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Em mais uma
colaboração com o diretor Ridley Scott,
Hans
Zimmer
nos entrega uma trilha sonora diferente e pessoal. Como em The
Thin Red Line ou Saving Private Ryan (John
Williams), os últimos filmes de guerra que de alguma forma
marcaram a nova tendência no que se refere a este tipo de score,
Zimmer evita o tom eufórico e patriótico que durante anos
caracterizou a música do gênero. Em seu lugar, à idéia do conflito
armado como um acontecimento trágico, se soma o choque de culturas;
dois mundos aparentemente irreconciliáveis, que encontram como
denominador comum apenas o ódio e a violência. O disco começa com "Hunger" ,
acertada descrição do terreno em que se levará a cabo o conflito, um
tema em que sobre uma fria e melancólica base de acordes,
interpretados por cordas, Zimmer sobrepõe uma melodia de caráter
arábico interpretada pelo cantor Baaba Mal. Logo, a peça deriva até
uma seção percussiva e de tom bastante sinistro: apoiada por
sintetizadores e guitarras elétricas, a linha melódica adquire o
ritmo de uma dança infernal.
Em "Barra Barra", interpretada por Rachid Taha, guitarras
“roqueiras” e elementos da música arábico-africana convivem
harmoniosamente com o apoio de uma rítmica base de percussão, que
oscila entre o tribal e o pop. Trata-se de uma das melhores
faixas do álbum, que com notável agressividade parece transmitir as
diferenças e semelhanças das forças antagônicas. Como contrapartida,
Black Hawk Down apresenta um grupo de faixas de natureza mais
diáfana e quase espiritual, como "Mogadish Blues", uma bela peça
para guitarra e sintetizador; "Vale of plenty", muito sentimental e
de reminiscências folk; "Gortoz A Ran - J'Attends", típica
canção “Zimmeriana” de raízes celtas (na linha de Gladiator)
e a notável "Leave no Man Behind". Esta última merece uma menção
especial: é um hino triste e solene que, à medida que se desenvolve,
vai crescendo em intensidade e aumentando seu corpo instrumental
(dominado por cordas, violino solo, violão e percussão) e que ao
final, se converte em uma marcha que certamente está longe de ser
triunfal: o destino da aventura não será a glória, mas sim a dor e a
morte.
Esta fusão (e, por momentos, justaposição) de materiais tão
diferentes entre si será um procedimento recorrente ao longo do
score, tanto em contextos de violência como de reflexão.
Naturalmente, Zimmer e seus sintetizadores muito têm a ver no feliz
resultado de semelhante conjunção: se algo fica definitivamente
claro é que este, e não a música sinfônica, é o estilo ideal para
desenvolver seu talento. Seus desolados corais e seus ameaçadores
climas “ambient”, somados ao notável suporte de compositores e
intérpretes como Craig Eastman, Heitor Pereira, Martin Tillman, Mel
Wessonesla, Joe Strummer, Lisa Gerrard, Denez Prigent e os
mencionados Baaba Mal e Rachid Taha, são as bases para um trabalho
em que Zimmer volta a atuar como diretor ou coordenador musical.
Black Hawk Down é um trabalho pouco convencional, que exige um
ouvinte disposto a participar de uma experiência sonora atípica e
difícil de classificar. Sem dúvida, os minutos gastos em assimilar
esta heterogênea trilha sonora não redundarão em tempo perdido, já
que alguns de seus múltiplos aspectos certamente atingirão seu
objetivo: impactá-lo emocionalmente. |