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Por certo não serei eu que atestarei
ao leitor o vastíssimo talento de um dos compositores mais
trascendentais da música de cinema.
Bernard Herrmann é,
por méritos próprios, um mito a quem a Sétima Arte deve alguns dos
momentos sonoros mais brilhantes de sua história. Criador de uma
infinidade de recursos e técnicas musicais aplicadas à imagem, Herrmann
continua sendo reverenciado até hoje por numerosos músicos, que direta
ou indiretamente, agregaram ao seu estilo boa parte dos peculiares
esquemas de composição do nova-iorquino. Tanto é assim que o termo "herrmaniano"
ou "herrmanesco" ("herrmanesque" em inglês) se converteu em vocábulo
aplicado com freqüência para descrever as características de não poucas
partituras contemporâneas. O selo Silva Screen, na falta dos direitos de
lançamento de scores de
renome, segue com sua estratégia de lançar coletâneas aproveitando seu
arquivo com as numerosas regravações efetuadas pela Orquestra
Filarmônica de Praga. Sem surpresa, a presente edição nada mais é que a
reunião de seleções de álbuns anteriores da gravadora britânica em
homenagem ao maestro, portanto grande parte de seu conteúdo já é
conhecido pelo comprador habitual deste tipo de compilação. Ainda assim,
relevada tal circunstância, este "Film Music Collection" se revela um
álbum duplo dos mais interessantes, principalmente para aqueles que
desejam iniciar-se na obra do autor, sem ter que desembolsar as altas
somas de todos os scores
incluídos.
A verdade é que, no que se refere à seleção do material, o pessoal da
Silva acertou em cheio ao incluir alguns dos marcos da carreira do
norte-americano, ao mesmo tempo oferecendo certas peças menos conhecidas
e normalmente ignoradas em discos similares. É o caso de
On Dangerous Ground, com seus
famosos e frenéticos ostinatos
de metais, ou o easy-listenig
que salpica o tema central de Twisted
Nerve, aquela melodia conduzida por um assobio que a
"oportunista" Silva incluiu aqui após ter sido popularizada por
Tarantino em seu Kill Bill: Vol. 1.
Se algo faz este álbum se destacar, é o fato de reunir um grupo de
trabalhos que, sem qualquer dúvida, foram em sua época um exemplo
invejável de originalidade e ineditismo. Herrmann sempre foi sinônimo de
experimentação, de um inconformismo baseado no respeito ao fundo
clássico, mas imbuído de alto grau de inovação formal. A este respeito,
a primeira faixa do CD, o Citizen
Kane de Orson Welles, é uma amostra da inegável modernidade
de um score que arrancava
com uma abertura no mínimo curiosa para um filme rodado en 1941. Como
também foi inovadora Psycho,
a partitura precursora de uma nova forma de musicar o terror que perdura
até os nossos dias, graças em parte a criações-chave como o muitíssimo
conhecido glissando em
cordas de "The Murder", ou o psicótico "Prelude".
Outra obra que reflete o avanço de Herrmann em seu tempo é
The Day The Earth Stood
Still,
onde o autor experimenta o som pseudo-eletrônico, reservando papéis de
destaque ao theremim e ao piano – este pouco associado ao gênero,
evitando assim os muitos clichês que se se aplicavam às novas películas
de ficção científica. The Ghost & Mrs.
Muir é o score
que muitos definem como o ápice do estilo Herrmann, obra-prima venerada
e sempre reverenciada pela crítica como uma das trilhas sonoras de maior
virtuosismo de toda a história do cinema; tão estimada pelo compositor
que ele resgatou alguns de seus fragmentos para sua única ópera,
“Wuthering Heights”. Ele se mostra mais clássico e funcional em
The Snows of Kilimanjaro, uma
partitura virtuosa que foi reconstruída de forma brilhante pela equipe
John Morgan-William Stromberg. Não poderiam faltar outros títulos da
memorável colaboração do músico com outro gênio do cinema, o diretor
Alfred Hitchcock. O "Prelude" de
North by Northwest, nervoso e opressor em sua excelsa
orquestração, contrasta com o melódico
leitmotiv de "Marnie". A
lírica cadência do tema de amor para
Vertigo, assim como seu hipnótico "Prelude", converten a
partitura em uma das mais complexas escritas durante sua colaboração com
o rotundo cineasta. Herrmann soube acomodar-se com maestria à brilhante
imagem em vermelho do filme, e acertou em cheio no tratamento musical
aplicado ao perfil psicológico dos personagens. E seguindo com o
suspense, o que dizer de seu Cape
Fear, obra onde demonstra que quatro acordes bem encadeados e
orquestrados (reminescentes, há que se dizer, de uma certa passagem de
The Trouble With Harry),
são mais que suficientes para estabelecer a tensão asfixiante daquela
história. Tamanho efeito obteve o maestro, que
Elmer Bernstein
repetiria a partitura quase na íntegra para o
remake de 1991,
completando-a com alguns fragmentos do
score de
Torn Curtain, um trabalho
rejeitado por Hitchcock por ser, segundo contam, excessivamente sombrio
e contundente.
O Herrmann épico está bem representado por obras como
The Three Worlds of Gulliver,
The
Seventh Voyage of Sinbad
e
Jason
And The Argonauts
(ainda que ausente a não menos fantástica
Journey to The Center of the Earth).
Filmes onde a música "herrmaniana" alcança um grau perfeito de comunhão
com as alucinantes seqüências de
stop-motion, obra do genial Ray Harryhausen. Menos afortunada
foi a inclusão de trechos criados para a televisiva
The Twilight Zone, que nem de
perto chegam ao que de melhor o compositor produziu, tanto que se
destacam na presente suíte as referências contínuas ao célebre tema
atonal de Marius Constant. O cálido saxofone ouvido em
Taxi Driver, última partitura
escrita antes de seu falecimento no Natal de 1975, é o instrumento
canalizador de uma peça jazzística que transita entre a melancolia e o
desencanto, refletindo de maneira sublime o ambiente urbano e sua
curiosa fauna, trazido a nós por Scorsese. Nesse mesmo ano, Brian de
Palma recorreu a seu ídolo musical para colocar acordes em seu
Obsession, filme que, como
muitos outros do cineasta, transborda de influências hitchcockianas, e
onde Hermmann se sentiria como um peixe na água, escrevendo uma elegante
valsa, que apesar de suas qualidades não é das peças mais conhecidas do
maestro.
O cavalo de batalha neste tipo de coletânea, ou seja, a maior ou menor
fidelidade das novas versões em relação às originais, aqui até supera a
média. Mas ainda que respeitando grande parte das orquestrações
primitivas, há o eterno problema da orquestra tcheca em sua seção de
metais, desafinada e inepta como poucas, mais claramente perceptível na
suíte de Torn Curtain e
nas composições de Mysterious Island
(particularmente infeliz nesta última). Contudo,
North by Northwest e
The Three Worlds of Gulliver
apresentam um melhor acabamento neste sentido. Em compensação, nas peças
orientadas basicamente para as cordas, os músicos alcançam resultados
notáveis, captando com bastante habilidade os matizes de obras como
Vertigo,
Psycho e
Farenheit 451, esta última
reconhecidamente a melhor versão presente no álbum.
É uma pena que os defeitos de interpretação citados rebaixem a nota
final de um álbum completo e bem apresentado, ainda por cima oferecido a
um preço francamente competitivo, nas atuais conjunturas. Em resumo, se
nos atentarmos exclusivamente ao material nele incluído, ninguém poderá
negar que "Bernard Herrmann: The Essential Film Music Collection" é a
compra perfeita para introdução ao universo musical de um compositor
inestimável na história do cinema. |