CATCH ME IF YOU CAN
Música composta e regida por John Williams. Dan Higgins, saxofone/Alan Estes, vibrafone

Selo:
Dreamworks Records
Catálogo:
0044-50410-2
Ano: 2002

16 Faixas

Cotação:

Comentário de
Miguel Andrade

 

Prenda-me Se For Capaz é uma alteração de rumo na colaboração entre Steven Spielberg e John Williams, ao procurar novos caminhos estéticos ainda não explorados pelo duo realizador/compositor. O filme é uma biografia romanceada, que embora não totalmente inédita na obra do realizador, é uma faceta pouco desenvolvida por este. O próprio período em que decorre a ação afasta-se um pouco daquele que Spielberg teima em retratar (os anos da guerra), instalando-se no pós guerra dos anos 60, justamente a época em que um certo Johnny Williams começava a criar a sua marca nos estúdios de Hollywood. Se o jazz que preenche a partitura pode ser, em parte, uma novidade para os filmes de Spielberg, por certo não é estranho a John Williams, que nos tempos em que era conhecido por Johnny, foi acompanhante ao piano de alguns grandes nomes deste estilo musical. Williams deixou a sua marca não só como pianista, mas quase de forma inevitável, como compositor, ao escrever a memorável música para a esquecida série televisiva Checkmate, no seu trabalho, absolutamente excepcional, enquanto arranjador, para Shelly Manne, e ainda em várias peças de concerto, como o "Prelude and Fugue" e o "Nostalgic Jazz Odyssey".

Mais recentemente, admiradores do compositor recordam o elegante Sabrina. Mas ao contrário do que muitos esperavam (uma espécie de nova Sabrina), Catch Me If You Can, combina os elementos jazzísticos do jovem John Williams dos anos 60 com os valores estéticos desenvolvidos na última década – com algumas saudáveis influências, principalmente do fabuloso A Place in The Sun, a partitura vencedora de um Oscar, de Franz Waxman, contrariando as expectativas de regressar ao mundo Manciniano que inspirou Checkmate. Há três temas principais que caracterizam toda a partitura: “Catch me If You Can(faixa 1) é uma característica composição deste Williams mais maduro dos últimos anos, com uma estrutura melódica reminescente de composições como “The Conspirators” de JFK (1991), e todas as que dessa linha de composição minimalista e motívica derivaram, até passagens do recente Minority Report – embora com a ligeireza típica do jazz. Tal como no tema seguinte, um breve interlúdio jazzístico contribui para estabelecer o período, e traz neste caso em particular um breve momento de otimismo numa peça que é incansável e procura sugerir a constante perseguição encetada pelas forças da ordem.

“The Float” (faixa 2) é uma das highlights do CD. É uma peça vibrante, cheia de um juvenil otimismo, capaz de deixar qualquer um bem disposto, e que facilmente acabará por ser o tema mais recordado deste trabalho. Há uma forte presença tanto do saxofone como do vibrafone, magnificamente interpretados por Dan Higgins e Alan Estes, respectivamente. Tal como na faixa anterior, um breve interlúdio muda o tom da peça, desta vez introduzindo uma complexa passagem de jazz progressivo, típico da época, e reminescente dos arranjos de Williams para Shelly Manne. Nestes dois temas, e na forma como elementos jazzísticos e de composição orquestral são sabiamente fundidos, parece estar presente o fantasma de Leonard Bernstein, enquanto compositor eclético, sendo assim uma discreta influência, misturada de forma quase imperceptível com as próprias sensibilidades composicionais de Williams. "Recollections" introduz o último dos temas principais, o “Father’s Theme”, onde há uma clara influência do escaldante A Place in The Sun, de Waxman, com o seu longo e melancólico solo para saxofone, e intensas mas contidas passagens para as cordas. Embora dificilmente possa vencer o rápido apelo criado por “The Float”, esta é a verdadeira pérola do CD, e também o tema mais presente durante a audição, juntamente com o tema apresentado na primeira faixa, contribuindo para um ambiente mais soturno e melancólico. Este será balançado com esporádicas aparições do tema apresentado na segunda faixa, juntamente com as cinco canções da época inseridas entre as faixas – e ausentes na edição aqui avaliada, visto esta ser apenas a versão promocional. Ainda relativamente a este tema, é de realçar as magníficas versões em "Father and Son" e "A Broken Home", onde para além dos obrigatórios solos para Higgins, há uma grande predominância do piano, conferindo um tom muito mais intimista ao arranjo. Algumas passagens fazem recordar alguma da música mais reflexiva de A.I. e Minority Report. Há um motivo, particularmente ouvido nas cordas vagamente reminescente de Sabrina, nestas duas faixas, mas também noutras abaixo mencionadas.

Uma das faixas que também salta à vista é "Learning The Ropes", logo à partida, ainda antes de a ouvirmos, por ser a mais longa do CD (com mais de oito minutos de duração). E de fato é especial ao fundir quase todo o material temático num longo tour de force melódico. O início traz à memória um pouco a ambiência de Sabrina, principalmente pelo uso das madeiras, mas rapidamente somos levados para uma versão mais ligeira de "The Float", com intrusões do "Father's Theme", apresentadas pelo saxofone e, claro, o fantasma do tema da faixa de abertura, com o seu tema secundário incluído também. Eventualmente é o material mais otimista que prevalece, e que marca toda a faixa, custando a acreditar que isto tenha sido escrito sujeito ao ritmo do filme, e não o contrário. "Deadheading" segue o mesmo caminho, embora, desta feita esteja mais presente o tom ameaçador do tema da faixa inicial. "The Flash Comics Clue" é uma breve variação do tema de "Catch Me If You Can", enquanto que o atmosférico "The Airport Scene" recorda alguma da música de suspense de JFK. "Doctor, Lawyer, Lutheran" é mais uma versão do tema de "The Float", sempre com o seu tom juvenil e despreocupado, enquanto que "Reprise and End Credits" começa por rever este tema para terminar com o tema associado a Hanks e às forças da ordem - como que a sugerir, que por muito divertidas que fossem estas alegres tropelias da personagem de DiCaprio, a lei é eventualmente cumprida.

Embora como já referi, não possa comentar o uso das canções - à data que escrevo apenas tive acesso à versão promocional - parece-me claro que o CD foi sequenciado com estas canções em mente, já que algumas passagens de uma faixa para outra, ouvidas neste formato, nem sempre são totalmente satisfatórias. Sente-se a ausência de algum elemento, neste caso as canções que aqui foram excluídas. E embora alguns puristas possam preferir ouvir a música assim, ninguém pode deixar de concordar que estas cinco canções são clássicos sem idade, e que ouvi-las é sempre um prazer. Catch Me If You Can é uma partitura que entretém e apraz os sentidos, e que acima de tudo prova que John Williams continua a ser o nosso 'Johnny'... sempre com novas idéias, novas melodias, mesmo quando regressa ao passado, ao seu próprio passado de jazzman. E ao fazê-lo não deixa de lado o homem que é hoje, e incorpora de forma rara, diria mesmo única, os elementos daquilo que foi e daquilo que é. Esta nova partitura é como todas as suas grandes colaborações cinematográficas: única... e logicamente merecedora da indicação ao Oscar que recebeu.

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