The Man Who Loved Cat Dancing
Música composta e regida por John Williams; partitura rejeitada composta e regida por Michel Legrand

Selo: FSM

Catálogo:
Vol 5, nº. 4
Ano: 2002

20 Faixas
Duração: 65:37
Cotação:

Comentário de
Miguel Andrade

 

No ano do septuagésimo aniversário de John Williams, a Film Score Montlhy já lançou um CD dedicado ao compositor. Mais uma vez o trabalho apresentado é completamente inédito em edição comercial, embora flutuem pelo menos duas edições pirata, com uma qualidade sonora duvidosa. Durante os vinte e nove anos desde o lançamento de The Man Who Loved Cat Dancing, os admiradores de Williams apenas podiam encontrar, com alguma dificuldade, a adaptação para canção (com letras de Paul Williams) do tema principal do filme. Esta canção, "Dream Away", foi gravada pelo cantor Paul Williams, acompanhado por uma orquestra dirigida pelo compositor, mas esta gravação está há muito fora de catálogo - com a exceção de uma breve edição japonesa, também já fora de catálogo. Os curiosos tinham que se contentar com a mais disponível versão interpretada pelo grande Frank Sinatra, mas num arranjo inferior de Don Costa. A FSM corrigiu esta falha com este excelente lançamento, num glorioso som estéreo, ausente das edições piratas.

E embora a gravação deixe revelar o tempo que passou desde 1973, o trabalho de remasterização é notável. Quanto à música de John Williams para esta complicada produção da MGM, composta à última da hora para substituir o trabalho rejeitado do compositor francês Michel Legrand, e numa época em que o compositor começava a ser requisitado para projetos cada vez mais visíveis (1973 fica marcado pelo primeiro encontro entre Williams e o jovem Steven Spielberg), este é um trabalho decididamente menor, mesmo no âmbito dos westerns para os quais Williams contribuiu com a sua música. Há reminiscências de The Reivers e de algumas faixas de The Cowboys, e na orquestração deixa antever o excelente The Missouri Breaks.  Extraordinariamente Williams apresenta uma mão cheia de temas, apesar de ter tido apenas uma semana para compor e gravar a música. Há o love theme, usado depois na já referida canção, dois temas secundários, para cada um dos protagonistas (um mais agitado para o masculino, interpretado por Burt Reynolds, e outro mais delicado para o feminino, interpretado por Sarah Miles), um motivo para trompete solo e alguma música para madeiras, associada às personagens índias. Williams compõe também um scherzo à moda de The Reivers em "Follow that Horse" e bastante música associada a lutas ou momentos de tensão, que revela o Williams modernista, que podemos encontrar em trabalhos mais recentes como Born on the Fourth of July.

Estas faixas (como é exemplo o percussivo "Billy's Fall/Boys Will Be" e as cordas atonais de "The Aftermath") contribuem para a criação de uma atmosfera mais tensa, e é nesta inteligente alternância entre o material temático e estas set-pieces, que está o melhor de Williams: a audição desta partitura, mesmo apresentada na seqüência fílmica é absolutamente satisfatória, ainda que neste trabalho o compositor esteja longe de desbravar novos caminhos - talvez com a exceção de algumas das faixas mais modernistas. Em termos de originalidade, o melhor veio passado três anos no folclórico The Missouri Breaks. Embora seja o trabalho de Williams que vá chamar a maior parte dos compradores, o mais interessante do CD está na inclusão do score rejeitado de Michel Legrand - e fica melhor compreensível as escolhas algo mainstream de Williams. A partitura de Legrand é completamente diferente, muito mais orientada para os aspectos da cultura indígena, recorrendo a um ensemble muito mais original que o de Williams, incluindo o uso de voz e de instrumentos associados ao folclore.

Há também passagens mais atmosféricas, mas seguem também a mesma linha estética. Uma vez que apenas cerca de vinte minutos de música incidental foi gravada, Lukas Kendall e os seus colegas da FSM optaram por juntar as várias curtas faixas em duas suítes, uma de onze minutos, a outra de oito e meio - e uma vez que não há títulos para estas passagens, não fazia sentido apresentar uma série de curtas faixas sem título nenhum. Adicionalmente temos o belíssimo main title de Legrand, e uma interessante improvisação sobre este tema, com pouco mais de seis minutos, que Legrand aproveitou para gravar. Por certo o melhor do álbum, uma excelente viagem musical com uma sonoridade muito mais fresca e original que o trabalho que acabou por se ouvir no filme. Tal como na gravação da música de Williams, o som é bastante bom, tendo em conta a idade das fitas. Acima de tudo, Kendall e Cia. oferece-nos a possibilidade de ouvir duas visões musicais sobre um mesmo filme, coisa rara, já que muitas vezes a partituras rejeitadas, quando gravadas, acabam por se perder ou são destruídas. Os seguidores assíduos da obra de John Williams vão querer o CD pelo seu trabalho até agora inédito, que tem alguma invenção melódica, proporciona uma audição bastante satisfatória e, em última análise, é como sempre com Williams, absolutamente competente. Mas a minha recomendação para a sua aquisição vai pela inclusão do original e refrescante esforço de Legrand.

CDs COMENTADOS