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Sem sombra de dúvida, O Curioso Caso de
Benjamin Button, de David Fincher, é um dos longas mais
aguardados do ano. Já ovacionado pela crítica, o filme, que
narra a saga de Benjamin Button (Brad Pitt), que nasce velho
e vai ficando jovem através dos anos, tem tudo para se
transformar em um clássico, assim como sua trilha, composta
por aquele a quem considero o melhor compositor da
atualidade, Alexandre Desplat. Pois bem, Desplat cria em
Benjamin Button não só a melhor trilha de toda a sua
carreira, mas também uma das melhores que já ouvi. Toda a
partitura é mágica, impecável, suave, belíssima, e tem um
tema que penetra em sua mente de modo realmente grandioso.
O álbum da trilha do filme é composto por
dois discos - o primeiro trazendo a partitura de Desplat, o
segundo contendo diálogos de personagens e canções
de vários intérpretes, onde predomina o
jazz. Esta resenha vai se ater exclusivamente ao
score de Desplat, presente no CD 1.
A primeira faixa, “Postcards” é irretocável,
envolta por um clima fantástico que se propaga por violinos
mágicos que parecem estar tocando em uma noite estrelada,
assim como o piano. Já em “Mr. Gateau” mais uma vez temos a
melodia que remete às fadas, e a que está contando um
clássico. A surrealista mistura de instrumentos
característica de Desplat funciona muito bem novamente.
“Meeting Daisy” começa com um pianinho que parece ser uma
caixinha de música e depois dá espaço à flautas e oboés, com
cordas com staccatos, aparecendo ali o tema do longa.
Em “A New Life” inicia com o tema do filme - magnífico,
provavelmente o mais belo já criado por Desplat, onde os
violinos mágicos mais uma vez aparecem em uma melodia que
toca no fundo da alma - posteriormente, novamente a flauta e
os oboés se destacam, onde um acordeon faz timidamente o
fundo. Passando para a faixa 5, ao ouvir “Love in Mourmansk”
sentimos como se estivéssemos sendo levados a um mundo
totalmente novo, mergulhando no centro da imaginação que
cada um tem dentro de si.
Em “Meeting Again” o que marca é a suavidade,
em uma nostalgia doce e onde o amor é a única coisa que se
pode sentir ao ouvir-se faixas tão belas. Em “Mr. Button”
mais uma vez Desplat utiliza a mistura de instrumentos, algo
que ele faz realmente bem, onde a sensibilidade é tamanha
que é impossível não comover-se. Já “Little Man Oti” tem o
uso da percussão, muito bem utilizada - estamos diante de
uma verdadeira grande obra - esta faixa por exemplo, poderia
muito bem estar a descrever uma obra de Monet ou Paul Klee.
Novamente o tema é utilizado, na faixa “Alone at Night”, de
modo clássico e sublime. Em “It Was Nice to Have Meet You”,
a melodia se encaminha como um túnel que se fecha em um
ciclo - os ciclos da vida de Benjamin Button. Já em
“Children Games” há uma tristeza que se inicia como uma
caixa de música, e depois vem um um pianinho bem suave, como
deve ser.
A genialidade também está presente em
“Submarine Attack”, onde há um suspense em que a orquestra
brilha e um barulho como um tic tac perfura a intensidade da
trilha. Em “The Hummingbird” a melodia soa como poesia,
sendo mais um pedacinho desta soberba trilha onde
simplesmente não há defeitos. Já na faixa “Sunrise On
Pontchartrain” há uma calma que nos deixa em estado de
pureza interior, onde podemos esquecer todos os nossos
problemas ao ouvir algo tão único. É engraçado como a faixa
“Daisy's Ballet Career” remete ao som do vento, e nos deixa
nos levar pelo tempo, como se as notas flutuassem entre si.
Em “The Accident”, fica claro nesta trilha que Desplat não
se foca em um único instrumento. A ótima utilização de todos
eles é que faz a diferença.
Em “Stay Out Of My Life” o piano remete aos
segundos, como se fosse o som do relógio sendo invocado. E
ouvindo “Nothing Lasts”, a sensação é que não se precisa de
mais nada na vida - apenas estar ali, exatamente ali,
sentindo verdadeiramente cada segundo, cada nota, cada
instrumento. Em “Some Things You Never Forget” há a
melancolia que vai chegando ao fim da história, onde o tempo
não pára, e não irá parar. “Growing Younger” soa como se
fosse pingos de chuva - ternos e adoráveis. Aproximando-se
do final, em “Dying Away”, o tema retorna mas desta vez
amargurado, triste e inquieto. “Benjamin and Daisy” é a
faixa que encerra o score de Desplat, onde o piano
impera, único, tocando com muita dignidade e beleza toda a
emoção existente em Benjamin Button, com uma dedicação
inabalável, perfeita.
E caminhando por nuvens onde é inigualável
sua superioridade, Alexandre Desplat pode morrer feliz: ele
tem, aqui, a trilha do ano, do século... a sua obra-prima. |