|
Depois do sucesso alcançado pelo premiado épico
Coração Valente,
Mel Gibson enveredou pelo pantanoso terreno dos filmes
religiosos com o discutível e discutido
A
Paixão de Cristo, falado em hebreu e
aramaico. Sua última empreitada,
Apocalypto,
mistura a violência do primeiro com o naturalismo do segundo,
contando a história dos guerreiros maias totalmente na língua
nativa. Apesar de qualidades estéticas e coragem
incontestáveis, o filme chocou muitos, desagradou outros
tantos e não fez tanto sucesso.
Para musicar essa saga latino-americana, Gibson contou com a
ajuda de James Horner, com quem já havia trabalhado em
Coração Valente.
E não deve ter se arrependido; o trabalho do vencedor do Oscar
por
Titanic
não é original em sua essência, mas é absolutamente funcional
para a saga de Jaguar Paw.
É difícil ser inovador ao compor trilhas para filmes sobre
civilizações nativas das Américas, depois de trabalhos como o
de
Morricone para A
Missão,
Rosenman
para Um Homem Chamado
Cavalo e
Vangelis
para 1492,
mas Horner se esmerou ao buscar na natureza elementos
essenciais para a criação do clima necessário. O canto do
Uirapuru e de outros pássaros estão principalmente na primeira
e na última faixa do álbum, ao lado de sons como de água
corrente e pedras. Só tem um probleminha: o compositor usou
exatamente os mesmos recursos em
Um Novo Mundo,
de Terrence Mallick.
Para aumentar ainda mais essa atmosfera, Horner convocou os
vocalistas Rahat Nusrat Fateh Ali Khan (com quem já havia
trabalhado em Honra e
Coragem) e Terry Edwards. Contrastantes
vocalizações, a de Khan ora lírica ora gutural, e a de Edwards
delicada, são marcas de diversas faixas, como na longa "Holcane
Attack", na tensa e acelerada "Tapir Hunt" ou em "Words
Through the Sky - The Eclipse", um dos melhores momentos.
Mas nem tudo são flores... Pode incomodar aos mais puristas a
presença constante de sintetizadores na maior parte das
faixas. Se usado com moderação, é um recurso que dá a textura
necessária; mas dessa vez pareceu uma conveniência quase
econômica de Horner, principalmente ao substituir cordas e
metais por equivalentes digitais. Os instrumentos de sopro
restantes, como flautas e oboés, soam como meras cópias do
trabalho de Morricone, e são invariavelmente ofuscados por uma
percussão interessante, porém agressiva além da medida. Às
vezes funciona, como na bela "Civilisations Brought by Sea",
mas em outros momentos soa falso, como em "Captives" e "No
Longer The Hunted" ou "The Games and Escape", que
descaradamente se perde, e não consegue segurar a tensão
sugerida.
Como comentei no início, é uma trilha que funciona muito mais
com o auxílio das fortes imagens de Gibson do que sozinhas. Se
você busca elegância, grandes temas ou música de fácil
assimilação,
Apocalypto não é a pedida. Mas se você está
atrás de uma trilha que sublinhe a agressividade e o
nervosismo musical necessário para um filme igualmente brutal,
divirta-se! |