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Intitulado "American Journey" nos
Estados Unidos, "Call of the Champions" (para o resto do mundo) é o
último álbum de John Williams, o mais famoso dos compositores
de Hollywood. Mas o repertório abordado nesta gravação afasta-se da
cidade dos sonhos feitos de celulóide, e celebra o espírito humano,
livre das limitações temporais que são impostas à música para
cinema. As honras de abertura recaem sobre "Call of the Champions",
a mais recente composição de Williams, escrita para a abertura dos
Jogos Olímpicos de Inverno em Salt Lake City. Assente numa breve e
simples fanfarra, é extraordinário como o compositor trabalha o seu
material, por forma a manter o interesse durante os cinco minutos
que dura a peça. Uma das razões que fizeram Williams aceitar mais
esta encomenda olímpica foi poder escrever para o famoso Mormon
Tabernacle Choir, de Utah, e o uso das 350 vozes do coro conferem à
peça uma espiritualidade adicional. É o próprio coro que abre esta
obra festiva, ao prenunciar o mote olímpico, "Citius, Altius,
Fortius" (mais rápido, mais alto, mais forte), mas no final Williams
adiciona a palavra "Clarius", uma palavra que pode referir-se "à
inteligência e clareza da mente", segundo o compositor, mas que
também pode muito bem ser uma apta descrição das extraordinárias
capacidades não só dos atletas que homenageia, mas do próprio
Williams. A fanfarra enquadra-se no tipo de peças para metais que
Williams tem escrito nos últimos anos, fazendo recordar o seu
trabalho em The Patriot.
Já mais para o final Williams apresenta uma variação sobre o tema
que pode ser descrita como natalícia, pertencente ao mesmo mundo
sonoro de Home Alone. A Utah Symphony e o Mormon Tabernacle
Choir oferecem uma interpretação competente para a primeira gravação
daquela que é a quarta composição olímpica de Williams. Menos
memorável é a prestação da Utah Symphony em "Hymn to New England".
Os metais ficam claramente aquém do desejado, embora o resto da
orquestra demonstre a adequada competência. Composto para o Omni
Museum de Boston em 1987, será do interesse dos seguidores de
Williams procurar a gravação de Keith Lockhard regendo a Boston Pops
Orchestra, da RCA Victor (ed. 1996), até porque o tema principal
usado nesta peça é simplesmente adorável. O grosso do álbum é
interpretado pela Recording Arts Orchestra of Los Angeles, uma
orquestra formada pelos mesmos músicos de estúdio que gravam as
partituras cinematográficas em Hollywood. Embora não sejam par para
a grande Boston Symphony, com quem Williams tem trabalhado há mais
de duas décadas, demonstram porque continuam a ser considerados
entre os músicos mais dignos de confiança.
"American Journey", a obra mais longa do CD (e que dá o nome à
edição norte americana), é o resultado de uma colaboração entre
Steven Spielberg, Williams e os poetas Rita Dove, Robert Pinsky e
Maya Angelou. Com base nas imagens de Spielberg e na poesia
original, Williams compôs, mais do que uma visita pelo século XX
americano, um catálogo das suas composições dos últimos quinze anos.
Há referências a Far and Away, The Patriot,
Rosewood e Saving Private Ryan, com um piscar de olho a
Aaron Copland no segmento "Popular Entertainment". Adicionado nesta
gravação está um novo segmento que não foi apresentado quando da
estréia desta colaboração multi-disciplinar, "Arts and Sports", que
faz lembrar "The Tennis Game" de The Witches of Eastwick.
Apesar das referências a trabalhos anteriores, "American Journey"
continua a ser uma obra satisfatória, muito embora perca por, nesta
gravação, estar ausente a narração. Na minha opinião eliminar a
narração desta obra seria o mesmo que a eliminar de obras com "Pedro
e o Lobo" de Prokofiev ou "Lincoln Portrait" de Copland. Estou certo
que esta escolha irá agradar muitos dos seguidores de música para
cinema, já que parecem abominar a palavra oral lado a lado com a
música, mas esta peça foi escrita com a palavra em mente, e há
momentos em que a música parece estar demasiado isolada. Já que a
interpretação é excelente, talvez a Sony Classical e Williams
resolvam no futuro gravar a narração para sobrepor sobre esta
gravação, até porque alguns destes textos originais são realmente
muito inspirados.
Das restantes peças festivas, começamos por "Song for World Peace",
composto em 1994 para uma transmissão televisiva no dia 1 de janeiro
de 1995, com Seiji Osawa a dirigir a orquestra no Japão e solistas
noutras localizações do globo (Yo-Yo Ma e o já desaparecido
Isaac Stern, nos Estados Unidos, por exemplo). Originalmente
intitulado "Satelite Celebration", o título atual deriva de um texto
cantado em japonês por dois solistas e um coro em África, mas para
esta gravação ficamos com uma versão apenas orquestral. "Song for
World Peace" pode ser vista como um parente próximo do finale
de Close Encounters of the Third Kind, já que Williams começa
por apresentar o seu tema, de apenas quatro notas, tocadas pela
trompa, cheia de lirismo. O tema vai visitando os vários
instrumentos e seções da orquestra, com direito a solos mais
extensos para violino e violoncelo, para chegar a um grand finale
para toda a orquestra. Um dos temas mais bonitos de Williams. "Jubilee
350" foi a primeira peça que Williams compôs para a Boston Pops em
1980 e é uma das suas melhores obras do gênero. Com destaque para os
metais e cordas imagino como teria sido ouvir a Boston Symphony
interpretar esta fanfarra. Em particular a parte para as cordas, já
que um dos pontos fortes dos músicos de Boston é sua quente seção de
cordas, mas a Recordings Arts Orchestra deixa aqui ficar uma
interpretação extremamente capaz.
O "The Mission Theme", uma versão de concerto de dois dos quatro
temas que Williams compôs em 1985 para a NBC News vê aqui uma nova
gravação, em tudo idêntica à anteriormente disponível pela Boston
Pops. Seria interessante que Williams preparasse também um arranjo
dos outros dois temas, já que o mais interessante dos quatro, uma
brilhante fuga, não está incluído nesta versão de concerto. "For New
York!", composto em 1988, em celebração do 70º aniversário do
lendário Leonard Bernstein, inclui três dos temas mais famosos do
compositor: "America", de West Side Story e "New York, New
York" e "Lonely Town" de On the Town. Inseridos sobre um
fundo orquestral minimalista, muito ao gênero do que Williams usou
recentemente em A.I. Artificial Inteligence, a peça conclui
com uma pequena citação de "Parabéns a Você". Esta versão é revista
e expandida, já que o original apenas tinha dois minutos. "Sound the
Bells!", composto para celebrar o casamento do Príncipe do Japão em
1993, foi a oferta de Williams, quando da digressão da Boston Pops
no pais. Originalmente escrito para metais e percussão, Williams
adaptou a peça para orquestra, tal como é aqui apresentada. Com um
uso massivo dos metais, é curioso notar que a peça tem um tom muito
menos oriental do que britânico. Como em muitas destas breves e
comemorativas peças que Williams foi escrevendo durante os anos, a
influência sonora parece vir muito mais da ilha de Sua Majestade do
que qualquer outro lugar. Esta peça em particular teve tão grande
aceitação por parte do público, que desde 1995 abre todos os
concertos televisionados da Boston Pops. Por fim, "Celebrate
Discovery" é uma marcha brilhante, composta em 1990 para celebrar os
quinhentos anos da chegada de Colombo às Américas.
Para terminar, a Sony Classical resolveu oferecer uma faixa bônus,
já disponível noutra edição, o excepcional "Summon the Heroes" de
1996, composto para o centenários dos Jogos Olímpicos. Infelizmente
a editora optou por ser modesta com a produção do CD, e apenas nos é
oferecido um folheto em preto e branco com um breve e muito pouco
explicativo texto sobre as peças apresentadas. Em síntese, um álbum
quase perfeito, e ficamos à espera que Williams continue a gravar
estas miniaturas orquestrais, que tanto lhe parecem agradar
escrever, e que certamente nos agradam ao ouvido. |