Invasion of the Body Snatchers (1978)
Música composta e regida por
Denny Zeitlin

Selo:
Perseverance
Catálogo:
PRD 0032

Ano: 2003

Faixas:
1. Main Title 
2. Angel of Death 
3. Love Theme 
4. The Discovery 
5. Rescue 
6. Infiltration (Suite) 
7. Flight - Denny Zeitlin 
8. On the Streets 
9. Run and Hide 
10. Escape to Darkness 
11. Amazing Grace 
12. The Reckoning 
13. Interview Part 1 - Getting Hired / The Crew 
14. Interview Part 2 - Technology 
15. Interview Part 3 - Spotting 
16. Interview Part 4 - Musical Preparation 
17. Interview Part 5 - Improvisation 
18. Interview Part 6 - Sound Effects 
19. Interview Part 7 - Final Thoughts
Duração: 72:08
Cotação:

Comentário de
Guilherme De Martino

 

Lembrado como um dos grandes clássicos da ficção científica no cinema, Invasion of the Body Snatchers (Vampiros de Almas, 1956) de Don Siegel, foi um produto raro no cinema americano do período. Mais ocupada com ficções sobre monstros do espaço e filmes juvenis em plena explosão do rock’n’roll, Invasion se destacou por sua seriedade e entrelinhas de leitura social (a perda da identidade individual na forçada integração social) e política (a América vivia em plena paranóia macarthista). A massificação de sentimentos, pensamentos e comportamento, foi um sub-tema que rendeu grandes filmes no cinema fantástico como Shivers (Calafrios, 1975) de David Cronemberg, e a trilogia dos mortos-vivos de George Romero, que foram um exemplo dessa visão tanto crítica quanto satírica de um meio social nivelado pelos instintos básicos. Invasion seria refilmado em um clássico ainda melhor em 1978, no homônimo Invasion of the Body Snatchers (Invasores de Corpos) de Phillip Kaufman. Sem a leitura política do original, o filme de Kaufman se destaca como um dos mais geniais e assustadores exercícios em paranóia social da história do cinema.

A conexão com o original é feita através de detalhes como a presença de Kevin McCarthy (o protagonista anterior), aqui alertando aos perigos da invasão logo no início da fita. “Vocês serão os próximos”, ele grita em close e na cara da platéia. Também é famosa a ponta de Don Siegel (o diretor do original) como o motorista de taxi que quase “dirige” os protagonistas à captura. Mais do que uma refilmagem, Kaufman raciocinou seu filme como uma seqüência, afinal o medo social que explora é sempre atual e presente. Como todo grande cult movie, a versão de Kaufman ganhou notoriedade com o passar dos anos e estendeu essa fama aos componentes que o fizeram tão perfeito: as atuações de Donald Sutherland e Broke Adams como o casal protagonista, Jeff Goldblum já meio esquisitão em início de carreira, e a saborosa in-joke que foi escalar Leonard Nimoy, o  Sr. Spock de Jornada nas Estrelas, como um psicólogo possivelmente já substituído por um alienígena e que orienta as pessoas à racionalidade e ao comportamento “normal”.

Além deles, marcaram a fita os efeitos sonoros de Ben Burt, os incríveis efeitos especiais pré-CGI (o cachorro com a face humana é inesquecível e digno dos melhores pesadelos) e a grande trilha sonora de Denny Zeitlin. A trilha é um ingrediente independente que merece atenção sem reservas. Lançada em 2003 pelo selo Perseverance Records (sob licença da MGM), é um feito único no campo das trilhas sonoras. Simplesmente não há similares na sua originalidade e eficiência assustadora. Seu compositor, o americano Denny Zeitlin, nascido em Chicago em 1938, teve um formação bastante incomum: estudou música desde a infância, desenvolveu gosto pelo jazz na juventude e formou-se em psiquiatria e música, sendo talvez o único profissional de carreira consolidada nas duas áreas. O diretor Kaufman, amigo do compositor desde os tempos em que estudaram juntos na faculdade, sabia exatamente o que fazia ao convidar o amigo para musicar seu filme e acentuar o desequilíbrio sonoro e emocional pretendido, e é unicamente por essa amizade que Zeitlin (um profissional totalmente fora do eixo de produção hollywoodiano) teve a chance de compor a trilha para o filme. Infelizmente esta seria sua primeira e única.

Zeitlin genialmente (e subliminarmente) desorienta linhas convencionais de percepção auditiva logo na abertura (Main Title) que parte de efeitos de suspense “familiares”, chegando a lembrar trilhas para filmes de horror góticos e que até conecta o trabalho com as trilhas de ficção dos anos 50, para em seguida se entregar a uma atmosfera alienígena e indefinível com efeitos de eco, texturas eletrônicas e notas aleatórias de piano. A combinação de forças orquestrais e eletrônicas e até truques de gravação e mixagem, para a criação do ambiente sonoro, coloca o compositor entre os mais criativos que jamais trabalharam para o cinema. O medo psicológico e físico que Kaufman explora com inesquecível maestria no filme, teve uma genial correspondência na paisagem de horror musical criada por Zeitlin. O fôlego inumano de Escape To Darkness, a desorientação espacial de temas distintos (jazz e soul) entre texturas eletrônicas de On the Streets, as dissonâncias de Angel of Death ou a conjuração de forças sonoras na assustadora The Reckoning, são momentos de genialidade sem paralelo. Por sua vez, a balada jazzística de Love Theme é a representação do humanismo e sensibilidade que são ameaçados de desaparecer para sempre com a invasão.

Assim, filme e trilha igualam forças como geniais e devastadores assaltos sensoriais. Uma legítima “Invasão aos sentidos”, portanto. O bom gosto musical de Zeitlin se faz presente até nas ausências: a seqüência em que Donald Sutherland dorme no jardim, e começa a ser duplicado na criatura embrionária, teve apenas o acompanhamento dos efeitos de Ben Burt (aquela aterradora pulsação cardíaca). O compositor conta na simpática entrevista que acompanha o CD (30 minutos) que ficou tão fascinado pelo som criado por Burt que julgou injusta a sobreposição de música a tão brilhante efeito. Além disso, a sábia ausência de música proposta pelo compositor, para não arriscar interferir no “silêncio” que torna o horror da cena tão “íntimo” e verossímil, o coloca com um talento de rara sensibilidade em um meio que, hoje, geralmente peca pelo mais óbvio e ruidoso exibicionismo.

CDs COMENTADOS