BLACK HAWK DOWN
Música composta por Hans Zimmer


Selo:
Decca/Universal
Catálogo:
17 012-2
Ano: 2002
15 Faixas
Duração: 66:54
Cotação:

Comentário de
Fernando Pereyra

 

Em mais uma colaboração com o diretor Ridley Scott, Hans Zimmer nos entrega uma trilha sonora diferente e pessoal. Como em The Thin Red Line ou Saving Private Ryan (John Williams), os últimos filmes de guerra que de alguma forma marcaram a nova tendência no que se refere a este tipo de score, Zimmer evita o tom eufórico e patriótico que durante anos caracterizou a música do gênero. Em seu lugar, à idéia do conflito armado como um acontecimento trágico, se soma o choque de culturas; dois mundos aparentemente irreconciliáveis, que encontram como denominador comum apenas o ódio e a violência. O disco começa com "Hunger", acertada descrição do terreno em que se levará a cabo o conflito, um tema em que sobre uma fria e melancólica base de acordes, interpretados por cordas, Zimmer sobrepõe uma melodia de caráter arábico interpretada pelo cantor Baaba Mal. Logo, a peça deriva até uma seção percussiva e de tom bastante sinistro: apoiada por sintetizadores e guitarras elétricas, a linha melódica adquire o ritmo de uma dança infernal.

Em "Barra Barra", interpretada por Rachid Taha, guitarras “roqueiras” e elementos da música arábico-africana convivem harmoniosamente com o apoio de uma rítmica base de percussão, que oscila entre o tribal e o pop. Trata-se de uma das melhores faixas do álbum, que com notável agressividade parece transmitir as diferenças e semelhanças das forças antagônicas. Como contrapartida, Black Hawk Down apresenta um grupo de faixas de natureza mais diáfana e quase espiritual, como "Mogadish Blues", uma bela peça para guitarra e sintetizador; "Vale of plenty", muito sentimental e de reminiscências folk; "Gortoz A Ran - J'Attends", típica canção “Zimmeriana” de raízes celtas (na linha de Gladiator) e a notável "Leave no Man Behind". Esta última merece uma menção especial: é um hino triste e solene que, à medida que se desenvolve, vai crescendo em intensidade e aumentando seu corpo instrumental (dominado por cordas, violino solo, violão e percussão) e que ao final, se converte em uma marcha que certamente está longe de ser triunfal: o destino da aventura não será a glória, mas sim a dor e a morte.

Esta fusão (e, por momentos, justaposição) de materiais tão diferentes entre si será um procedimento recorrente ao longo do score, tanto em contextos de violência como de reflexão. Naturalmente, Zimmer e seus sintetizadores muito têm a ver no feliz resultado de semelhante conjunção: se algo fica definitivamente claro é que este, e não a música sinfônica, é o estilo ideal para desenvolver seu talento. Seus desolados corais e seus ameaçadores climas “ambient”, somados ao notável suporte de compositores e intérpretes como Craig Eastman, Heitor Pereira, Martin Tillman, Mel Wessonesla, Joe Strummer, Lisa Gerrard, Denez Prigent e os mencionados Baaba Mal e Rachid Taha, são as bases para um trabalho em que Zimmer volta a atuar como diretor ou coordenador musical. Black Hawk Down é um trabalho pouco convencional, que exige um ouvinte disposto a participar de uma experiência sonora atípica e difícil de classificar. Sem dúvida, os minutos gastos em assimilar esta heterogênea trilha sonora não redundarão em tempo perdido, já que alguns de seus múltiplos aspectos certamente atingirão seu objetivo: impactá-lo emocionalmente.

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