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Drácula de Bram Stoker, de 1992, é
inquestionavelmente (até agora pelo menos) a versão cinematográfica do
famoso vampiro literário de
maior gabarito e prestígio junto ao público e crítica. Produzido e dirigido por um dos maiores cineastas
norte-americanos surgidos nas últimas décadas, Francis Ford Coppola, e
contando com uma esmerada produção e um elenco que mescla talentos
então emergentes (Gary Oldman, Winona Ryder, Keanu Reeves) com nomes já
consagrados (Anthony Hopkins recém havia estrelado o grande sucesso O
Silêncio dos Inocentes), o filme é mais do que uma história de
horror. É um drama com fortes pitadas de erotismo que retrata Drácula
não como o simples vilão de sempre, mas acima de tudo como um sujeito
sedutor e torturado, que atravessa os séculos em busca de sua amada imortal. Por
sorte, tal tratamento do livro de Bram Stoker teve uma tradução musical
esplêndida, a cargo do polonês Wojciech Kilar.
Mesmo já tendo uma carreira erudita fora das telas, o maestro Kilar à época
já musicara várias produções européias, e sua partitura para Bram
Stoker's Dracula foi sua auspiciosa estréia em Hollywood. Porém, ela
foi além disso: tornou-se uma das maiores obras da música do
cinema dos anos 1990, e merecedora de constar na lista dos grandes
trabalhos de todos os tempos. Isto tudo graças à conjunção de felizes
acertos do compositor, que não teve pudor em criar um score
grandioso, sem amarras, assumidamente romântico e capaz de provocar
grande impacto no ouvinte através do emprego de toda a orquestra, ou
mesmo com criativas construções harmônicas destacando poucos
instrumentos, às vezes somente um.
"Dracula - The Beginning" é a primeira composição ouvida no
filme e no CD, acompanhando aquela que seria a origem do Conde. Com
êxito a música constrói um clima de tensão com cordas graves, que
culminará no crescendo de metais que simboliza a rejeição de Drácula por
Deus, e sua devoção a Satã. Não sei se foi uma referência consciente,
mas a progressão de notas que introduz o tema de Drácula é muito similar
ao
tema que James Bernard compôs para os filmes de Drácula da Hammer.
Segue-se "Vampire Hunters", o tema enérgico que acompanha as atividades
de Van Helsing e seus companheiros em busca do Conde. É uma rítmica
"música de viagem", conduzida pelas cordas. "Mina's Photo" é um dos
destaques do score, uma bela e emocional melodia com vocalização
feminina esplêndida, que marca a primeira audição do love theme
do filme na cena onde Drácula, ao ver a foto da
noiva de Jonathan Harker, percebe ter encontrado a reencarnação de seu
grande amor, Elisabeta, e derrama uma lágrima. Um tema simplesmente genial. "Lucy’s Party"
é dedicada à melhor amiga de Mina, a sensual Lucy, numa seqüência que
ocorre na festa em sua casa. Esta faixa é um didático exemplo de quão
bem a música de Kilar consegue capturar a essência dos personagens. Aqui
ela transmite o então insuspeito lado sombrio Lucy, que mais tarde será
vampirizada por Drácula e protagonizará uma cena forte, onde ela está
prestes a matar uma criança para beber seu sangue.
"The Brides" é uma magnífica valse lente interpretada pela seção
de cordas, que repete os acordes do tema de Drácula acompanhando o erótico balé
das vampiras, que
mantém Jonathan Harker sob seu domínio no castelo do Conde. Uma elegante
peça, típica do estilo do compositor. A faixa seguinte, "The Storm", é
outro dos pontos altos da partitura e também um primário exemplo de
outra de suas capacidades - a de nos transportar do sublime ao pesadelo.
A música, que segue a chegada de Drácula à Inglaterra numa noite
tempestuosa, incluindo seu primeiro encontro com Lucy, inicia
suavemente, com toques de harpa que mais adiante serão abruptamente
interrompidos pelos metais. Após uma enervante passagem, os metais
retornam acompanhados por percussão e o coral em intensa interpretação.
Outro grande destaque, "Love Remebered" traz de volta o tema
romântico e mostra a rara habilidade de Wojciech Kilar em usar um instrumento para provocar emoções, no caso a
flauta. Através dela ele cria um estado emocional que mescla tristeza,
solidão, amor e desejo.
Fica difícil, num score excepcional como este, se referir a
muitos outros destaques. Até mesmo uma faixa curta como "Ring of Fire"
apresenta grandes qualidades de composição e orquestração. É uma cue
eminentemente experimental, praticamente sem música, que traz um
caleidoscópio de vozes demoníacas e outros sons fornecidos pelo coral e
outras fontes. Porém, ao contrário de tentativas similares criadas por
compositores de menor talento, aqui a música é mais do que sons
desencontrados: há ordem no caos, com o claro objetivo de colocar o
ouvinte num ambiente sobrenatural. Aproximando-se do final do
filme/álbum, "Love Eternal" é uma dolorosa elegia ao amor que unirá pela
eternidade Drácula e Mina/Elisabeta. Em seguida a pungente "Ascension" marca o
momento em que, graças ao ato de amor de Mina, Deus liberta Drácula de sua maldição. Assistindo a cena,
na qual a moça segura a mão do moribundo Drácula enquanto ele olha para
os céus em busca da redenção, acompanhada pela intensa interpretação do
love theme,
dificilmente haverá quem não fique com pelo menos um nó na garganta e os
olhos marejados. "End Credits", reprisando alguns temas da partitura,
encerra a participação de Kilar no álbum, que traz como faixa final a
canção "Love Song for a Vampire", de Annie Lennox - que apesar de não
ser destituída de qualidades, encontra-se totalmente deslocada do
contexto.
Mas enfim, Bram Stoker's Dracula é daqueles scores únicos,
uma obra-prima que dificilmente será igualada inclusive por seu próprio
autor. Reflete as melhores qualidades artísticas de Wojciech Kilar, que
através dela criou a melhor música já composta para um filme do gênero
(superando inclusive a ótima
Dracula
de John Williams), e
que, como raramente se conseguiu até hoje, soube capturar toda a
essência dos personagens e da história a que serviu. É, e sempre será,
uma das minhas trilhas sonoras prediletas. |