DARK WATER
Música composta por Angelo Badalamenti

Selo:
Hollywood Records
Catálogo: HWD162492

Ano: 2005
Faixas:
1. Seattle, 1974
2. The Tram (Main Title)
3. Cecil Wanders
4. The Drip Stain
5. Floatsam
6. Deluge In 10F
7. Mom From Hell
8. A Ghost In The Machine
9. New Nightmare
10. Hello Again Kitty
11. The Water Tower
12. The Sacrifice
13. Final Elevator
14. End Credits

Duração: 41:50
Cotação:

Comentário de
Pablo Nieto

 

Angelo Badalamenti é um compositor mal aproveitado. Um músico a quem o prestígio de ser o braço direito musical do genial diretor David Lynch é proporcional ao isolamento que isto lhe provocou. Muitas vezes estas parcerias músico & diretor fazem com que outros diretores tenham receio de recorrer a esse mesmo compositor, alegadamente para evitar que se façam comparações com seu colega... Seja como for, é difícil, muito difícil encontrar uma composição de Angelo Badalamenti fora do universo Lynch que pertença a algum filme importante (entenda-se por importante: grande publicidade, elenco conhecido e desempenho de bilheteria). Poderia ir além, e incluir nesta reflexão a qualidade musical da obra do compositor. Porque excetuando Cousins (final dos anos 80) e o recente filme de Jean-Pierre Jeunet Un Long Dimanche de Fiançailles, o compositor ítalo-americano não realizou muitas partituras que mereçam ser recordadas.

Pois bem, com Dark Water o compositor rompe um pouco com esta dinâmica. Refilmagem de um exitoso filme japonês de mesmo nome, dos criadores de Ringu, Dark Water busca repetir o êxito obtido pelos remakes americanos da saga japonesa de O Chamado. Curiosa a escolha de seu diretor: Walter Salles, responsável pelo brilhante Central do Brasil e o aclamado Diários de Motocicleta. Digo curiosa, porque não é normal ver um representante do cinema indie num filme comercial como este. Menos curioso, porém não menos interessante, é o elenco: a deslumbrante Jennifer Connelly, John C.Reilly, Tim Roth e Pete Postlethwaite.

Uma vez refletida a entidade do filme, cabe destacar o papel musical de Badalamenti. Sua partitura apresenta duas linhas musicais absolutamente opostas, mas que tendem a unir-se para dar homogeneidade ao conjunto. Por um lado, um belíssimo tema central para cordas e discreto apoio orquestral (piano, harpa, sopros), associado à relação entre Dahlia Williams (Jennifer Connelly) e sua filha Ceci. E junto a ela, um agoniado e efetivo pesadelo musical, de crescendos orquestrais, passagens de contenção perturbadora e dissonâncias eletrônicas, que refletem à perfeição o elemento de terror da história, a ameaça que cresce sobre mãe e filha, estendendo-se à investigação do misterioso e horrível segredo que encerra a casa onde ambas buscam iniciar uma nova vida.

O disco inicia com a contida e misteriosa “Seattle, 1974”, onde a distorção das cordas, as reverberações de piano e esse âmago de desenvolvimento melódico, conseguem estabelecer as bases da partitura. “The Tram (Main Title”), ainda que mantendo a linha harmônica da faixa anterior, apresenta como grande diferença a inclusão do tema central, primeiro para cordas e logo com apoio do piano. A atmosfera etérea e a surpreendente percussão de “Ceci Wanders” serão tomadas como referência de outras composições, como “Deluge in 10F”, de grande intensidade orquestral. Entre ambas, duas faixas de mera efetividade descritiva como “The Drip Stain” e “Flotsam”. Em todas, também se destacam as contínuas referências ao tema central. “Mom From Hell”, “A Ghost in the Machine” e “New Nightmare” não modulam o caráter exaustivo da música, incidindo na opressão orquestral, nas variações insanas do tema central e na música como instrumento descritivo e aterrador.

O desenlace musical do filme arranca com a intensa “The Water Love”, à qual se seguirá a trepidante “The Sacrifice”, onde Badalamenti demonstra sua capacidade para a composição de temas de ação. São duas faixas que contrastam com o acústico do violão e das cordas de “Final Elevator”, introduzindo uma bela versão do tema central, antes da aparição dos créditos finais - uma elegante suíte de seis minutos de duração, onde o tema central é o grande protagonista, sem desprezar acertados contrapontos da onipresente música de terror escrita por Badalamenti para o filme. Um encerramento perfeito para a trilha sonora.

Sem dúvida, Dark Water é um score que será bem desfrutado por aqueles que buscam passagens frias e opressivas, mas sobretudo bonitas e elegantes melodias orquestrais na linha do emocionante trabalho do compositor para Un Long Dimanche de Fiançailles.

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