A.I. Artificial IntelLigence
Música composta e regida por John Williams. Letras em "For Always" por Cinthya Weil. Solos vocais por Barbara Bonney. "For Always" interpretado por Lara Fabia e Josh Groban


Selo:
Warner/Sunset Records
Catálogo:
9362-48096-2
Ano: 2001

13 Faixas

Duração: 70:07
Cotação:

Comentário de
Miguel Andrade

 

John Williams, o mestre da 'pastiche', tal como o crítico e musicólogo Richard Dyer o chamou, regressa no projeto que Steven Spielberg herdou do lendário Stanley Kubrick. Acima de tudo, A.I. Artificial Intelligence é uma amálgama de estilos, amálgama essa que define o estilo do próprio Williams: um somatório de todo o seu conhecimento da história da música. Mas enquanto outros compositores não conseguem criar um som próprio e coeso, e apenas uma pálida imitação dos mestres que os antecedem, Williams consegue quase sempre, com raras exceções, criar um mundo musical eclético e no entanto coeso, que forma um todo orgânico. Nesse sentido, talvez Williams fosse o compositor mais indicado para um projeto de Kubrick, ainda que o realizador raras vezes solicitasse música original para os seus filmes, preferindo criar também amálgamas musicais, que no final conseguiam criar todos orgânicos. E ainda que o admirado realizador dificilmente fosse solicitar o trabalho deste compositor, a nova colaboração Spielberg/Williams é acima de tudo um fantástico tributo ao uso que Kubrick fazia da música. Kubrick usava seleções do repertório clássico que iam desde a música barroca até à dissonância e à atonalidade dos compositores contemporâneos, e a música de Williams para A.I. vai de forma mais ou menos indireta citar algumas dessas sonoridades, tão queridas para Kubrick.

Nesse sentido encontramos influências dos minimalistas John Adams, Philip Glass e Steve Reich para nos remeter para uma atmosfera mais mecanicista, uma referência mais próxima ao célebre uso do adágio do bailado 'Gayane' de Aram Khachaturian em 2001: A Space Odyssey, na elegia para cordas em "Cybertronics" (faixa 6), as sonoridades algo new-age no uso da voz da soprano, e o coro atonal de "Replicas", que nos remete para Ligeti (um dos compositores de eleição de Kubrick) e para o próprio Williams de Close Encounters of the Third Kind. E apesar de todas estas várias influências na partitura, conseguimos encontrar um número razoável de motivos recorrentes, alguns deles melódicos, outros apenas no uso de sonoridades orquestrais. "The Mecha World" inicia o CD, com uma fanfarra bastante discreta para os metais, e logo em seguida é-nos introduzido um pano de fundo orquestral minimalista. Com óbvias influências dos compositores Adams e Glass, esta textura musical impõe um ritmo imparável e arrasador, e embora toda a atmosfera que este proporciona seja de cortar a respiração, quando é finalmente substituído por outro tema, sentimos que podíamos ter continuado com ele para sempre. O tema que o segue, um dos temas mais melódicos da partitura, faz lembrar a música do compositor do final dos anos 70, início dos 80, muito em particular a partitura quase desconhecida para Heartbeeps, também ela sobre robôs com sentimentos.

O tema é delicioso, lembrando a infância, mas com uma enorme frieza, principalmente nesta primeira apresentação em que a melodia é apresentada pelo sintetizador, com apoio discreto da orquestra. Um maior desenvolvimento deste tema e no estilo de peça de concerto pode ser encontrado na faixa 4, "Hide and Seek", onde desta vez a melodia é apresentada pela flauta e outros instrumentos de sopro. Uma das peculiaridades deste trabalho de Williams é o uso tão intensivo de sons sintetizados, não muito habitual neste compositor. E ainda que o filme realmente solicite este tipo de sons, Williams usa-os discretamente, para complementar a textura orquestral e coral. São raros os casos em que o sintetizador tem a responsabilidade de apresentar o tema, tal como acontece no final de "The Mecha World". A faixa dois, "Abandoned in the Woods" continua a apresentar o material temático. Williams cria uma massa sonora nas cordas, também próxima do som dos minimalistas, que quase lembra o som de uma onda, mas por cima destas massas, apresenta uma melodia que a mim recorda o tema principal de Seven Years in Tibet, com a mesma qualidade épica, ainda que discreta, longe dos grandes fogos de artifício orquestrais pelos quais Williams é célebre. Mais à frente, em "Rouge City" (faixa 10) vamos ver estes temas trabalhados novamente. Note-se que no filme esta mesma mesma passagem inclui uma citação da valsa de "Der Rosenkavalier", de Richard Strauss, mas que por razões que desconheço não foi incluída no álbum. Kubrick disse a Spielberg que queria usar esta valsa no filme, e Williams encontrou na cena em que os protagonista entram em Rouge City, a oportunidade para lembrar a vontade do realizador.

"Replicas" (faixa 3) tem uma qualidade muito soturna, quase assustadora, ao mesmo tempo que altamente atmosférica. Após uma introdução, o coro num registro pianissimo, apresenta uma linha que me faz recordar "Lux Aeterna" de Ligeti, mas os sons que a orquestra lança sobre o coro são todos de Williams, remetendo-nos novamente para o Williams contemporâneo, o mesmo das salas de concerto, que faz menos concessões ao ouvido pouco preparado. Quando o coro desaparece, a música torna-se mais quente e calma, e sentimos que o pior já passou. Sobre "Cybertronics" pouco se pode dizer... nitidamente influenciada pelo adágio de Khachaturian para "Gayane", é música para cordas fria, calculista e estéril. Um dos momentos mais 'mexidos' desta partitura está em "The Moon Rising" (faixa 7). Música de ação, começa com a orquestra a marcar um forte e acelerado ritmo para logo passar para um segmento com música techno. Sobre os sons dos sintetizadores e percussão eletrônica, a criar o ritmo característico deste tipo de música de dança, ouvimos vocalizações que conferem à música uma qualidade algo etnográfica. Depois desta curta passagem, um momento mais calmo surge, mas os metais e cordas, com algum suporte de coro conspiram para voltar ao ambiente agressivo do início, e a peça chega ao seu final num tom próximo ao do atmosférico "Replicas". Daqui para a frente a música é dominada pelo coro e pela belíssima voz de Barbara Bonney. "Stored Memories and Monica's Theme" começa com o coro à capela, a entoar uma calma e serena melodia, reminescente no seu início do tema apresentado em "Cybertronics". À medida que avançamos e a orquestra começa a aparecer, somos remetidos para uma outra obra de Williams, Empire of the Sun. A meio desta faixa é-nos finalmente apresentado o "Monica's Theme", primeiro no violoncelo, apoiado sobre o piano, e depois apenas interpretado pelo piano, com discreto apoio das cordas.

O lindíssimo "Monica's Theme" metamorfoseia-se numa passagem mais bela ainda para a voz da excepcional Barbara Boney. Esta música parece saída de um sonho, do mais belo dos sonhos, e é sem dúvida um dos melhores momentos do CD. E apropriadamente, tal como se fosse num sonho, termina com a harpa, piano e efeitos suaves da percussão a entoar o tema. A apresentação completa do tema de Monica em "Where Dreams Are Born" (faixa 9), dá a oportunidade de Williams se juntar ao grupo de compositores que compuseram este tipo de peças para voz e acompanhamento, genericamente conhecidas por 'vocalise'. Tal como na faixa anterior, podia-se dizer que estamos próximos das sonoridades New Age, que me referi no início, mas Williams nunca deixa a sua música descer abaixo de determinada fasquia, fasquia essa que se encontra muito elevada. E assim sendo, seria uma surpresa se mais este tema não encontrasse o seu caminho até às salas de concerto. É, seguramente, um dos mais bonitos do compositor de E.T. "The Search for The Blue Fairy" continua neste caminho. Embora comece de uma forma mais ambiental, com uma atmosfera carregada, rapidamente chegamos a mais uma longa e bela passagem para voz e orquestra. Assente numa longa linha melódica, Bonney entoa uma canção sem palavras na mesma linha que a parte final de "Stored Memories and Monica's Theme", mas desta feita muito mais otimista. O verdadeiro culminar do álbum. "The Reunion" apresenta o tema de Monica, numa versão para piano e orquestra, com uma breve 'recordação' do tema apresentado em "Hide and Seek", e serviria como uma ótima forma de encerrar o CD...

Em retrospectiva, Williams não se limitou a compor uma partitura, mas duas, que se interligam e complementam. Temos massas sonoras minimalistas e atonais por um lado, e as melodias plenamente assentes na tradição romântica, como que saídas de um sonho, por outro. E como sempre, Williams, o tal mestre do ‘pastiche’, junta os extremos num todo pleno de harmonia. E como sempre, tal como é seu hábito, Williams superou-se, dando, através da sua música, novos mundos ao mundo... E depois de tão perfeita obra tínhamos que ter duas horríveis canções baseadas no lindíssimo "Monica's Theme". De quem partiu a idéia eu não sei, mas custa-me a acreditar que o mesmo homem, que com tão grande sensibilidade criou a música acima discutida, fosse capaz de, sozinho, assassinar a sua própria criação. A letra de Cynthia Weil é muito pobre e o arranjo de David Foster vulgar. Na sua melhor versão, interpretada por Lara Fabian, a canção "For Always" é difícil de suportar. No dueto de Fabian com Josh Groban, que parece saído de um filme da Disney, é um crime. Felizmente, temos a tecla de avanço nos nosso leitores de CD...

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