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“Um casal de amantes
planeja livrar-se de um marido inconveniente”. Provavelmente
você já viu esse filme antes, mas não com esta trilha
sonora. Corpos Ardentes (1981) é
uma releitura de Pacto de Sangue
(1944), de Billy Wilder; por sua vez, inspirado no romance
de James M. Cain. Certamente, trata-se também de um dos
raros casos em que um filme inspirado em um clássico
incontestável torna-se, de imediato, outro clássico. O que
Pacto de Sangue possui de
insinuante e pessimista, Corpos Ardentes
tem de erótico e cínico.
O versátil Lawrence Kasdan, que neste mesmo ano criou
Indiana
Jones, acertou em ambientar o seu
neo-noir na
escaldante Flórida dos anos 1980. Desta forma,
evitou com sabedoria
um
erro que seria comumente praticado, por exemplo, em
Los Angeles: Cidade Proibida
(1997) e
Dália
Negra (2006): são forçosamente ambientados nas
décadas de 40 ou 50, com suas
femmes fatales
vestidas à maneira de Barbara Stanwyck ou Veronica Lake.
Kasdan vale-se de diálogos memoráveis, bastante sensualidade
e, claro, um jazz fascinante.
O responsável pela música de Corpos
Ardentes foi
John Barry
que, cansado de 007, optou por compor trilhas para
filmes de cunho mais psicológico, sentimental, que não
ficasse preso somente a tanta ação. Entre elas está a deste
Body Heat,
para a qual usou, essencialmente, saxofone e piano. Tais
instrumentos podem ser percebidos na maioria das faixas, mas
mais claramente em “Main Title”, música de abertura; e na
sensualíssima “I’m Weak”, que dá o tom a uma das cenas mais
marcantes, em que diálogos tornam-se desnecessários diante
da música eloqüente de Barry.
Alternando com maestria entre composições de apelo carnal,
melodias intensamente dramáticas, e intrigantes temas de
suspense, Barry realiza o trabalho ideal para as exigências
temáticas de Corpos Ardentes; mas
é capaz de contrariar o dogma de que a música para o filme
deve servir apenas em função deste, pois sua obra é
auto-suficiente. As primeiras faixas do disco variam entre
melodias apaixonadas e dramáticas; um duelo entre Andy
Mackintosh, saxofonista, e David Hartley, pianista. A partir
da declarada “Kill For Pussy”, Barry investe em uma não
menos intensa música de suspense, mas, apostando numa
ansiedade mais visual, diminui o tom em alguns momentos
cruciais.
Quando do lançamento de Corpos Ardentes,
em 1981, a distribuição da trilha sonora em LP foi realizada
de maneira incompetente, o que acabou tornando o disco uma
raridade. Em 24 de abril de 1998, no estúdio Abbey Road, a
trilha de John Barry foi regravada pela London Symphony
Orchestra, com regência do maestro Joel McNeely. Foi
disponibilizada em
compact disc dentro da série da gravadora Varèse
Sarabande. |