BERNARD HERRMANN: THE ESSENTIAL FILM MUSIC COLLECTION
Música composta por Bernard Herrmann

Selo: Silva Screen
Catálogo: SILCD 1208
Lançamento: 2006
Faixas

CD 1
1. Citizen Kane - Overture (2:45)
2. The Ghost And Mrs Muir - Prelude / Finale (4:56)
3. The Ghost And Mrs Muir - Nocturne (3:34)
4. On Dangerous Ground - Suite (14:17)
5. The Day The Earth Stood Still - Suite (5:37)
6. The Snows of Kilimanjaro - Romance (8:17)
7. The Snows of Kilimanjaro - Memory Waltz (4:23)
8. The Trouble With Harry - A Portrait Of Hitch (8:49)
9. The Man Who Knew Too Much - Prelude (2:17)
10. The Naked And The Dead - Prelude (2:16)
11. Vertigo - Prelude / Nightmare (5:00)
12. Vertigo - Scene D´Amour (5:08)
13. The Seventh Voyage Of Sinbad - Main Title (2:00)

CD 2
1. North By Northwest - Prelude (3:09)
2. North By Northwest - Conversation Piece (4:41)
3. The Three Worlds Of Gulliver - Overture (2:00)
4. The Twilight Zone - Main Themes (2:51)
5. Psycho - Suite (7:19)
6. Mysterious Island - Prelude / The Balloon (4:14)
7. Mysterious Island - Giant Bees / The Giant Crab (4:55)
8. Cape Fear - Suite (5:40)
9. Jason And The Argonauts - Prelude (2:00)
10. Marnie - Prelude & Farewell (5:13)
11. Torn Curtain - Suite (6:01)
12. Fahrenheit 451 - The Road / The Search (7:03)
13. Twisted Nerve - Theme & Variations (5:35)
14. Obsession - Valse Lente (1:47)
15. Taxi Driver - Night Piece For Saxophone & Orchestra (8:02)

Duração: 139:59
Cotação:


Comentário de
José-Vidal Rodriguez

 

Por certo não serei eu que atestarei ao leitor o vastíssimo talento de um dos compositores mais trascendentais da música de cinema. Bernard Herrmann é, por méritos próprios, um mito a quem a Sétima Arte deve alguns dos momentos sonoros mais brilhantes de sua história. Criador de uma infinidade de recursos e técnicas musicais aplicadas à imagem, Herrmann continua sendo reverenciado até hoje por numerosos músicos, que direta ou indiretamente, agregaram ao seu estilo boa parte dos peculiares esquemas de composição do nova-iorquino. Tanto é assim que o termo "herrmaniano" ou "herrmanesco" ("herrmanesque" em inglês) se converteu em vocábulo aplicado com freqüência para descrever as características de não poucas partituras contemporâneas. O selo Silva Screen, na falta dos direitos de lançamento de scores de renome, segue com sua estratégia de lançar coletâneas aproveitando seu arquivo com as numerosas regravações efetuadas pela Orquestra Filarmônica de Praga. Sem surpresa, a presente edição nada mais é que a reunião de seleções de álbuns anteriores da gravadora britânica em homenagem ao maestro, portanto grande parte de seu conteúdo já é conhecido pelo comprador habitual deste tipo de compilação. Ainda assim, relevada tal circunstância, este "Film Music Collection" se revela um álbum duplo dos mais interessantes, principalmente para aqueles que desejam iniciar-se na obra do autor, sem ter que desembolsar as altas somas de todos os scores incluídos.

A verdade é que, no que se refere à seleção do material, o pessoal da Silva acertou em cheio ao incluir alguns dos marcos da carreira do norte-americano, ao mesmo tempo oferecendo certas peças menos conhecidas e normalmente ignoradas em discos similares. É o caso de On Dangerous Ground, com seus famosos e frenéticos ostinatos de metais, ou o easy-listenig que salpica o tema central de Twisted Nerve, aquela melodia conduzida por um assobio que a "oportunista" Silva incluiu aqui após ter sido popularizada por Tarantino em seu
Kill Bill: Vol. 1. Se algo faz este álbum se destacar, é o fato de reunir um grupo de trabalhos que, sem qualquer dúvida, foram em sua época um exemplo invejável de originalidade e ineditismo. Herrmann sempre foi sinônimo de experimentação, de um inconformismo baseado no respeito ao fundo clássico, mas imbuído de alto grau de inovação formal. A este respeito, a primeira faixa do CD, o Citizen Kane de Orson Welles, é uma amostra da inegável modernidade de um score que arrancava com uma abertura no mínimo curiosa para um filme rodado en 1941. Como também foi inovadora Psycho, a partitura precursora de uma nova forma de musicar o terror que perdura até os nossos dias, graças em parte a criações-chave como o muitíssimo conhecido glissando em cordas de "The Murder", ou o psicótico "Prelude".

Outra obra que reflete o avanço de Herrmann em seu tempo é
The Day The Earth Stood Still, onde o autor experimenta o som pseudo-eletrônico, reservando papéis de destaque ao theremim e ao piano – este pouco associado ao gênero, evitando assim os muitos clichês que se se aplicavam às novas películas de ficção científica. The Ghost & Mrs. Muir é o score que muitos definem como o ápice do estilo Herrmann, obra-prima venerada e sempre reverenciada pela crítica como uma das trilhas sonoras de maior virtuosismo de toda a história do cinema; tão estimada pelo compositor que ele resgatou alguns de seus fragmentos para sua única ópera, “Wuthering Heights”. Ele se mostra mais clássico e funcional em The Snows of Kilimanjaro, uma partitura virtuosa que foi reconstruída de forma brilhante pela equipe John Morgan-William Stromberg. Não poderiam faltar outros títulos da memorável colaboração do músico com outro gênio do cinema, o diretor Alfred Hitchcock. O "Prelude" de North by Northwest, nervoso e opressor em sua excelsa orquestração, contrasta com o melódico leitmotiv de "Marnie". A lírica cadência do tema de amor para Vertigo, assim como seu hipnótico "Prelude", converten a partitura em uma das mais complexas escritas durante sua colaboração com o rotundo cineasta. Herrmann soube acomodar-se com maestria à brilhante imagem em vermelho do filme, e acertou em cheio no tratamento musical aplicado ao perfil psicológico dos personagens. E seguindo com o suspense, o que dizer de seu Cape Fear, obra onde demonstra que quatro acordes bem encadeados e orquestrados (reminescentes, há que se dizer, de uma certa passagem de The Trouble With Harry), são mais que suficientes para estabelecer a tensão asfixiante daquela história. Tamanho efeito obteve o maestro, que Elmer Bernstein repetiria a partitura quase na íntegra para o remake de 1991, completando-a com alguns fragmentos do score de Torn Curtain, um trabalho rejeitado por Hitchcock por ser, segundo contam, excessivamente sombrio e contundente.

O Herrmann épico está bem representado por obras como The Three Worlds of Gulliver, The Seventh Voyage of Sinbad e
Jason And The Argonauts (ainda que ausente a não menos fantástica Journey to The Center of the Earth). Filmes onde a música "herrmaniana" alcança um grau perfeito de comunhão com as alucinantes seqüências de stop-motion, obra do genial Ray Harryhausen. Menos afortunada foi a inclusão de trechos criados para a televisiva The Twilight Zone, que nem de perto chegam ao que de melhor o compositor produziu, tanto que se destacam na presente suíte as referências contínuas ao célebre tema atonal de Marius Constant. O cálido saxofone ouvido em Taxi Driver, última partitura escrita antes de seu falecimento no Natal de 1975, é o instrumento canalizador de uma peça jazzística que transita entre a melancolia e o desencanto, refletindo de maneira sublime o ambiente urbano e sua curiosa fauna, trazido a nós por Scorsese. Nesse mesmo ano, Brian de Palma recorreu a seu ídolo musical para colocar acordes em seu Obsession, filme que, como muitos outros do cineasta, transborda de influências hitchcockianas, e onde Hermmann se sentiria como um peixe na água, escrevendo uma elegante valsa, que apesar de suas qualidades não é das peças mais conhecidas do maestro.

O cavalo de batalha neste tipo de coletânea, ou seja, a maior ou menor fidelidade das novas versões em relação às originais, aqui até supera a média. Mas ainda que respeitando grande parte das orquestrações primitivas, há o eterno problema da orquestra tcheca em sua seção de metais, desafinada e inepta como poucas, mais claramente perceptível na suíte de Torn Curtain e nas composições de Mysterious Island (particularmente infeliz nesta última). Contudo, North by Northwest e The Three Worlds of Gulliver apresentam um melhor acabamento neste sentido. Em compensação, nas peças orientadas basicamente para as cordas, os músicos alcançam resultados notáveis, captando com bastante habilidade os matizes de obras como Vertigo, Psycho e Farenheit 451, esta última reconhecidamente a melhor versão presente no álbum.

É uma pena que os defeitos de interpretação citados rebaixem a nota final de um álbum completo e bem apresentado, ainda por cima oferecido a um preço francamente competitivo, nas atuais conjunturas. Em resumo, se nos atentarmos exclusivamente ao material nele incluído, ninguém poderá negar que "Bernard Herrmann: The Essential Film Music Collection" é a compra perfeita para introdução ao universo musical de um compositor inestimável na história do cinema.

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