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Prenda-me Se For Capaz é uma
alteração de rumo na colaboração entre Steven Spielberg e
John Williams, ao
procurar novos caminhos estéticos ainda não explorados pelo duo
realizador/compositor. O filme é uma biografia romanceada, que
embora não totalmente inédita na obra do realizador, é uma faceta
pouco desenvolvida por este. O próprio período em que decorre a ação
afasta-se um pouco daquele que Spielberg teima em retratar (os anos
da guerra), instalando-se no pós guerra dos anos 60, justamente a
época em que um certo Johnny Williams começava a criar a sua marca
nos estúdios de Hollywood. Se o jazz que preenche a partitura
pode ser, em parte, uma novidade para os filmes de Spielberg, por
certo não é estranho a John Williams, que nos tempos em que era
conhecido por Johnny, foi acompanhante ao piano de alguns grandes
nomes deste estilo musical. Williams deixou a sua marca não só como
pianista, mas quase de forma inevitável, como compositor, ao
escrever a memorável música para a esquecida série televisiva
Checkmate, no seu trabalho, absolutamente excepcional, enquanto
arranjador, para Shelly Manne, e ainda em várias peças de concerto,
como o "Prelude and Fugue" e o "Nostalgic Jazz Odyssey".
Mais recentemente, admiradores do compositor recordam o elegante
Sabrina. Mas ao contrário do que muitos esperavam (uma espécie
de nova Sabrina), Catch Me If You Can, combina os
elementos jazzísticos do jovem John Williams dos anos 60 com os
valores estéticos desenvolvidos na última década – com algumas
saudáveis influências, principalmente do fabuloso A Place in The
Sun, a partitura vencedora de um Oscar, de
Franz Waxman,
contrariando as expectativas de regressar ao mundo Manciniano que
inspirou Checkmate. Há três temas principais que caracterizam
toda a partitura: “Catch
me If You Can”
(faixa
1) é uma característica composição deste Williams mais maduro dos
últimos anos, com uma estrutura melódica reminescente de composições
como “The Conspirators” de JFK (1991), e todas as que dessa
linha de composição minimalista e motívica derivaram, até passagens
do recente Minority Report – embora com a ligeireza típica do
jazz. Tal como no tema seguinte, um breve interlúdio
jazzístico contribui para estabelecer o período, e traz neste caso
em particular um breve momento de otimismo numa peça que é
incansável e procura sugerir a constante perseguição encetada pelas
forças da ordem.
“The Float” (faixa 2) é uma das highlights do CD. É uma peça
vibrante, cheia de um juvenil otimismo, capaz de deixar qualquer um
bem disposto, e que facilmente acabará por ser o tema mais recordado
deste trabalho. Há uma forte presença tanto do saxofone como do
vibrafone, magnificamente interpretados por Dan Higgins e Alan
Estes, respectivamente. Tal como na faixa anterior, um breve
interlúdio muda o tom da peça, desta vez introduzindo uma complexa
passagem de jazz progressivo, típico da época, e reminescente
dos arranjos de Williams para Shelly Manne. Nestes dois temas, e na
forma como elementos jazzísticos e de composição orquestral são
sabiamente fundidos, parece estar presente o fantasma de Leonard
Bernstein, enquanto compositor eclético, sendo assim uma discreta
influência, misturada de forma quase imperceptível com as próprias
sensibilidades composicionais de Williams. "Recollections" introduz
o último dos temas principais, o “Father’s Theme”, onde há uma clara
influência do escaldante A Place in The Sun, de Waxman, com o
seu longo e melancólico solo para saxofone, e intensas mas contidas
passagens para as cordas. Embora dificilmente possa vencer o rápido
apelo criado por “The Float”, esta é a verdadeira pérola do CD, e
também o tema mais presente durante a audição, juntamente com o tema
apresentado na primeira faixa, contribuindo para um ambiente mais
soturno e melancólico. Este será balançado com esporádicas aparições
do tema apresentado na segunda faixa, juntamente com as cinco
canções da época inseridas entre as faixas – e ausentes na edição
aqui avaliada, visto esta ser apenas a versão promocional. Ainda
relativamente a este tema, é de realçar as magníficas versões em "Father
and Son" e "A Broken Home", onde para além dos obrigatórios solos
para Higgins, há uma grande predominância do piano, conferindo um
tom muito mais intimista ao arranjo. Algumas passagens fazem
recordar alguma da música mais reflexiva de A.I. e
Minority Report. Há um motivo, particularmente ouvido nas cordas
vagamente reminescente de Sabrina, nestas duas faixas, mas
também noutras abaixo mencionadas.
Uma das faixas que também salta à vista é "Learning The Ropes", logo
à partida, ainda antes de a ouvirmos, por ser a mais longa do CD
(com mais de oito minutos de duração). E de fato é especial ao
fundir quase todo o material temático num longo tour de force
melódico. O início traz à memória um pouco a ambiência de Sabrina,
principalmente pelo uso das madeiras, mas rapidamente somos levados
para uma versão mais ligeira de "The Float", com intrusões do "Father's
Theme", apresentadas pelo saxofone e, claro, o fantasma do tema da
faixa de abertura, com o seu tema secundário incluído também.
Eventualmente é o material mais otimista que prevalece, e que marca
toda a faixa, custando a acreditar que isto tenha sido escrito
sujeito ao ritmo do filme, e não o contrário. "Deadheading" segue o
mesmo caminho, embora, desta feita esteja mais presente o tom
ameaçador do tema da faixa inicial. "The Flash Comics Clue" é uma
breve variação do tema de "Catch Me If You Can", enquanto que o
atmosférico "The Airport Scene" recorda alguma da música de suspense
de JFK. "Doctor, Lawyer, Lutheran" é mais uma versão do tema
de "The Float", sempre com o seu tom juvenil e despreocupado,
enquanto que "Reprise and End Credits" começa por rever este tema
para terminar com o tema associado a Hanks e às forças da ordem -
como que a sugerir, que por muito divertidas que fossem estas
alegres tropelias da personagem de DiCaprio, a lei é eventualmente
cumprida.
Embora como já referi, não possa comentar o uso das canções - à data
que escrevo apenas tive acesso à versão promocional - parece-me
claro que o CD foi sequenciado com estas canções em mente, já que
algumas passagens de uma faixa para outra, ouvidas neste formato,
nem sempre são totalmente satisfatórias. Sente-se a ausência de
algum elemento, neste caso as canções que aqui foram excluídas. E
embora alguns puristas possam preferir ouvir a música assim, ninguém
pode deixar de concordar que estas cinco canções são clássicos sem
idade, e que ouvi-las é sempre um prazer. Catch Me If You Can
é uma partitura que entretém e apraz os sentidos, e que acima de
tudo prova que John Williams continua a ser o nosso 'Johnny'...
sempre com novas idéias, novas melodias, mesmo quando regressa ao
passado, ao seu próprio passado de jazzman. E ao fazê-lo não
deixa de lado o homem que é hoje, e incorpora de forma rara, diria
mesmo única, os elementos daquilo que foi e daquilo que é. Esta nova
partitura é como todas as suas grandes colaborações
cinematográficas: única... e logicamente merecedora da indicação ao
Oscar que recebeu. |