BRAM STOKER'S DRACULA
Música composta por Wojciech Kilar

Selo: Columbia
Catálogo: 472746 2
Lançamento: 1992
Faixas

1. Dracula - The Beginning
2. Vampire Hunters
3. Mina's Photo
4. Lucy's Party
5. The Brides
6. The Storm
7. Love Remembered
8. The Hunt Builds
9. The Hunters Prelude
10. The Green Mist
11. Mina / Dracula
12. The Ring of Fire
13. Love Eternal
14. Ascension
15. End Credits
16. Love Song for a Vampire (Annie Lennox)

Duração: 54:59
Cotação:


Comentário de
Jorge Saldanha

 

Drácula de Bram Stoker, de 1992, é inquestionavelmente (até agora pelo menos) a versão cinematográfica do famoso vampiro literário de maior gabarito e prestígio junto ao público e crítica. Produzido e dirigido por um dos maiores cineastas norte-americanos surgidos nas últimas décadas, Francis Ford Coppola, e contando com uma esmerada produção e um elenco que mescla talentos então emergentes (Gary Oldman, Winona Ryder, Keanu Reeves) com nomes já consagrados (Anthony Hopkins recém havia estrelado o grande sucesso O Silêncio dos Inocentes), o filme é mais do que uma história de horror. É um drama com fortes pitadas de erotismo que retrata Drácula não como o simples vilão de sempre, mas acima de tudo como um sujeito sedutor e torturado, que atravessa os séculos em busca de sua amada imortal. Por sorte, tal tratamento do livro de Bram Stoker teve uma tradução musical esplêndida, a cargo do polonês Wojciech Kilar.

Mesmo já tendo uma carreira erudita fora das telas, o maestro Kilar à época já musicara várias produções européias, e sua partitura para Bram Stoker's Dracula foi sua auspiciosa estréia em Hollywood. Porém, ela foi além disso: tornou-se uma das maiores obras da música do cinema dos anos 1990, e merecedora de constar na lista dos grandes trabalhos de todos os tempos. Isto tudo graças à conjunção de felizes acertos do compositor, que não teve pudor em criar um score grandioso, sem amarras, assumidamente romântico e capaz de provocar grande impacto no ouvinte através do emprego de toda a orquestra, ou mesmo com criativas construções harmônicas destacando poucos instrumentos, às vezes somente um.

"Dracula - The Beginning" é a primeira composição ouvida no filme e no CD, acompanhando aquela que seria a origem do Conde. Com êxito a música constrói um clima de tensão com cordas graves, que culminará no crescendo de metais que simboliza a rejeição de Drácula por Deus, e sua devoção a Satã. Não sei se foi uma referência consciente, mas a progressão de notas que introduz o tema de Drácula é muito similar ao tema que James Bernard compôs para os filmes de Drácula da Hammer. Segue-se "Vampire Hunters", o tema enérgico que acompanha as atividades de Van Helsing e seus companheiros em busca do Conde. É uma rítmica "música de viagem", conduzida pelas cordas. "Mina's Photo" é um dos destaques do score, uma bela e emocional melodia com vocalização feminina esplêndida, que marca a primeira audição do love theme do filme na cena onde Drácula, ao ver a foto da noiva de Jonathan Harker, percebe ter encontrado a reencarnação de seu grande amor, Elisabeta, e derrama uma lágrima. Um tema simplesmente genial. "Lucy’s Party" é dedicada à melhor amiga de Mina, a sensual Lucy, numa seqüência que ocorre na festa em sua casa. Esta faixa é um didático exemplo de quão bem a música de Kilar consegue capturar a essência dos personagens. Aqui ela transmite o então insuspeito lado sombrio Lucy, que mais tarde será vampirizada por Drácula e protagonizará uma cena forte, onde ela está prestes a matar uma criança para beber seu sangue.

"The Brides" é uma magnífica valse lente interpretada pela seção de cordas, que repete os acordes do tema de Drácula acompanhando o erótico balé das vampiras, que mantém Jonathan Harker sob seu domínio no castelo do Conde. Uma elegante peça, típica do estilo do compositor. A faixa seguinte, "The Storm", é outro dos pontos altos da partitura e também um primário exemplo de outra de suas capacidades - a de nos transportar do sublime ao pesadelo. A música, que segue a chegada de Drácula à Inglaterra numa noite tempestuosa, incluindo seu primeiro encontro com Lucy, inicia suavemente, com toques de harpa que mais adiante serão abruptamente interrompidos pelos metais. Após uma enervante passagem, os metais retornam acompanhados por percussão e o coral em intensa interpretação. Outro grande destaque, "Love Remebered" traz de volta o tema romântico e mostra a rara habilidade de Wojciech Kilar em usar um instrumento para provocar emoções, no caso a flauta. Através dela ele cria um estado emocional que mescla tristeza, solidão, amor e desejo.

Fica difícil, num score excepcional como este, se referir a muitos outros destaques. Até mesmo uma faixa curta como "Ring of Fire" apresenta grandes qualidades de composição e orquestração. É uma cue eminentemente experimental, praticamente sem música, que traz um caleidoscópio de vozes demoníacas e outros sons fornecidos pelo coral e outras fontes. Porém, ao contrário de tentativas similares criadas por compositores de menor talento, aqui a música é mais do que sons desencontrados: há ordem no caos, com o claro objetivo de colocar o ouvinte num ambiente sobrenatural. Aproximando-se do final do filme/álbum, "Love Eternal" é uma dolorosa elegia ao amor que unirá pela eternidade Drácula e Mina/Elisabeta. Em seguida a pungente "Ascension" marca o momento em que, graças ao ato de amor de Mina, Deus liberta Drácula de sua maldição. Assistindo a cena, na qual a moça segura a mão do moribundo Drácula enquanto ele olha para os céus em busca da redenção, acompanhada pela intensa interpretação do love theme, dificilmente haverá quem não fique com pelo menos um nó na garganta e os olhos marejados. "End Credits", reprisando alguns temas da partitura, encerra a participação de Kilar no álbum, que traz como faixa final a canção "Love Song for a Vampire", de Annie Lennox - que apesar de não ser destituída de qualidades, encontra-se totalmente deslocada do contexto.

Mas enfim, Bram Stoker's Dracula é daqueles scores únicos, uma obra-prima que dificilmente será igualada inclusive por seu próprio autor. Reflete as melhores qualidades artísticas de Wojciech Kilar, que através dela criou a melhor música já composta para um filme do gênero (superando inclusive a ótima Dracula de John Williams), e que, como raramente se conseguiu até hoje, soube capturar toda a essência dos personagens e da história a que serviu. É, e sempre será, uma das minhas trilhas sonoras prediletas.

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