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Quinze anos e
quatro filmes progressivamente piores depois, quando foi confirmada
a realização de um novo longa-metragem de Batman, os fãs de trilhas
sonoras e do próprio Homem-Morcego começaram a imaginar o tipo de
música que seria agregada à produção, e quem seria o responsável. No
filme de Tim Burton de 1989,
Danny Elfman
estabeleceu o padrão musical para a franquia: um tema forte,
marcante, embutido em partituras orquestrais exuberantes. Este
padrão foi seguido mesmo nos filmes musicados por Elliot Goldenthal
e na Série Animada, a cargo da competente Shirley Walker. O
diretor escolhido para a nova produção que reinventaria Batman,
Christopher Nolan, havia feito ótimos filmes mas que não tiveram
scores de expressão, e
finalmente quando divulgou-se que a partitura de BATMAN BEGINS seria
composta por Hans
Zimmer e James
Newton Howard, o espanto foi geral. O que esperar de uma
parceria inesperada como esta?
O tempo passou, e novos detalhes surgiram: o primeiro escolhido de
Nolan foi Zimmer, que há tempos pensava em realizar um projeto com
Howard. Achando que esta seria a empreitada ideal para a parceria,
Zimmer, com a bênção do diretor, convidou Howard e... aqui estamos.
O CD com a trilha sonora de Batman Begins foi lançado,
inclusive aqui no Brasil, antes mesmo da estréia do filme no cinema,
e uma vez que normalmente procuro avaliar uma trilha sonora apenas
após assistir ao filme, e mesmo já tendo escutado um par de vezes o
disco, estava evitando escrever este comentário. Afinal, o ideal é
que a trilha sonora seja primeiramente avaliada através de sua
efetiva utilização no produto final, até porque muitas vezes, em sua
transposição para o disco, ocorrem mudanças significativas
(alteração na ordem cronológica da música, combinação de peças
isoladas em suítes, regravações, etc.). De qualquer maneira, desde a
primeira audição tive certeza de uma coisa: a trilha original de
Batman Begins rompeu com a tradição musical dos filmes
anteriores - é outra espécie de criatura.
Para começar, no que parece ser uma maldição dos atuais filmes do
gênero, ela não tem “o” tema, aquela assinatura musical marcante que
fica gravada na nossa cabeça quando saímos do cinema. E isso, para
mim, já tira alguns pontos do trabalho. Tendo visto o filme,
acredito poder fazer, finalmente, uma avaliação justa deste
score que, segundo
dizem, teve um tema de Howard descartado pelo diretor Nolan. Aliás,
nos créditos do CD não fica identificado quem compôs o que, e ainda
por cima indicam haver música adicional de
Ramin Djawadi (Blade
Trinity) e Mel Wesson. Mesmo assim, quem conhece o trabalho
prévio dos dois compositores não terá dificuldades em identificar
segmentos criados por um ou por outro. Da parte de Zimmer, temos
trechos que remetem a Chuva Negra,
Zona Mortal,
Hannibal e
Além da Linha Vermelha;
da parte de Howard, ouvimos sonoridades que lembram, por exemplo,
Corpo Fechado
e
A Vila
. O
score apresenta dois
motivos dominantes: o de Batman, mais sombrio e ameaçador (e de
construção mais simples), inicia
com uma cadência lenta (obtida com efeitos de percussão eletrônica)
que imita o bater de asas de um grande morcego, e que ao longo do
score evoluirá para um motivo de duas notas; e o de Bruce Wayne,
melancólico e ao mesmo tempo esperançoso, que representa a busca
para superar seus medos e o complexo de culpa, além de servir como
tema romântico nas cenas divididas com a personagem Rachel Dawes.
“Vespertilio”, a música que abre o CD, é ouvida na introdução do
filme, onde a cadência percussiva do tema do morcego recebe o
acompanhamento de violinos e acordes bitonais interpretados pelos
metais, que se repetem. Aparentemente esta é uma faixa onde os dois
compositores trabalharam a quatro mãos. Já “Eptesicus”, no trecho
que acompanha a cena do assassinato dos pais do garoto Bruce Wayne,
possui cordas e piano característicos de Howard. Mas quando a
composição passa a descrever o treinamento marcial de Bruce com
Ducard, a música claramente é de Zimmer, já que tanto em melodia
como em orquestração poderia muito bem pertencer aos
scores de
Além da Linha Vermelha ou
O Último Samurai. “Myotis”,
que em sua primeira metade é lenta e atmosférica, transforma-se em
típica música de ação de Zimmer, com sua habitual combinação de
sintetizadores e orquestra, a partir do momento em que Bruce
confronta Ra's Al Gul e os ninjas da Liga das Sombras. Ao seu final,
entra uma versão do motivo de Bruce, interpretado pelas cordas.
“Barbastela” é uma faixa triste, com uma voz de soprano secundada
pela seção de cordas e o piano típicos de Howard, que ao seu final
ganha metais, percussão eletrônica e transforma-se no motivo de
Batman.
“Artibeus”, que acompanha as imagens provocadas pela droga
alucinógena do Espantalho, é uma peça atonal baseada em cordas,
digna de um filme de horror, e meu palpite é que seja de autoria de
Howard. “Tadarida”, introduzida por
cello, cordas e a voz de
soprano, também me soa como obra principalmente de Howard, mas logo
ganha efeitos eletrônicos misturados ao motivo do morcego, a fim de
marcar o primeiro encontro de Batman com o Espantalho. Do mesmo
modo, a parte inicial de “Macrotus”, uma interpretação do motivo de
Bruce com violinos e piano lembrando algo da música de
A Vila, é claramente de
Howard. Já o segmento que segue, com sintetizadores, tem a marca de
Zimmer. “Antrozous”, iniciada com a cadência das asas do morcego, é
outra faixa de ação típica de Zimmer, mais do que similar às que
ouvimos em Chuva Negra.
“Molossus” é a melhor faixa de ação do
score, ouvida no
confronto de Batman com os ninjas de Ra’s Al Gul em Gotham. Com base
eletrônica e metais que, ocasionalmente repetindo o refrão do
morcego, conduzem a melodia, é outra composição que leva a marca de
Zimmer. Howard, com seu piano e cordas, retorna em “Corynorhinus”,
composição ouvida quase ao final do filme e que em parte serve como
acompanhamento romântico para Bruce e Rachel.
O score encerra-se
com “Lasiurus”, uma faixa atmosférica e progressivamente dramática,
que ao final de seus sete minutos de duração, após ter atingido seu
clímax, irá encerrar o álbum com o bater de asas do morcego. Então,
tendo ouvido esta trilha sonora no filme e em CD, posso chegar a
duas conclusões: a primeira, é de que o
score dá um suporte
adequado à atmosfera criada por Nolan em
Batman Begins,
já que se trata de música sombria, na maior parte do tempo visando
criar uma ambientação de ameaça ou melancolia (o diretor
provavelmente optou por música que não fosse demasiadamente
exuberante, intrusiva); a segunda, é de que parte de sua eficácia é
perdida quando ouvida em CD, isolada das imagens. Ou seja, cumpre a
função primordial de uma trilha sonora, que é a de servir bem ao
filme, mas revela não ser uma experiência auditiva particularmente
interessante em disco - ainda que preservando qualidades.
Aliás, me pergunto do porquê deste filme ter necessitado mais de um
compositor. No disco fica mais do que claro que tanto Howard como
Zimmer trabalharam com o “pé no freio”, seja pelo trabalho conjunto,
seja por orientação do diretor. Ambos, isoladamente, já criaram
obras mais criativas e palatáveis, mesmo ouvidas isoladamente em CD.
Para o bem ou para o mal,
Batman Begins
marca as
transformações que foram feitas pela Warner para tentar recuperar
sua valiosa franquia, mas ainda sinto saudades do tema musical
wagneriano do filme de 1989. |