THE BLACK DAHLIA
Música composta por Mark Isham, regida por James Shearman

Selo: Silva Screen
Catálogo: SILCD 1221
Lançamento: 2006
Faixas

1. The Zoot Suit Riots
2. At Norton and Coliseum
3. The Dahlia
4. The Two Of Us
5.
Mr. Fire versus Mr. Ice
6. Madeline
7. Dwight and Kay
8. Hollywoodland
9. Red Arrow Inn
10.
Men Who Feed On Others
11. Super Cops
12. Death At The Olympic
13. No Other Way
14. Betty Short
15. Nothing Stays Buried Forever


Duração: 47:47
Cotação:


Comentário de
Carlos Alberto Bissogno

 
Por que um filme tem que ter uma trilha convencional, costumeiramente aderida a seu estilo em estruturas pré-fabricadas? Talvez seja ser exigente demais perguntar, e com esta pergunta analisar todo um trabalho musical, mas espero cumprir o papel — por mim mesmo outorgado —, de investigar esta questão,  mesmo parecendo inoportuna.

Em uma mistura interessante de coisas contidas em um estilo quase esquecido, esta trilha chama a atenção por parecer acreditar que a revisão de formas antigas é a solução para a atual crise de criatividade das trilhas sonoras. A música composta por Mark Isham não pretende inovar,  mas somente evocar da memória o passado, refugiando-se em precedentes, e com isso tentando manter-se a salvo das críticas que a inovação impõe. Não sei se por covardia ou resignação, assim nos deparamos com esta partitura, seja pela própria proposta constitutiva do filme ao qual acompanha, ou por simples preciosismo da pesquisa musical, repleta de referências—, mesmo que em alguns momentos subverta-as. Lembra por vezes
Taxi Driver de Bernard Herrmann, porém mais engessado nas formas e desenvolvimentos melódicos; outras vezes Chinatown de Jerry Goldsmith, mas sem seu experimentalismo ousado; portanto completamente díspare de Ennio Morricone em Os Intocáveis, pregresso filme de Brian De Palma que, entre suas inúmeras qualidades, possui uma história mais concisa e verossímil — apostando mais na simplicidade dos conflitos e na esplêndida atuação de seu elenco, que na rede obscura de mistérios que compõe Dália Negra e que por fim se revela uma extensa piada de humor negro.

Indubitavelmente, Dália Negra possui momentos memoráveis, boas atuações, bela fotografia, mas é, sobretudo, uma ótima história mal contada. É uma história de obsessão, amor, corrupção, cobiça e luxúria, baseada na história real de um violento crime que chocou e fascinou os Estados Unidos em 1947 – caso que permanece até hoje sem solução. Os detetives e ex-boxeadores Lee Blanchard e Bucky Bleichert são encarregados da investigação do brutal assassinato da aspirante a estrela Elizabeth Short, conhecida como a “Dália Negra”. A obsessão que os dois desenvolvem por ela acaba por arruinar suas vidas. Baseado no best-seller homônimo de James Ellroy, o filme foi exibido em competição no Festival de Veneza de 2006. Se a narrativa tivesse seguido sem floreios o que diz sua sinopse, sem relegar às palavras o que a imagem foi incapaz de resolver, teríamos assistido a um dos melhores filmes já feitos. Mas...

Pois neste ambiente dramático, um tanto disforme, é que Mark Isham desenvolve sua música, lubrificando idéias antigas, personificadas na previsível utilização de solos de trompete e mostrando ser grande conhecedor das estruturas pregressas comuns ao estilo filme noir. Isham executa uma eficiente e agradável partitura sinfônica que comunga quase que perfeitamente com as imagens para as quais foi criada, mas que em nenhum momento conhece a transcendência de suas formas. O compositor diz ter se inspirado primordialmente no gênero noir patente em Dália Negra, em compositores como David Raksin e Herrmann. Mais especificamente, aponta Leonard Bernstein, e a influência contínua do trabalho de John Adams em sua escrita para este filme. Há também um toque de Goldsmith, que marcou com sua música uma outra adaptação noir de uma novela de Ellroy, Los Angeles – Cidade Proibida, em 1997.

Isham escreveu muitos temas para vários elementos presentes no filme, ele mesmo executando todos os solos de trompete — alguns deles recorrentes, outros fugazes. Assim, depois de haver rondado nossos ouvidos com seus temas recorrentes e instrumentação previsível, eis que ao final sua música acaba por se esfumaçar como se nunca tivesse estado ali. Mas esteve, pena que nossos ouvidos não eternizam músicas que são apenas tecnicamente  memoráveis e querem fortes emoções.

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