do maestro argentino transmite muita tensão, que ganha energia com a percussão. Virtualmente ninguém compõe música como esta hoje em dia. Outro tema de ação maravilhosamente dinâmico é "Escape Attempt", onde o compositor opta desta vez por seqüenciar sua música para gerar emoção, descobrindo ante nossos ouvidos um trabalho ricamente orquestrado como já não parecia possível. Encontramos também um motivo que representará o Sasquatch, altamente eficaz e impressionista. É possível imaginar a fera atacando violentamente, cercando sua presa acompanhada por esta música sinistra. Este motivo aparecerá novamente, crispado, nos cinco minutos de "The Cave", um extenso exercício de dissonância, onde as texturas eletrônicas de Ruy Folguera se mostram incisivas, agregando outra dimensão à orquestra de Schifrin.

Devemos também comentar que o álbum inclui a canção "One Blade of Grass", escrita por Roy Bennet e Sid Tepper e interpretada por Pat Windsor Mitchell , além de três bonus tracks: a desconcertante – sobretudo neste contexto - "Girls Next Door", "Otis Leaves" e uma versão alternativa da excelente "Rampage". Escrito para uma orquestra de noventa instrumentos, gravado em Praga com a Orquestra Nacional Sinfônica Tcheca e com música eletrônica adicional do já mencionado Ruy Folguera, não é de estranhar que esta conjunção de fatores tenha resultado em um dos melhores scores de terror realizados recentemente.

O septuagenário Lalo Schifrin acumula cinco indicações ao Oscar
® em sua vasta carreira. Sua Abominable bem que poderia ser considerada outra de suas grandes trilhas sonoras, não porque seja um grande trabalho para um filme de baixo orçamento, o que é, mas sim porque nos recorda seu grande talento, como continua sendo subestimado hoje em dia por aqueles que tem Missão: Impossível e Dirty Harry como única referência de seu trabalho. 

Felizmente, as virtudes do álbum levarão o público a reexaminar a discografia que Lalo Schifrin construiu com maestria para cada gênero. Exercício que sem dúvida alguma trará beneficio aos seus ouvidos, permitindo-lhe ampliar seus conhecimentos e sensibilidade. Que assim seja.

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