BATMAN BEGINS
Música composta por James Newton Howard e
Hans Zimmer, regida por Gavin Greenaway

Selo:
Warner Sunset Records
Catálogo:
71324
Ano: 2005

Faixas:
1. Vespertilio 
2. Eptesicus 
3. Myotis 
4. Barbastella 
5. Artibeus 
6. Tadarida 
7. Macrotus 
8. Antrozous 
9. Nycteris 
10. Molossus 
11. Corynorhinus 
12. Lasiurus

Duração: 60:30
Cotação:

Comentário de
Jorge Saldanha

 

Quinze anos e quatro filmes progressivamente piores depois, quando foi confirmada a realização de um novo longa-metragem de Batman, os fãs de trilhas sonoras e do próprio Homem-Morcego começaram a imaginar o tipo de música que seria agregada à produção, e quem seria o responsável. No filme de Tim Burton de 1989, Danny Elfman estabeleceu o padrão musical para a franquia: um tema forte, marcante, embutido em partituras orquestrais exuberantes. Este padrão foi seguido mesmo nos filmes musicados por Elliot Goldenthal e na Série Animada, a cargo da competente Shirley Walker. O diretor escolhido para a nova produção que reinventaria Batman, Christopher Nolan, havia feito ótimos filmes mas que não tiveram scores de expressão, e finalmente quando divulgou-se que a partitura de BATMAN BEGINS seria composta por Hans Zimmer e James Newton Howard, o espanto foi geral. O que esperar de uma parceria inesperada como esta?

O tempo passou, e novos detalhes surgiram: o primeiro escolhido de Nolan foi Zimmer, que há tempos pensava em realizar um projeto com Howard. Achando que esta seria a empreitada ideal para a parceria, Zimmer, com a bênção do diretor, convidou Howard e... aqui estamos. O CD com a trilha sonora de Batman Begins foi lançado, inclusive aqui no Brasil, antes mesmo da estréia do filme no cinema, e uma vez que normalmente procuro avaliar uma trilha sonora apenas após assistir ao filme, e mesmo já tendo escutado um par de vezes o disco, estava evitando escrever este comentário. Afinal, o ideal é que a trilha sonora seja primeiramente avaliada através de sua efetiva utilização no produto final, até porque muitas vezes, em sua transposição para o disco, ocorrem mudanças significativas (alteração na ordem cronológica da música, combinação de peças isoladas em suítes, regravações, etc.). De qualquer maneira, desde a primeira audição tive certeza de uma coisa: a trilha original de Batman Begins rompeu com a tradição musical dos filmes anteriores - é outra espécie de criatura.

Para começar, no que parece ser uma maldição dos atuais filmes do gênero, ela não tem “o” tema, aquela assinatura musical marcante que fica gravada na nossa cabeça quando saímos do cinema. E isso, para mim, já tira alguns pontos do trabalho. Tendo visto o filme, acredito poder fazer, finalmente, uma avaliação justa deste score que, segundo dizem, teve um tema de Howard descartado pelo diretor Nolan. Aliás, nos créditos do CD não fica identificado quem compôs o que, e ainda por cima indicam haver música adicional de
Ramin Djawadi (Blade Trinity) e Mel Wesson. Mesmo assim, quem conhece o trabalho prévio dos dois compositores não terá dificuldades em identificar segmentos criados por um ou por outro. Da parte de Zimmer, temos trechos que remetem a Chuva Negra, Zona Mortal, Hannibal e Além da Linha Vermelha; da parte de Howard, ouvimos sonoridades que lembram, por exemplo, Corpo Fechado e A Vila . O score apresenta dois motivos dominantes: o de Batman, mais sombrio e ameaçador (e de construção mais simples), inicia com uma cadência lenta (obtida com efeitos de percussão eletrônica) que imita o bater de asas de um grande morcego, e que ao longo do score evoluirá para um motivo de duas notas; e o de Bruce Wayne, melancólico e ao mesmo tempo esperançoso, que representa a busca para superar seus medos e o complexo de culpa, além de servir como tema romântico nas cenas divididas com a personagem Rachel Dawes.

 “Vespertilio”, a música que abre o CD, é ouvida na introdução do filme, onde a cadência percussiva do tema do morcego recebe o acompanhamento de violinos e acordes bitonais interpretados pelos metais, que se repetem. Aparentemente esta é uma faixa onde os dois compositores trabalharam a quatro mãos. Já “Eptesicus”, no trecho que acompanha a cena do assassinato dos pais do garoto Bruce Wayne, possui cordas e piano característicos de Howard. Mas quando a composição passa a descrever o treinamento marcial de Bruce com Ducard, a música claramente é de Zimmer, já que tanto em melodia como em orquestração poderia muito bem pertencer aos scores de Além da Linha Vermelha ou O Último Samurai. “Myotis”, que em sua primeira metade é lenta e atmosférica, transforma-se em típica música de ação de Zimmer, com sua habitual combinação de sintetizadores e orquestra, a partir do momento em que Bruce confronta Ra's Al Gul e os ninjas da Liga das Sombras. Ao seu final, entra uma versão do motivo de Bruce, interpretado pelas cordas. “Barbastela” é uma faixa triste, com uma voz de soprano secundada pela seção de cordas e o piano típicos de Howard, que ao seu final ganha metais, percussão eletrônica e transforma-se no motivo de Batman.

“Artibeus”, que acompanha as imagens provocadas pela droga alucinógena do Espantalho, é uma peça atonal baseada em cordas, digna de um filme de horror, e meu palpite é que seja de autoria de Howard. “Tadarida”, introduzida por cello, cordas e a voz de soprano, também me soa como obra principalmente de Howard, mas logo ganha efeitos eletrônicos misturados ao motivo do morcego, a fim de marcar o primeiro encontro de Batman com o Espantalho. Do mesmo modo, a parte inicial de “Macrotus”, uma interpretação do motivo de Bruce com violinos e piano lembrando algo da música de A Vila, é claramente de Howard. Já o segmento que segue, com sintetizadores, tem a marca de Zimmer. “Antrozous”, iniciada com a cadência das asas do morcego, é outra faixa de ação típica de Zimmer, mais do que similar às que ouvimos em Chuva Negra. “Molossus” é a melhor faixa de ação do score, ouvida no confronto de Batman com os ninjas de Ra’s Al Gul em Gotham. Com base eletrônica e metais que, ocasionalmente repetindo o refrão do morcego, conduzem a melodia, é outra composição que leva a marca de Zimmer. Howard, com seu piano e cordas, retorna em “Corynorhinus”, composição ouvida quase ao final do filme e que em parte serve como acompanhamento romântico para Bruce e Rachel.

O score encerra-se com “Lasiurus”, uma faixa atmosférica e progressivamente dramática, que ao final de seus sete minutos de duração, após ter atingido seu clímax, irá encerrar o álbum com o bater de asas do morcego. Então, tendo ouvido esta trilha sonora no filme e em CD, posso chegar a duas conclusões: a primeira, é de que o score dá um suporte adequado à atmosfera criada por Nolan em
Batman Begins, já que se trata de música sombria, na maior parte do tempo visando criar uma ambientação de ameaça ou melancolia (o diretor provavelmente optou por música que não fosse demasiadamente exuberante, intrusiva); a segunda, é de que parte de sua eficácia é perdida quando ouvida em CD, isolada das imagens. Ou seja, cumpre a função primordial de uma trilha sonora, que é a de servir bem ao filme, mas revela não ser uma experiência auditiva particularmente interessante em disco - ainda que preservando qualidades.

Aliás, me pergunto do porquê deste filme ter necessitado mais de um compositor. No disco fica mais do que claro que tanto Howard como Zimmer trabalharam com o “pé no freio”, seja pelo trabalho conjunto, seja por orientação do diretor. Ambos, isoladamente, já criaram obras mais criativas e palatáveis, mesmo ouvidas isoladamente em CD. Para o bem ou para o mal,
Batman Begins marca as transformações que foram feitas pela Warner para tentar recuperar sua valiosa franquia, mas ainda sinto saudades do tema musical wagneriano do filme de 1989.

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