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Falar
de Alan
Silvestri é falar de trilhas temáticas. O compositor que
já nos agraciou com excelentes scores aventurescos e
marcantes como
O
Retorno da Múmia,
Van
Helsing e Uma Noite no Museu, nesta trilha
nos traz uma abordagem mais épica em Beowulf.
O filme em si já é bastante ousado por se tratar de um longa
de animação com modelagem virtual de atores como John
Malkovich, Anthony Hopkins e a musa Angelina Jolie. Com a
enxurrada de animações sendo produzidas por estúdios como
Pixar e Dreamworks, onde junto com a animação sempre temos
uma história levemente infantil e cômica, ouvir falar sobre
uma nova produção de animação já não era mais algo
empolgante. Beowulf quebrou este paradigma. Desta vez
não há nada de infantil, muito menos de cômico (salve
algumas tiradas do próprio herói Beowulf durante a
trama, que fizeram o cinema inteiro dar boas gargalhadas).
Este filme é repleto de batalhas sangrentas, monstros
terríveis e muita poesia nas entrelinhas.
A trilha é cheia de temas orquestrais específicos para
personagens e cenas (leitmotifs, método tão usado pelo
mestre John
Williams) o que já faz com que ganhe bastante crédito,
já que enfrentamos tempos onde trilhas ridiculamente
compostas muitas vezes nem possuem música, apenas ruídos e
sons eletrônicos. O tema principal do nosso herói abre o
score com trompas cantando uma linda melodia sobre um
coro que parece estar fazendo uma espécie de grito de
guerra, acompanhado de forte percussão. Aliás, percussões
fortes são algo que parece ter virado modismo em trilhas
épicas, e como não podia ser diferente Silvestri adota esta
marca no decorrer de toda a trilha. Outra marca de Silvestri
são os solos e temas de trompa, presentes em quase todas
faixas. Já na segunda faixa somos apresentados ao tema mais
sombrio da trilha, trata-se do tema de Grendel, uma criatura
demoníaca que assola um vilarejo. Este tema será tocado
diversas vezes em momentos mais darks do filme.
Simplesmente adorei este tema e a forma como retrata o drama
do monstro Grendel em relação à dor nos seus ouvidos,
causada pelas cantorias dos moradores do vilarejo. Ao mesmo
tempo traduz, o medo e a escuridão causados pela presença
dessa criatura durante seus ataques.
Em seguida temos uma bela canção céltica tocada na harpa e
acompanhada com a doce voz da atriz Robin Wright Penn, que
no filme representa a linda jovem Wealthow. A próxima faixa
"What We need is a Hero" traz o tema principal do filme
novamente, seguida de um motivo que me lembrou um pouco "Gunbarrel"
dos filmes de 007, com uma melodia cromática que vai e
volta. Este é um tema de ação que vai se repetir algumas
vezes durante o filme. "I'm Here To Kill Your Monster" é uma
faixa mais mista, começa com percussões que lembram um pouco
Van Helsing, entra então um motivo misterioso de
trompa que dura apenas alguns poucos compassos para culminar
no tema principal, tocado nas trompas também. "I Did Not Win
The Race" é predominante de ação, indo desde agitados
confrontos, até momentos mais calmos e misteriosos.
Em "A Hero Comes Home" novamente podemos apreciar o
suave timbre de Robin Wright Penn. Em uma versão de canção
céltica ela interpreta um dos temas mais dramáticos do
filme, que será tocado em outros momentos com interpretação
da orquestra. "Second Attack of Grendel" traz um início de
metais que me lembrou bastante aquelas trilhas de desenhos
animados como He-Man e os Mestres do Universo e
Caverna do Dragão, que tinham composição se não me
engano de Haim Saban e Shuki Levy, aliás não só neste como
em outros momentos da trilha notei similaridades com as
dissonâncias que essa dupla usava em suas trilhas. A faixa
segue mesclando metais, coros e percussões agressivas sem
pausa, até o fim. "I am Beowulf" é uma faixa repleta de
mistério na sua primeira metade, onde temos algumas linhas
do tema de Beowulf entrando na caverna do monstro e de sua
mãe, que será exposto na integra na próxima faixa. A segunda
metade nos traz o tema dramático do filme, "A Hero Comes
Home" agora interpretado pela orquestra como eu havia
mencionado anteriormente.
"The Seduction" é uma das minhas faixas preferidas junto
com "First Grendel Attack" e "What we Need is A Hero". É
sombria, cheia de suspense, magia e um pouquinho de drama
estabelecidos pela harmonia sinistra. A Instrumentação desta
faixa quebra um pouco com o resto da trilha onde metais
prevalecem, e aqui dá lugar para as cordas, madeiras, harpa
e alguns toques de glockenspiel. "King Beowulf" nos
traz o tema de Grendel em uma nova versão em registro mais
grave, o clima porém é quebrado por um coro apocalíptico e
alguns motivos de metais. As próximas quatro faixas são
apenas releituras de temas, com exposição diferente ou
alguma variante na instrumentação, mas nada que prenda a
atenção, com exceção de "He Has A Story to Tell" que traz um
motivo misterioso nas trompas logo no começo, que lembra o
tema de Grendel, com algumas modificações.
"The Final Seduction" é mais uma faixa da minha lista de
preferidas. Começa com o tema de Beowulf na caverna, que
pode também ser interpretado como tema da mãe de Grendel,
pois há uma certa associação entre as aparições dela e este
tema de harpa. E fechamos o disco com uma versão completa da
canção "A Hero Comes Home" em um estilo que mistura música
pop com orquestra, e por mais que eu pense que estas
misturas nunca ficam boas, o resultado aqui foi simplesmente
lindo e emocionante, tendo sido difícil conter as lágrimas
durante sua execução no filme.
Beowulf é uma trilha cheia de momentos, nuances, e
temas marcantes que engrandecem as imagens vistas na tela.
Com certeza vai entrar para a minha coleção particular de
trilhas. |