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Por que um filme tem
que ter uma trilha convencional, costumeiramente aderida a seu estilo em
estruturas pré-fabricadas? Talvez seja ser exigente demais perguntar,
e com esta pergunta analisar todo um trabalho musical, mas espero
cumprir o papel — por mim mesmo outorgado —, de investigar esta questão,
mesmo parecendo inoportuna.
Em uma mistura
interessante de coisas contidas em um estilo quase esquecido, esta
trilha chama a atenção por parecer acreditar que a revisão de formas
antigas é a solução para a atual crise de criatividade das trilhas
sonoras. A música composta por Mark Isham não pretende inovar, mas
somente evocar da memória o passado, refugiando-se em precedentes, e com
isso tentando manter-se a salvo das críticas que a inovação impõe. Não
sei se por covardia ou resignação, assim nos deparamos com esta
partitura, seja pela própria proposta constitutiva do filme ao qual
acompanha, ou por simples preciosismo da pesquisa musical, repleta de
referências—, mesmo que em alguns momentos subverta-as. Lembra por vezes
Taxi Driver de
Bernard Herrmann, porém mais engessado nas formas e desenvolvimentos
melódicos; outras vezes Chinatown de
Jerry Goldsmith, mas sem seu
experimentalismo ousado; portanto completamente díspare de
Ennio
Morricone em Os Intocáveis, pregresso filme de Brian De Palma que,
entre suas inúmeras qualidades, possui uma história mais concisa e
verossímil — apostando mais na simplicidade dos conflitos e na
esplêndida atuação de seu elenco, que na rede obscura de mistérios que
compõe Dália Negra e que por fim se revela uma extensa piada de humor
negro.
Indubitavelmente, Dália Negra possui momentos memoráveis, boas
atuações, bela fotografia, mas é, sobretudo, uma ótima história mal
contada. É uma história de obsessão, amor, corrupção, cobiça e luxúria,
baseada na história real de um violento crime que chocou e fascinou os
Estados Unidos em 1947 – caso que permanece até hoje sem solução. Os
detetives e ex-boxeadores Lee Blanchard e Bucky Bleichert são
encarregados da investigação do brutal assassinato da aspirante a
estrela Elizabeth Short, conhecida como a “Dália Negra”. A obsessão que
os dois desenvolvem por ela acaba por arruinar suas vidas. Baseado no
best-seller homônimo de James Ellroy, o filme foi exibido em competição
no Festival de Veneza de 2006. Se a narrativa tivesse seguido sem
floreios o que diz sua sinopse, sem relegar às palavras o que a imagem
foi incapaz de resolver, teríamos assistido a um dos melhores filmes já
feitos. Mas...
Pois neste
ambiente dramático, um tanto disforme, é que Mark Isham desenvolve sua
música, lubrificando idéias antigas, personificadas na previsível
utilização de solos de trompete e mostrando ser grande conhecedor das
estruturas pregressas comuns ao estilo filme noir. Isham executa uma
eficiente e agradável partitura sinfônica que comunga quase que
perfeitamente com as imagens para as quais foi criada, mas que em nenhum
momento conhece a transcendência de suas formas. O compositor diz ter
se inspirado primordialmente no gênero noir patente em Dália Negra, em
compositores como David Raksin
e Herrmann. Mais
especificamente, aponta Leonard Bernstein, e a influência contínua do
trabalho de John Adams em sua escrita para este filme. Há também um
toque de Goldsmith, que marcou com sua música uma outra adaptação
noir de uma novela de Ellroy, Los Angeles – Cidade Proibida, em 1997.
Isham escreveu
muitos temas para vários elementos presentes no filme, ele mesmo
executando todos os solos de trompete — alguns deles recorrentes, outros
fugazes. Assim, depois de haver rondado nossos ouvidos com seus temas
recorrentes e instrumentação previsível, eis que ao final sua música
acaba por se esfumaçar como se nunca tivesse estado ali. Mas esteve,
pena que nossos ouvidos não eternizam músicas que são apenas
tecnicamente memoráveis e querem fortes emoções. |
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