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O filme
nº 21 de James Bond estava programado para esterar no final de 2005.
Pierce Brosnan esperava tranqüilo ser chamado para sua quinta incursão
como o agente 007, e nada fazia supor que algo fosse mudar na franquia
da mais exitosa da história do cinema. O filme anterior,
Die Another Day,
fora um grande sucesso de bilheteria mas não uma grande contribuição à
série, já que houve a convicção que ela estava caindo num abismo
demasiadamente profundo, devido ao roteiro inverossímil e as
inacreditáveis proezas do herói (a seqüência do surfe /pára-quedas foi o
símbolo deste aspecto). Die Another
Day claramente se colocou na linha mais fantasiosa da série,
quase ao mesmo nível que atingiu
Moonraker
no final dos anos 1970.
Apesar da calmaria os primeiros alarmes começaram a soar em 2004, quando
começou a circular a notícia de que Pierce Brosnan ainda não assinara
seu contrato. Além disso, o ator começou a fazer algumas declarações não
muito felizes,
relacionadas principalmente com a orientação que os produtores estavam
dando à série. Estranhamente a produção de “Bond 21” não se iniciava e
não se dava nenhuma explicação a respeito, até que finalmente foi
comunicado o adiamento da sua estréia para 2006. Logo em seguida foi
informado que Brosnan não continuaria no papel, e que havia começado a
busca por um novo Bond.
Durante o ano 2005 foram feitos três anúncios importantes:
1. O novo filme se basearia no livro original de James Bond
escrito por Ian Fleming e traria seu mesmo nome: Casino Royale.
Também foi informado que seria um regresso às origens do personagem;
2. O diretor seria Martin Campbell, que em 1995 havia dirigido o sucesso
Goldeneye;
3. O novo James Bond seria o quase desconhecido – e loiro - ator
britânico Daniel Craig.
Apesar
da resistência a este nuevo Bond, a decisão dos produtores já estava
tomada: a série mudaria de rumo e voltaria às suas origens, e o que
seria melhor do que fazê-lo com a novela original de 1953
Casino Royale?
Para este recomeço de Bond, novamente foi convocado para
encarregar-se da música o compositor
David Arnold.
Com esta designação Arnold assumiu seu quarto trabalho consecutivo
compondo a música para Bond. Musicalmente, Casino Royale também
marca algunas mudanzas de rumo no que se refere à tradicional estrutura
musical da série:
1. Mesmo havendo uma canção principal
chamada “You Know My Name”, composta por David Arnold e interpretada por
Chris Cornell que acompanha a seqüência dos créditos principais, ela não
faz parte do álbum com a trilha sonora do filme;
2. Durante o filme quase não ouvimos o “Tema de James Bond”. Apenas
alguns acordes sugerem o tradicional tema, que não se escuta em toda a
sua intensidade até o final da aventura;
3. No seu lugar David Arnold acompanha as seqüências de Bond com
variações instrumentais do tema principal “You Know My Name”.
Portanto, diríamos que, em Casino
Royale, o tema de Bond é “You Know My Name”.
Esta canção é um rock
bastante atípico para uma película de Bond. Desde “Live And Let Die”
(Paul McCartney), de 1973, não havia algo parecido. Pessoalmente, a
primeira audição do tema não me provocou grande impacto, ainda que sua
utilização instrumental no filme e seu acompanhamento dos créditos
iniciais me convencieu de que foi uma boa alternativa para musicar este
renascimento de Bond. Ao contrário das canções anteriores, desta vez o
texto tem algo a ver com o filme, especialmente no que se refere ao tipo
de vida que leva James Bond. Neste filme tampouco há um segundo tema
(que vinha sendo utilizado na seqüência de créditos finais), mantendo-se
a antiga tradição de usar o mesmo
tema para nos créditos iniciais e finais. A única diferença é que desta
vez seu uso nos créditos finais é na continuação do “Tema de James
Bond”.
Em
relação ao score há que
se assinalar
que David Arnold novamente ratifica sua habilidade e talento para
musicar Bond. O grande valor desta nova partitura é que, como se trata
de um recomeço para o personagem, Arnold também trata de reforçar esse
intento. Desta vez não existe a camisa de força de usar obrigatoriamente
o “Tema de James Bond”, e em seu lugar utiliza abundantemente a versão
instrumental da canção principal, composta por ele mesmo. Tampouco
recorre ao uso excessivo de instrumentos eletrônicos combinados com a
orquestra.
007 -
Casino
Royale
é talvez a trilha sonora mais sinfônica que Arnold compôs para Bond
(inclusive mais ainda que
Tomorrow
Never Dies).
Nesse sentido, este trabalho de Arnold supera significativamente seus
dois predecessores, com uma trilha sonora mais coerente e de audição
mais fácil.
Quanto ao estilo de composição de Arnold, este não varia
significativamente. Em várias passagens se sente certa semelhança com
suas composições anteriores, como o predomínio de metais e percussão
para as cenas de ação. Neste aspeto as faixas “African Rundown”, “Miami
Internacional”, “Stairwell Fight” “The Switch” e “Fall Of A House In
Venice” são um claro exemplo. Cada um destes temas complementa cada
seqüência, adicionando a adrenalina e emotividade necessárias, claro que
desta vez sem a contaminação eletrônica.
Como já mencionei em comentários anteriores, uma das grandes habilidades
de Arnold está na composição de temas românticos. Em
Casino Royale, Arnold inclui
pelo menos seis temas para acompanhar este tipo de cenas. Destaca-se
neste grupo a belíssima
melodia de “Solange”, cuja sonoridade de cordas é realmente comovente
(ainda que no filme se perca um pouco dela). Também é muito bela a
melodia e os arranjos em cordas que Arnold fornece para Vesper Lynd ,
destacando-se claramente as faixas “Vesper” e “City Of Lovers”.
Adicionalmente Arnold incorpora outras destacadas melodias baseadas nos
temas de Solange e Vesper (“Trip Aces“, “Dinner Jacket” y “Death
Of……..”).
Habitualmente me refiro à utilização do “Tema De James Bond”, mas desta
vez não tenho muito o que dizer a respeito. Somente algumas insinuações
da tradicional melodia, as que inexoravelmente desembocam
surpreendentemente bem no tema “You Know My Name”, surgem em “Blunt
Instrument”, “I’m The Money”, “Aston Montenegro” e “Dinner Jacket”. O
tema de James Bond somente é ouvido em toda sua
extensão ao final da película como um sinal da consolidação do agente
com licença para matar James Bond 007. O arranjo do tema não difere
muito do que Arnold nos mostrara em seus trabalhos anteriores,
baseando-se principalmente no arranjo original que
John Barry compusera
em 1962 para
Dr. No.
Uma
novidade que também traz este filme é a presença
de várias seqüências de suspense, exigindo que Arnold incorporasse
algumas composições de menor efeito mas que refletem e transmitem a
tensão de cada cena (particularmente as do cassino).
Destacam-se neste grupo
“The Tell”, “Bond Loses It All”, “Bond Wins It All” e “Dirty Martini”. O
disco contém 25 faixas, e dura
quase 75 minutos. Por
isso fica difícil analizá-lo em sua totalidade, mesmo assim creio que
referi os aspectos mais significativos deste novo trabalho
de David Arnold para James Bond.
Em
resumo, este me parece um trabalho muito bom. Talvez a melhor trilha
sonora de Arnold para a série, devido à maior liberdade criativa que
teve para compor. E como já escrevi em outras oportunidades, não vejo
por enquanto outro compositor melhor capacitado que David Arnold para
ser o responsável
pela música de James Bond. Assim, nos vemos no próximo David. |