AMERICAN JOURNEY/CALL OF THE CHAMPIONS GIGOLO
The Mormon Tabernacle Choir, The Utah Symphony Orchestra, The Recording Arts Ensemble of Los Angeles, The Boston Pops Orchestra/John Williams

Selo:
Sony Classical
Catálogo:
SK 89364
15 Faixas
Duração: 60:50
Cotação:

Comentário de
Miguel Andrade

 

Intitulado "American Journey" nos Estados Unidos, "Call of the Champions" (para o resto do mundo) é o último álbum de John Williams, o mais famoso dos compositores de Hollywood. Mas o repertório abordado nesta gravação afasta-se da cidade dos sonhos feitos de celulóide, e celebra o espírito humano, livre das limitações temporais que são impostas à música para cinema. As honras de abertura recaem sobre "Call of the Champions", a mais recente composição de Williams, escrita para a abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno em Salt Lake City. Assente numa breve e simples fanfarra, é extraordinário como o compositor trabalha o seu material, por forma a manter o interesse durante os cinco minutos que dura a peça. Uma das razões que fizeram Williams aceitar mais esta encomenda olímpica foi poder escrever para o famoso Mormon Tabernacle Choir, de Utah, e o uso das 350 vozes do coro conferem à peça uma espiritualidade adicional. É o próprio coro que abre esta obra festiva, ao prenunciar o mote olímpico, "Citius, Altius, Fortius" (mais rápido, mais alto, mais forte), mas no final Williams adiciona a palavra "Clarius", uma palavra que pode referir-se "à inteligência e clareza da mente", segundo o compositor, mas que também pode muito bem ser uma apta descrição das extraordinárias capacidades não só dos atletas que homenageia, mas do próprio Williams. A fanfarra enquadra-se no tipo de peças para metais que Williams tem escrito nos últimos anos, fazendo recordar o seu trabalho em The Patriot.

Já mais para o final Williams apresenta uma variação sobre o tema que pode ser descrita como natalícia, pertencente ao mesmo mundo sonoro de Home Alone. A Utah Symphony e o Mormon Tabernacle Choir oferecem uma interpretação competente para a primeira gravação daquela que é a quarta composição olímpica de Williams. Menos memorável é a prestação da Utah Symphony em "Hymn to New England". Os metais ficam claramente aquém do desejado, embora o resto da orquestra demonstre a adequada competência. Composto para o Omni Museum de Boston em 1987, será do interesse dos seguidores de Williams procurar a gravação de Keith Lockhard regendo a Boston Pops Orchestra, da RCA Victor (ed. 1996), até porque o tema principal usado nesta peça é simplesmente adorável. O grosso do álbum é interpretado pela Recording Arts Orchestra of Los Angeles, uma orquestra formada pelos mesmos músicos de estúdio que gravam as partituras cinematográficas em Hollywood. Embora não sejam par para a grande Boston Symphony, com quem Williams tem trabalhado há mais de duas décadas, demonstram porque continuam a ser considerados entre os músicos mais dignos de confiança.

"American Journey", a obra mais longa do CD (e que dá o nome à edição norte americana), é o resultado de uma colaboração entre Steven Spielberg, Williams e os poetas Rita Dove, Robert Pinsky e Maya Angelou. Com base nas imagens de Spielberg e na poesia original, Williams compôs, mais do que uma visita pelo século XX americano, um catálogo das suas composições dos últimos quinze anos. Há referências a Far and Away, The Patriot, Rosewood e Saving Private Ryan, com um piscar de olho a Aaron Copland no segmento "Popular Entertainment". Adicionado nesta gravação está um novo segmento que não foi apresentado quando da estréia desta colaboração multi-disciplinar, "Arts and Sports", que faz lembrar "The Tennis Game" de The Witches of Eastwick. Apesar das referências a trabalhos anteriores, "American Journey" continua a ser uma obra satisfatória, muito embora perca por, nesta gravação, estar ausente a narração. Na minha opinião eliminar a narração desta obra seria o mesmo que a eliminar de obras com "Pedro e o Lobo" de Prokofiev ou "Lincoln Portrait" de Copland. Estou certo que esta escolha irá agradar muitos dos seguidores de música para cinema, já que parecem abominar a palavra oral lado a lado com a música, mas esta peça foi escrita com a palavra em mente, e há momentos em que a música parece estar demasiado isolada. Já que a interpretação é excelente, talvez a Sony Classical e Williams resolvam no futuro gravar a narração para sobrepor sobre esta gravação, até porque alguns destes textos originais são realmente muito inspirados.

Das restantes peças festivas, começamos por "Song for World Peace", composto em 1994 para uma transmissão televisiva no dia 1 de janeiro de 1995, com Seiji Osawa a dirigir a orquestra no Japão e solistas noutras localizações do globo (Yo-Yo Ma e o já desaparecido Isaac Stern, nos Estados Unidos, por exemplo). Originalmente intitulado "Satelite Celebration", o título atual deriva de um texto cantado em japonês por dois solistas e um coro em África, mas para esta gravação ficamos com uma versão apenas orquestral. "Song for World Peace" pode ser vista como um parente próximo do finale de Close Encounters of the Third Kind, já que Williams começa por apresentar o seu tema, de apenas quatro notas, tocadas pela trompa, cheia de lirismo. O tema vai visitando os vários instrumentos e seções da orquestra, com direito a solos mais extensos para violino e violoncelo, para chegar a um grand finale para toda a orquestra. Um dos temas mais bonitos de Williams. "Jubilee 350" foi a primeira peça que Williams compôs para a Boston Pops em 1980 e é uma das suas melhores obras do gênero. Com destaque para os metais e cordas imagino como teria sido ouvir a Boston Symphony interpretar esta fanfarra. Em particular a parte para as cordas, já que um dos pontos fortes dos músicos de Boston é sua quente seção de cordas, mas a Recordings Arts Orchestra deixa aqui ficar uma interpretação extremamente capaz.

O "The Mission Theme", uma versão de concerto de dois dos quatro temas que Williams compôs em 1985 para a NBC News vê aqui uma nova gravação, em tudo idêntica à anteriormente disponível pela Boston Pops. Seria interessante que Williams preparasse também um arranjo dos outros dois temas, já que o mais interessante dos quatro, uma brilhante fuga, não está incluído nesta versão de concerto. "For New York!", composto em 1988, em celebração do 70º aniversário do lendário Leonard Bernstein, inclui três dos temas mais famosos do compositor: "America", de West Side Story e "New York, New York" e "Lonely Town" de On the Town. Inseridos sobre um fundo orquestral minimalista, muito ao gênero do que Williams usou recentemente em A.I. Artificial Inteligence, a peça conclui com uma pequena citação de "Parabéns a Você". Esta versão é revista e expandida, já que o original apenas tinha dois minutos. "Sound the Bells!", composto para celebrar o casamento do Príncipe do Japão em 1993, foi a oferta de Williams, quando da digressão da Boston Pops no pais. Originalmente escrito para metais e percussão, Williams adaptou a peça para orquestra, tal como é aqui apresentada. Com um uso massivo dos metais, é curioso notar que a peça tem um tom muito menos oriental do que britânico. Como em muitas destas breves e comemorativas peças que Williams foi escrevendo durante os anos, a influência sonora parece vir muito mais da ilha de Sua Majestade do que qualquer outro lugar. Esta peça em particular teve tão grande aceitação por parte do público, que desde 1995 abre todos os concertos televisionados da Boston Pops. Por fim, "Celebrate Discovery" é uma marcha brilhante, composta em 1990 para celebrar os quinhentos anos da chegada de Colombo às Américas.

Para terminar, a Sony Classical resolveu oferecer uma faixa bônus, já disponível noutra edição, o excepcional "Summon the Heroes" de 1996, composto para o centenários dos Jogos Olímpicos. Infelizmente a editora optou por ser modesta com a produção do CD, e apenas nos é oferecido um folheto em preto e branco com um breve e muito pouco explicativo texto sobre as peças apresentadas. Em síntese, um álbum quase perfeito, e ficamos à espera que Williams continue a gravar estas miniaturas orquestrais, que tanto lhe parecem agradar escrever, e que certamente nos agradam ao ouvido.

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