BABEL
Música composta por Gustavo Santaolalla

Selo: Concord Records
Catálogo: 30191
Lançamento: 2006
Faixas

CD 1
1. Tazarine
2. Tu Me Acostumbraste (Chavela Vargas)
3. September/The Joker (Earth Wind & Fire/Fatboy Slim)
4. Deportation/Iguazu (Gustavo Santaolalla)
5. World Citizen- I Won't be Dissapointed/Looped Piano (David Sylvian, Ryuichi Sakamoto, Amadeo Pace, Keigo Oyamada & Sketch Show)
6. Cumbia Sobre El Rio (Blanquito Man, Control Machete & Carlos Peña Y Su Ronda Bogota)
7. Hiding It
8. Materpiece (Rip Slyme)
9. Dester Bus Ride
10. Bibo no Aozora/Endless Fight/Babel (Ryuichi Sakamoto, Jaques Morelenbaum & Everton Nelson/Gustavo Santaolalla)
11. Tribal
12. Para Que Regreses (El Chapo)
13. Babel (Nortec Collective)
14. Amelia Desert Morning
15. Jugo A La Vida (Los Tucanes de Tijuana)
16. Breathing Soul
17. The Blinding Sun

CD 2
1. Only Love can Conquer Hate (Ryuichi Sakamoto)
2. El Panchangon (Los Incomparables)
3. Two Worlds, One Heart
4. The Phone Call
5. Gekkoh
6. The Catch
7. Mujer Hermosa (Los Incomparables)
8. Into The Wild
9. Look Inside
10. The Master
11. Oh My Juliet! (Takashi Fujii)
12. Prayer
13. El Besito Cachicurris (Daniel Luna)
14. Walking In Tokyo
15. The Visitors (Hamza El Din)
16. Morning Pray
17. Mi Adoracion (Agua Caliente)
18. The Skin Of The Earth
19. Bibo no Aozora/04 (Ryuichi Sakamoto, Jaques Morelenbaum & Yuichiro Gotoh)


Duração: 130:35
Cotação:


Comentário de
Verónica Mellado

 

Após sucumbir talvez ao excesso em seu segundo filme 21 Gramas, o diretor Alejandro González Iñárritu se recupera com Babel, o último capítulo da trilogia de Iñárritu e Arriaga que obtém um novo recorde de indicações, prêmios, boas críticas e elogios, e recupera a visão positiva com que o espectador recebeu o primeiro título, Amores Brutos – filme que já vaticinava o personalíssimo toque sentimental, não sentimentalóide, de seu diretor, para narrar historias de homens e mulheres, de azares e caprichos, de relações e destruições.

Babel é a reminiscência mitológica que explica a ambição do homem e sua condenação. Babel é uma história de incapacidade de comunicação. Das conseqüências de tal sina. Do deserto de tijolos de Tóquio, passando pelo do Marrocos, sem esquecer o do Novo México, quatro historias se entrelaçam. Um casal americano (Pitt e Blanchett) buscando no isolamento um ponto de encontro para recuperar sua comunicação; uma mexicana que descerá aos infernos da imigração buscando compatibilizar sus tradições com suas obrigações para com os filhos do matrimônio; dois irmãos marroquinos deixam voar sua imaginação através de um perigoso jogo de trágicas conseqüências; uma adolescente japonesa surda-muda, rejeitada por sua incapacidade e que apenas através do sexo vê a saída para seu futuro.

Um dos fatores-chave desta fábula, e fio condutor da história é sua onírica e ajustada trilha sonora. Gustavo Santaolalla elabora uma composição mal agradecida, alheia a fogos de artifício. Metódica, sóbria. Árida como o deserto que invade o todo. Solitária e evocativa. Irmã de sangue de
Paris-Texas de Ry Cooder. Sua ruptura com os cânones clássicos de composição, com a previsível resolução de cenas, com as imposições da indústria americana, a colocam na vanguarda de uma revolução que o mesmo se nega a liderar. E mesmo assim, a lidera. Após ganhar o Oscar
® por Brokeback Mountain (muito mais lírico que este trabalho), o que menos se esperava era um coquetel molotov como Babel, que ainda por cima deu ao compositor sua segunda estatueta consecutiva. Mas aqui ele está.

Num ano de escassez, devemos desnudar esta partitura para tratar de compreender a verdadeira essência da função da música cinematográfica. Santaolalla se preocupa em ajudar o filme, e de adequar-se humildemente às regras da montagem, aos largos silêncios ventosos, ao sol abrasador. Coesão entre sua música, as imagens, e as canções que povoam este universo de desencontros: Cumbias, folk de feitura indie e tex-mex para a celebração noMéxico, club sessions no contemporâneo Japão junto ao intimismo obsessivo e preciosista de Hisaishi, que também acompanha cenas do Marrocos, ao abrigo do mundo oriental em suas diferentes interpretações.

Santaolalla nos presenteia com um interessante arranjo de sua mítica “Iguazú” - um clássico da introspecção minimalista, para guitarra, e sobretudo de coesão. Sakamoto interpreta a faixa de tempo mezzo, “Bibo no Aozora”, e por isso também, completamente desoladora, com ventos de fundo constantes fazendo o leit-motiv, que acompanha as cenas que transcorrem no Japão. História esta, a oriental, mais desvinculada de suas companheiras de metragem, e também por isso, talvez a mais surpreendente e comentada.

O tema “Deportation” utiliza a guitarra como motor de arranque e o vento em crescendo para falar da miséria humana, com inquietação, com movimento, com desespero e, finalmente, com aceitação em terras hispano-americanas. A corda de origem árabe, sóbria e grave, utiliza a voz como acompanhamento de reminiscências muçulmanas em “Tazarine” tema de aceitação dos fatos pela fé, de bonança desinteressada, de súplica não escutada. Dissonâncias eletrônicas, com aproximação arábica complementam a sonoridade de cada peça. Uma abstração musical, talvez de pouco desfrute separada de seu particular oásis visual.

Fiel a suas obsessões, Santaolalla conclui a saga com a satisfação de ter atingido o fim que parecia pretender desde o início: não é o filme em si o mais importante, mas sim suscitar, através de cada personagem, sentimentos empáticos que tanto incomodam como emocionam o espectador. Seus personagens evoluem à base de golpes de sorte – boa e má – e isso sempre nos recorda - gostemos ou não - a evolução arriscada de nossa própria vida. Cada cena tem seu tema musical - ou é o contrário? – porque na colaboração Santaolalla e González Iñárritu é difícil discernir o lirismo mais cru da realidade mais poética.

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