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O score do filme Big Fish,
intitulado no Brasil Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas
(o título em português precisa sempre tentar descrever o filme?)
marca a décima parceria do compositor
Danny Elfman
com o diretor Tim Burton. Esta trilha é mais uma evidência de que
Elfman mantém com Burton um dos relacionamentos mais bem sucedidos
da música de cinema recente. Nos nove trabalhos anteriores, Elfman
conseguiu criar um clima musical perfeito para as peculiares
histórias do diretor, e em Big Fish esta sintonia alcança o
ápice. A adequação da música é indiscutível, e realmente é difícil
imaginar este filme com uma trilha musical diferente.
O filme narra a reflexão de um filho sobre a personalidade de seu
pai, grande contador de histórias mirabolantes, metáfora do título
do filme que se refere às histórias de pescador. O pai está à beira
da morte, e o filho, cansado das repetitivas lorotas surreais, tenta
descobrir os mistérios e eliminar as fantasias criadas pela vida
repleta de "causos" e aventuras improváveis do seu pai. Burton
certamente buscou uma abordagem mais humana, mais melodramática para
a história. Seguindo esta linha de concepção, Elfman compôs um
belíssimo e colorido score, que traduz por um lado a
bizarrice das histórias do pai, acompanhando a profundidade
emocional das dúvidas do filho. Apesar de ser criticado justamente
por ser excessivamente meloso e pela atuação duvidosa do personagem
(filho) interpretado pelo ator Billy Crudup, o filme tem em sua
partitura um apoio dramático imbatível, num sensível trabalho de
composição de Elfman.
O CD tem 23 faixas, das quais apenas 15 representam um resumo da
totalidade do score composto para o filme. As primeiras 7
faixas são canções utilizadas no filme, como "Man of the Hour", da
banda Pearl Jam, ou "All Shook Up", de Elvis Presley. A última faixa
é a canção "Twice the Love", interpretada pelas personagens gêmeas
siamesas, composta por Elfman em parceria com John August. O tema
"Big Fish" dos créditos iniciais é iniciado por uma rica cama de
cordas, piano, harpas e violões, repleta de harmônicos coloridos,
que logo ganham um solo de violinos em dueto, apresentando um motivo
recorrente ao longo do filme. São harmonias cheias de sentimentos de
esperança, com uma sonoridade de sabor folk. Esta sonoridade
segue ao longo da faixa seguinte, "Shoe Stealing". O início do cue "Underwater"
lembra os acordes suspensos de Thomas Newman ao piano de Beleza
Americana ou Six Feet Under, mas logo surge uma
misteriosa melodia e soam os inconfundíveis coros ao estilo de
Edward Mãos de Tesoura.
Depois do delicado e suave “Sandra´s Theme”, o cue “The
Growing Montage” é um poutpourri de cadências sem um compasso
repetido sequer, que denota uma forma de composição mais complexa e
demonstra a maturidade de Elfman. O suspense se apresenta em plena
forma em “Leaving Spectre”, seguida pela melancólica e folk
“Return to Spectre”, que agora traz consigo uma rústica percussão.
“Rebuilding” é o trecho do disco mais folk tradicional,
fazendo de início você pensar que está ouvindo a música de “Cold
Mountain”. O naipe de metais acrescenta grandiloquência ao score
em “The Journey Home”, mas sempre citando o tema melódico. A faixa
mais melancólica e talvez mais sensível de todo o score é
apresentada com piano, cordas e violão, no cue intitulado “In
the Tub”. Logo no início do longo “Finale” (11 minutos de duração),
Elfman apresenta um trecho intenso em que parece descrever um resumo
da obra, através de uma colagem de trechos de efeito dramático
substancialmente diferentes, em que apresenta motivos melódicos
usados nos outros cues. O efeito medley de
apresentação de vários temas e motivos percorre toda a faixa, e
prolonga-se pelo cue que acompanha os créditos finais, “End
Titles”.
Última faixa do score apresentada no disco, “Jenny´s Theme”,
é um delicado tema “protagonizado” por um timbre que soa como um
piano misturado com celesta, típico dos ostinados de Elfman,
composto para uma personagem que participa de uma das histórias de
vida do pai. Destaque para o rico trabalho de orquestração (três
orquestradores mais o lead orchestrator companheiro de longa
data de Elfman, Steve Bartek), que consegue uma variedade de
texturas impressionante e necessária para criar o clima de fábula do
filme. Como em todo o trabalho de direção de arte dos filmes de Tim
Burton, a sutileza, riqueza de detalhes e sensibilidade de
composição melódica, descrição narrativa e sonoridade orquestral são
atributos mágicos desta belíssima obra de Elfman e seu time de
colaboradores. Uma frase do protagonista resume a fabulosa história
de pescador: "Most men, they'll tell you a story straight true. It
won't be complicated, but it won't be interesting either." |