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Angelo Badalamenti
é um compositor mal aproveitado. Um músico a quem o prestígio de ser
o braço direito musical do genial diretor David Lynch é proporcional
ao isolamento que isto lhe provocou. Muitas vezes estas parcerias
músico & diretor fazem com que outros diretores tenham receio de
recorrer a esse mesmo compositor, alegadamente para evitar que se
façam comparações com seu colega... Seja como for, é difícil, muito
difícil encontrar uma composição de Angelo Badalamenti fora do
universo Lynch que pertença a algum filme importante (entenda-se por
importante: grande publicidade, elenco conhecido e desempenho de
bilheteria). Poderia ir além, e incluir nesta reflexão a qualidade
musical da obra do compositor. Porque excetuando Cousins
(final dos anos 80) e o recente filme de Jean-Pierre Jeunet Un
Long Dimanche de Fiançailles, o compositor ítalo-americano não
realizou muitas partituras que mereçam ser recordadas.
Pois bem, com Dark Water o compositor rompe um pouco com esta
dinâmica. Refilmagem de um exitoso filme japonês de mesmo nome, dos
criadores de Ringu, Dark Water busca repetir o êxito
obtido pelos remakes americanos da saga japonesa de O
Chamado. Curiosa a escolha de seu diretor: Walter Salles,
responsável pelo brilhante Central do Brasil e o aclamado
Diários de Motocicleta. Digo curiosa, porque não é normal ver um
representante do cinema indie num filme comercial como este.
Menos curioso, porém não menos interessante, é o elenco: a
deslumbrante Jennifer Connelly, John C.Reilly, Tim Roth e Pete
Postlethwaite.
Uma vez refletida a entidade do filme, cabe destacar o papel musical
de Badalamenti. Sua partitura apresenta duas linhas musicais
absolutamente opostas, mas que tendem a unir-se para dar
homogeneidade ao conjunto. Por um lado, um belíssimo tema central
para cordas e discreto apoio orquestral (piano, harpa, sopros),
associado à relação entre Dahlia Williams (Jennifer Connelly) e sua
filha Ceci. E junto a ela, um agoniado e efetivo pesadelo musical,
de crescendos orquestrais, passagens de contenção perturbadora e
dissonâncias eletrônicas, que refletem à perfeição o elemento de
terror da história, a ameaça que cresce sobre mãe e filha,
estendendo-se à investigação do misterioso e horrível segredo que
encerra a casa onde ambas buscam iniciar uma nova vida.
O disco inicia com a contida e misteriosa “Seattle, 1974”, onde a
distorção das cordas, as reverberações de piano e esse âmago de
desenvolvimento melódico, conseguem estabelecer as bases da
partitura. “The Tram (Main Title”), ainda que mantendo a linha
harmônica da faixa anterior, apresenta como grande diferença a
inclusão do tema central, primeiro para cordas e logo com apoio do
piano. A atmosfera etérea e a surpreendente percussão de “Ceci
Wanders” serão tomadas como referência de outras composições, como
“Deluge in 10F”, de grande intensidade orquestral. Entre ambas, duas
faixas de mera efetividade descritiva como “The Drip Stain” e “Flotsam”.
Em todas, também se destacam as contínuas referências ao tema
central. “Mom From Hell”, “A Ghost in the Machine” e “New Nightmare”
não modulam o caráter exaustivo da música, incidindo na opressão
orquestral, nas variações insanas do tema central e na música como
instrumento descritivo e aterrador.
O desenlace musical do filme arranca com a intensa “The Water Love”,
à qual se seguirá a trepidante “The Sacrifice”, onde Badalamenti
demonstra sua capacidade para a composição de temas de ação. São
duas faixas que contrastam com o acústico do violão e das cordas de
“Final Elevator”, introduzindo uma bela versão do tema central,
antes da aparição dos créditos finais - uma elegante suíte de seis
minutos de duração, onde o tema central é o grande protagonista, sem
desprezar acertados contrapontos da onipresente música de terror
escrita por Badalamenti para o filme. Um encerramento perfeito para
a trilha sonora.
Sem dúvida, Dark Water é um score que será bem
desfrutado por aqueles que buscam passagens frias e opressivas, mas
sobretudo bonitas e elegantes melodias orquestrais na linha do
emocionante trabalho do compositor para Un Long Dimanche de
Fiançailles. |