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Após sucumbir talvez ao excesso em seu segundo filme 21
Gramas, o diretor Alejandro González
Iñárritu se recupera com Babel, o último capítulo da trilogia de Iñárritu e Arriaga
que obtém um
novo recorde de indicações, prêmios, boas críticas e elogios, e recupera
a
visão positiva com que o espectador recebeu o primeiro título, Amores Brutos
–
filme que já vaticinava o personalíssimo toque sentimental, não
sentimentalóide, de seu diretor, para narrar historias de homens e
mulheres, de azares e caprichos, de relações e destruições.
Babel é a reminiscência mitológica que explica a ambição do
homem e sua condenação. Babel é uma história de incapacidade de
comunicação. Das conseqüências de tal sina.
Do deserto de tijolos de Tóquio, passando pelo do Marrocos, sem esquecer
o do Novo México, quatro historias se entrelaçam. Um casal americano (Pitt
e Blanchett) buscando no isolamento um ponto de
encontro para recuperar sua comunicação; uma mexicana que
descerá aos infernos da imigração buscando compatibilizar sus tradições com suas
obrigações para com os filhos do matrimônio; dois irmãos marroquinos deixam voar sua
imaginação através de um
perigoso jogo de trágicas conseqüências; uma adolescente japonesa
surda-muda, rejeitada por sua incapacidade
e que apenas através do sexo vê a
saída para seu futuro.
Um dos fatores-chave desta fábula, e fio condutor da
história é sua onírica e ajustada trilha sonora. Gustavo Santaolalla
elabora uma composição mal agradecida, alheia a fogos de artifício.
Metódica, sóbria. Árida como o deserto que invade o todo. Solitária e
evocativa. Irmã de sangue de Paris-Texas
de Ry Cooder. Sua
ruptura com os cânones clássicos de composição, com a previsível
resolução de cenas, com as imposições da indústria americana, a colocam
na vanguarda de uma revolução que o mesmo se nega a
liderar. E mesmo assim, a lidera. Após ganhar o Oscar® por
Brokeback Mountain
(muito mais lírico que este trabalho), o que menos se esperava
era um coquetel molotov como Babel, que ainda por cima deu
ao compositor sua segunda estatueta consecutiva. Mas aqui ele está.
Num ano de escassez, devemos desnudar esta partitura
para tratar de compreender a verdadeira essência da função da música
cinematográfica. Santaolalla se preocupa em ajudar o filme, e de adequar-se humildemente
às regras da montagem, aos largos silêncios
ventosos, ao sol abrasador.
Coesão entre sua música, as imagens, e as canções que povoam este
universo de desencontros: Cumbias, folk de feitura indie
e tex-mex para
a celebração noMéxico, club sessions no contemporâneo Japão junto
ao intimismo obsessivo e preciosista de Hisaishi, que também acompanha
cenas do Marrocos, ao abrigo do mundo oriental em suas diferentes interpretações.
Santaolalla nos presenteia com um interessante arranjo de sua mítica
“Iguazú” - um clássico da introspecção minimalista, para guitarra, e sobretudo
de coesão. Sakamoto interpreta a faixa de tempo mezzo, “Bibo no Aozora”,
e
por isso também, completamente desoladora, com ventos de fundo
constantes fazendo o leit-motiv, que acompanha as cenas
que transcorrem no Japão. História esta, a oriental, mais desvinculada
de suas companheiras de metragem, e também por isso, talvez a mais surpreendente
e comentada.
O tema “Deportation” utiliza a guitarra como motor de arranque e o
vento em crescendo para falar da miséria humana, com inquietação, com
movimento, com desespero e, finalmente, com aceitação em terras
hispano-americanas. A corda de origem árabe, sóbria e grave, utiliza a voz como
acompanhamento de reminiscências muçulmanas em “Tazarine” tema de
aceitação dos fatos pela fé, de bonança desinteressada, de súplica
não escutada. Dissonâncias eletrônicas, com aproximação arábica
complementam a sonoridade de cada peça. Uma abstração musical, talvez de
pouco desfrute separada de seu particular oásis
visual.
Fiel a suas obsessões, Santaolalla conclui a saga com a
satisfação de ter atingido o fim que parecia pretender desde o início: não
é o filme em si o mais importante, mas sim suscitar, através de cada personagem, sentimentos empáticos que tanto incomodam
como emocionam o espectador. Seus personagens evoluem à base de
golpes de sorte – boa e má – e isso sempre nos recorda - gostemos ou não
- a evolução arriscada de nossa própria vida.
Cada cena tem seu tema musical - ou é o contrário? – porque na
colaboração Santaolalla e González Iñárritu é difícil
discernir o lirismo mais cru da realidade mais
poética. |