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Muito tem se
falado sobre O Segredo de Brokeback Mountain, filme
que ganhou vários prêmios e teve oito indicações ao Oscar – tendo
ganho, entre outros, o de Melhor Diretor. Rodado com grande
sensibilidade por Ang Lee, e interpretada com serenidade e contenção
por Jake Gyllenhall e Heath Ledger, Brokeback Mountain é uma
história de emoções contrapostas, de encontros proibidos, de dois
jovens vaqueiros que se apaixonam um pelo outro, na América rural do
início dos anos 1960. Ainda hoje, filmes com esta temática seguem
causando escândalo na sociedade, ou ao menos é o que dizem. Muitas
vezes o próprio marketing de um filme se encarrega de
difundir a polêmica, com a única intenção de atrair a atenção para o
produto. Seja como for, Brokeback Mountain teve uma boa
acolhida no duro núcleo conservador norte-americano, ainda que
ambientando uma história de homossexualidade no másculo mundo dos
cowboys. A uns não incomodou, a outros sim, mas o que ninguém
contesta é a qualidade do filme, e certamente a sutileza e a
credibilidade com que nos apresenta a história de amor.
E falando de qualidade, é incrível o prestígio que Gustavo
Santaolalla adquiriu nos últimos anos. Este compositor, produtor e
sobretudo violonista argentino vem sendo disputado não apenas pelos
grandes nomes do cinema independente, mas também pelos grandes
estúdios. Se 2004 foi o ano de sua revelação graças a Diários da
Motocicleta, score pelo qual ganhou um BAFTA (e a canção
um Oscar), 2005 foi anda melhor, já que seu trabalho em Brokeback
Mountain rendeu-lhe o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original.
Feito impressionante, se considerarmos que o quase sempre imbatível
John Wiliams concorria na categoria com duas indicações. Para muitos
este foi o melhor score de 2005, mas será que de fato foi
mesmo? Pois minha resposta sincera é: não.
Brokeback Mountain
é um score que ambientalmente “casa” muito bem com as
imagens, que se integra perfeitamente com as numerosas canções que
povoam o filme, que acerta em seu tom intimista de violão, cordas e
atmosfera etérea por meio de sintetizador. Mas aí é que está,
estamos falando de uma boa trilha sonora, não de uma partitura que
sirva de referência para o resto dos trabalhos do ano. Ela pode ter
ganho todos os prêmios, mas isso apenas significa que quem os dá
segue sem compreender a verdadeira essência da composição musical
para o cinema (algo que já sabíamos há tempo). O score de
Santaolalla não evolui com a história, não assume em nenhum momento
outra função além de ambientar. Situar-se num segundo plano,
renunciar à sua própria proeminência em favor da história é uma
decisão louvável e compreensível, mas trabalhos deste estilo surgem
às pencas a cada ano.
Em tempos tão difíceis para a música cinematográfica, onde as
temp tracks, as decisões injustificadas de diretores e
produtores, estão restringindo cada vez mais a libertade criativa
dos compositores, premiar uma trilha sonora pelo mero fato de não
molestar e realçar as cancões que a acompanham, é sem dúvida a pior
notícia que poderíamos ter para começar o ano. Ao compararmos o
trabalho de Santaolalla com o de
James Newton Howard
em King Kong,
John
Williams
em Munich
e Harry Gregson Williams em The Chronicles
of Narnia,
entre outros, a primeira pergunta que nos surge é se realmente
alguém escutou estes scores antes de colocar num altar a
composição de Santaolalla. Mesmo assim, como deixamos as injustiças
para outros, não podemos finalizar esta resenha sem ao menos
destacar a tranqüilidade que nos provoca o violão em “Opening”,
“Snow” ou “Riding Horses”, todas interessantes faixas intimistas,
onde as cordas e os eletrônicos se unem para criar um halo de
contenção e repouso. A música segue estes parâmetros nas três faixas
que desenvolvem, se posso assim chamá-lo, o tema principal do filme.
Apresentado em “Brokeback Mountain 1”, estamos diante de uma bonita
melodia, bem típica na carreira de Santaolalla, que compartilha, sem
dúvida, o espírito de seu tema central para “North Country”.
Santaolalla se mostra mais vibrante em “An Agenl Went Up in Flames”,
onde a instrumentação que inclui a bateria cria uma dinâmica peça
country. No entanto, se devemos destacar algo no trabalho do
compositor em Brokeback Mountain, é o capricho na produção
musical das canções, onde se destacam as duas preciosas baladas
country, compostas em parceria com Bernie Taupin (antigo
colaborador de Elton John) “A Love That Will Never Grow Old” e “I
Don't Want To Say Goodbye”. Em especial a primeira, uma das canções
mais bem sucedidas do ano. Também não convém esquecer a colaboração
de Santaolalla com Jeremy Spillman em “I Will Never Let you Go”, bem
como o restante das canções que completam a trilha sonora (e este
álbum), começando pelo clássico de Rufus Wainwright “King of the
Road”, a versão de “It´s so Easy” de Buddy Holly cantada por Linda
Ronstadt, e a inimitável voz de Willie Nelson interpretando “He Was
a Friend of Mine”, de Bob Dylan.
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