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John Williams, o
mestre da 'pastiche', tal como o crítico e musicólogo Richard Dyer o
chamou, regressa no projeto que Steven Spielberg herdou do lendário
Stanley Kubrick. Acima de tudo, A.I. Artificial Intelligence
é uma amálgama de estilos, amálgama essa que define o estilo do
próprio Williams: um somatório de todo o seu conhecimento da
história da música. Mas enquanto outros compositores não conseguem
criar um som próprio e coeso, e apenas uma pálida imitação dos
mestres que os antecedem, Williams consegue quase sempre, com raras
exceções, criar um mundo musical eclético e no entanto coeso, que
forma um todo orgânico. Nesse sentido, talvez Williams fosse o
compositor mais indicado para um projeto de Kubrick, ainda que o
realizador raras vezes solicitasse música original para os seus
filmes, preferindo criar também amálgamas musicais, que no final
conseguiam criar todos orgânicos. E ainda que o admirado realizador
dificilmente fosse solicitar o trabalho deste compositor, a nova
colaboração Spielberg/Williams é acima de tudo um fantástico tributo
ao uso que Kubrick fazia da música. Kubrick usava seleções do
repertório clássico que iam desde a música barroca até à dissonância
e à atonalidade dos compositores contemporâneos, e a música de
Williams para A.I. vai de forma mais ou menos indireta citar algumas
dessas sonoridades, tão queridas para Kubrick.
Nesse sentido encontramos influências dos minimalistas John Adams,
Philip Glass e Steve Reich para nos remeter para uma atmosfera mais
mecanicista, uma referência mais próxima ao célebre uso do adágio do
bailado 'Gayane' de Aram Khachaturian em 2001: A Space Odyssey,
na elegia para cordas em "Cybertronics" (faixa 6), as sonoridades
algo new-age no uso da voz da soprano, e o coro atonal de
"Replicas", que nos remete para Ligeti (um dos compositores de
eleição de Kubrick) e para o próprio Williams de Close Encounters
of the Third Kind. E apesar de todas estas várias influências na
partitura, conseguimos encontrar um número razoável de motivos
recorrentes, alguns deles melódicos, outros apenas no uso de
sonoridades orquestrais. "The Mecha World" inicia o CD, com uma
fanfarra bastante discreta para os metais, e logo em seguida é-nos
introduzido um pano de fundo orquestral minimalista. Com óbvias
influências dos compositores Adams e Glass, esta textura musical
impõe um ritmo imparável e arrasador, e embora toda a atmosfera que
este proporciona seja de cortar a respiração, quando é finalmente
substituído por outro tema, sentimos que podíamos ter continuado com
ele para sempre. O tema que o segue, um dos temas mais melódicos da
partitura, faz lembrar a música do compositor do final dos anos 70,
início dos 80, muito em particular a partitura quase desconhecida
para Heartbeeps, também ela sobre robôs com sentimentos.
O tema é delicioso, lembrando a infância, mas com uma enorme frieza,
principalmente nesta primeira apresentação em que a melodia é
apresentada pelo sintetizador, com apoio discreto da orquestra. Um
maior desenvolvimento deste tema e no estilo de peça de concerto
pode ser encontrado na faixa 4, "Hide and Seek", onde desta vez a
melodia é apresentada pela flauta e outros instrumentos de sopro.
Uma das peculiaridades deste trabalho de Williams é o uso tão
intensivo de sons sintetizados, não muito habitual neste compositor.
E ainda que o filme realmente solicite este tipo de sons, Williams
usa-os discretamente, para complementar a textura orquestral e
coral. São raros os casos em que o sintetizador tem a
responsabilidade de apresentar o tema, tal como acontece no final de
"The Mecha World". A faixa dois, "Abandoned in the Woods" continua a
apresentar o material temático. Williams cria uma massa sonora nas
cordas, também próxima do som dos minimalistas, que quase lembra o
som de uma onda, mas por cima destas massas, apresenta uma melodia
que a mim recorda o tema principal de Seven Years in Tibet,
com a mesma qualidade épica, ainda que discreta, longe dos grandes
fogos de artifício orquestrais pelos quais Williams é célebre. Mais
à frente, em "Rouge City" (faixa 10) vamos ver estes temas
trabalhados novamente. Note-se que no filme esta mesma mesma
passagem inclui uma citação da valsa de "Der Rosenkavalier", de
Richard Strauss, mas que por razões que desconheço não foi incluída
no álbum. Kubrick disse a Spielberg que queria usar esta valsa no
filme, e Williams encontrou na cena em que os protagonista entram em
Rouge City, a oportunidade para lembrar a vontade do realizador.
"Replicas" (faixa 3) tem uma qualidade muito soturna, quase
assustadora, ao mesmo tempo que altamente atmosférica. Após uma
introdução, o coro num registro pianissimo, apresenta uma
linha que me faz recordar "Lux Aeterna" de Ligeti, mas os sons que a
orquestra lança sobre o coro são todos de Williams, remetendo-nos
novamente para o Williams contemporâneo, o mesmo das salas de
concerto, que faz menos concessões ao ouvido pouco preparado. Quando
o coro desaparece, a música torna-se mais quente e calma, e sentimos
que o pior já passou. Sobre "Cybertronics" pouco se pode dizer...
nitidamente influenciada pelo adágio de Khachaturian para "Gayane",
é música para cordas fria, calculista e estéril. Um dos momentos
mais 'mexidos' desta partitura está em "The Moon Rising" (faixa 7).
Música de ação, começa com a orquestra a marcar um forte e acelerado
ritmo para logo passar para um segmento com música techno.
Sobre os sons dos sintetizadores e percussão eletrônica, a criar o
ritmo característico deste tipo de música de dança, ouvimos
vocalizações que conferem à música uma qualidade algo etnográfica.
Depois desta curta passagem, um momento mais calmo surge, mas os
metais e cordas, com algum suporte de coro conspiram para voltar ao
ambiente agressivo do início, e a peça chega ao seu final num tom
próximo ao do atmosférico "Replicas". Daqui para a frente a música é
dominada pelo coro e pela belíssima voz de Barbara Bonney. "Stored
Memories and Monica's Theme" começa com o coro à capela, a entoar
uma calma e serena melodia, reminescente no seu início do tema
apresentado em "Cybertronics". À medida que avançamos e a orquestra
começa a aparecer, somos remetidos para uma outra obra de Williams,
Empire of the Sun. A meio desta faixa é-nos finalmente
apresentado o "Monica's Theme", primeiro no violoncelo, apoiado
sobre o piano, e depois apenas interpretado pelo piano, com discreto
apoio das cordas.
O lindíssimo "Monica's Theme" metamorfoseia-se numa passagem mais
bela ainda para a voz da excepcional Barbara Boney. Esta música
parece saída de um sonho, do mais belo dos sonhos, e é sem dúvida um
dos melhores momentos do CD. E apropriadamente, tal como se fosse
num sonho, termina com a harpa, piano e efeitos suaves da percussão
a entoar o tema. A apresentação completa do tema de Monica em "Where
Dreams Are Born" (faixa 9), dá a oportunidade de Williams se juntar
ao grupo de compositores que compuseram este tipo de peças para voz
e acompanhamento, genericamente conhecidas por 'vocalise'. Tal como
na faixa anterior, podia-se dizer que estamos próximos das
sonoridades New Age, que me referi no início, mas Williams
nunca deixa a sua música descer abaixo de determinada fasquia,
fasquia essa que se encontra muito elevada. E assim sendo,
seria uma surpresa se mais este tema não encontrasse o seu caminho
até às salas de concerto. É, seguramente, um dos mais bonitos do
compositor de E.T. "The Search for The Blue Fairy"
continua neste caminho. Embora comece de uma forma mais ambiental,
com uma atmosfera carregada, rapidamente chegamos a mais uma longa e
bela passagem para voz e orquestra. Assente numa longa linha
melódica, Bonney entoa uma canção sem palavras na mesma linha que a
parte final de "Stored Memories and Monica's Theme", mas desta feita
muito mais otimista. O verdadeiro culminar do álbum. "The Reunion"
apresenta o tema de Monica, numa versão para piano e orquestra, com
uma breve 'recordação' do tema apresentado em "Hide and Seek", e
serviria como uma ótima forma de encerrar o CD...
Em retrospectiva, Williams não se limitou a compor uma partitura,
mas duas, que se interligam e complementam. Temos massas sonoras
minimalistas e atonais por um lado, e as melodias plenamente
assentes na tradição romântica, como que saídas de um sonho, por
outro. E como sempre, Williams, o tal mestre do ‘pastiche’, junta os
extremos num todo pleno de harmonia. E como sempre, tal como é seu
hábito, Williams superou-se, dando, através da sua música, novos
mundos ao mundo... E depois de tão perfeita obra tínhamos que ter
duas horríveis canções baseadas no lindíssimo "Monica's Theme". De
quem partiu a idéia eu não sei, mas custa-me a acreditar que o mesmo
homem, que com tão grande sensibilidade criou a música acima
discutida, fosse capaz de, sozinho, assassinar a sua própria
criação. A letra de Cynthia Weil é muito pobre e o arranjo de David
Foster vulgar. Na sua melhor versão, interpretada por Lara Fabian, a
canção "For Always" é difícil de suportar. No dueto de Fabian com
Josh Groban, que parece saído de um filme da Disney, é um crime.
Felizmente, temos a tecla de avanço nos nosso leitores de CD... |