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Esta edição da editora francesa Audivis
deixa em vergonha muitas das editoras habitualmente responsáveis
pelos principais lançamentos de música para cinema (ou mesmo música
clássica). Onde as interpretações destas obras de um dos grandes da
época dourada de Hollywood possam eventualmente falhar, os valores
de produção claramente as fazem parecer preocupações menores. O CD,
apresentado numa embalagem digipak, inclui um livro com notas
da autoria de Alain Garel em francês e inglês, que são as mais
completas e precisas que li em muito tempo. O ensaio de Garel faz
uma rápida revisão da vida e obra de
Miklos Rózsa
para depois apresentar uma excelente explicação das obras gravadas.
No total são seis páginas de 12x12 cm cheias de informação. Neste
aspecto, este lançamento já serve de modelo para futuras edições.
Quando à música propriamente dita são-nos apresentadas versões no
mínimo competentes de duas obras já muito gravadas de Rózsa, e o
menos conhecido Concerto para Piano e Orquestra op. 31. Neste
caso a mais valia está na escolha da orquestra. Em vez de termos uma
das orquestras habituadas a gravar música para cinema, foi escolhida
uma orquestra do pais natal de Rózsa, e a diferença de leitura,
principalmente nas cordas e sopros, sente-se em toda a música. Em
geral os tempos e dinâmicas são idênticas a outras gravações do "Spellbound
Concerto" e dos excertos de Ben Hur. Este último ganha um som
mais europeu, oposto ao som mais cortante e cheio, mas menos
idiomático das orquestras norte americanas e britânicas.
No entanto é aqui também que sentimos o principal problema da
orquestra, uma seção de metais com pouca força, principalmente nos
trompetes. Isso é particularmente notório durante alguns dos seis
movimentos da suíte de Ben-Hur, "Prelude" (Maestoso-Allegro),
no início de "The Burning Desert" (Pesante) e no excerto mais
famoso, "Parade of the Charioteers" (Alla Marcia Romana). Os três
outros movimentos da suíte são "Love Theme" (Lento), "Rowing of the
Galley Slaves" (Molto Moderato) e "The Mother’s Love" (Lento), estes
contando com uma fantástica interpretação pelas cordas da orquestra.
A gravação do "Spellbound Concerto" encontra-se entre uma das
melhores que já ouvi, muito embora a predominância do piano nesta
interpretação obscureça em algumas passagens o excelente trabalho da
orquestra. Danielle Laval é uma solista dedicada à música que
interpreta, mas a sua interpretação é para mim muito fria e
mecânica. Laval regressa na última peça do CD, a menos conhecida das
três, o extenso Concerto para Piano op. 31.
Nas completas notas são explicadas as dificuldades que Rózsa sentiu,
mas ao ouvir o concerto neste inspirada interpretação, uma pessoa
fica a pensar se o compositor não sofreria de um excesso de
modéstia. O concerto também nos permite questionar se Rózsa chegou
realmente a levar uma vida dupla, como o próprio lhe chamou... A
música para sala de concertos é tipicamente Rózsa, exatamente da
mesma forma que a sua música para cinema o é. Até o ouvinte mais
distraído identificaria imediatamente o compositor desta peça. A
isso deve-se o fato de Rózsa nunca ter feito grandes concessões no
que referia à música para cinema, mantendo-se sempre fiel ao seu
coração musical.
O Concerto para Piano segue a tradição clássica de três movimentos,
na seqüência rápido, lento, rápido. Composto entre 1965 e 1966 para
Leonard Pennario (que o estreou em 66 com a L.A. Philharmonic sob a
direção de Zubin Mehta) a obra faz grandes exigências ao solista,
que durante os cerca de 30 minutos de duração não tem quase um único
momento de descanso. Laval é austera na sua interpretação e a
orquestra dirigida por Kovács contribui com um som quente e
idiomático (particularmente no movimento central, com predominância
para as cordas e corne inglês). Indispensável para os admiradores
deste grande compositor, e altamente recomendável para todos os
outros. |