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No ano do septuagésimo aniversário de
John Williams, a Film Score Montlhy já lançou um CD dedicado ao
compositor. Mais uma vez o trabalho apresentado é completamente
inédito em edição comercial, embora flutuem pelo menos duas edições
pirata, com uma qualidade sonora duvidosa. Durante os vinte e nove
anos desde o lançamento de The Man Who Loved Cat Dancing, os
admiradores de Williams apenas podiam encontrar, com alguma
dificuldade, a adaptação para canção (com letras de Paul Williams)
do tema principal do filme. Esta canção, "Dream Away", foi gravada
pelo cantor Paul Williams, acompanhado por uma orquestra dirigida
pelo compositor, mas esta gravação está há muito fora de catálogo -
com a exceção de uma breve edição japonesa, também já fora de
catálogo. Os curiosos tinham que se contentar com a mais disponível
versão interpretada pelo grande Frank Sinatra, mas num arranjo
inferior de Don Costa. A FSM corrigiu esta falha com este excelente
lançamento, num glorioso som estéreo, ausente das edições piratas.
E
embora a gravação deixe revelar o tempo que passou desde 1973, o
trabalho de remasterização é notável. Quanto à música de John
Williams para esta complicada produção da MGM, composta à última da
hora para substituir o trabalho rejeitado do compositor francês
Michel Legrand, e numa época em que o compositor começava a ser
requisitado para projetos cada vez mais visíveis (1973 fica marcado
pelo primeiro encontro entre Williams e o jovem Steven Spielberg),
este é um trabalho decididamente menor, mesmo no âmbito dos
westerns para os quais Williams contribuiu com a sua música. Há
reminiscências de The Reivers e de algumas faixas de The
Cowboys, e na orquestração deixa antever o excelente The
Missouri Breaks. Extraordinariamente Williams apresenta uma mão
cheia de temas, apesar de ter tido apenas uma semana para compor e
gravar a música. Há o love theme, usado depois na já referida
canção, dois temas secundários, para cada um dos protagonistas (um
mais agitado para o masculino, interpretado por Burt Reynolds, e
outro mais delicado para o feminino, interpretado por Sarah Miles),
um motivo para trompete solo e alguma música para madeiras,
associada às personagens índias. Williams compõe também um
scherzo à moda de The Reivers em "Follow that Horse" e
bastante música associada a lutas ou momentos de tensão, que revela
o Williams modernista, que podemos encontrar em trabalhos mais
recentes como Born on the Fourth of July.
Estas faixas (como
é exemplo o percussivo "Billy's Fall/Boys Will Be" e as cordas
atonais de "The Aftermath") contribuem para a criação de uma
atmosfera mais tensa, e é nesta inteligente alternância entre o
material temático e estas set-pieces, que está o melhor de
Williams: a audição desta partitura, mesmo apresentada na seqüência
fílmica é absolutamente satisfatória, ainda que neste trabalho o
compositor esteja longe de desbravar novos caminhos - talvez com a
exceção de algumas das faixas mais modernistas. Em termos de
originalidade, o melhor veio passado três anos no folclórico The
Missouri Breaks. Embora seja o trabalho de Williams que vá
chamar a maior parte dos compradores, o mais interessante do CD está
na inclusão do score rejeitado de Michel Legrand - e fica
melhor compreensível as escolhas algo mainstream de Williams.
A partitura de Legrand é completamente diferente, muito mais
orientada para os aspectos da cultura indígena, recorrendo a um
ensemble muito mais original que o de Williams, incluindo o uso
de voz e de instrumentos associados ao folclore.
Há também passagens
mais atmosféricas, mas seguem também a mesma linha estética. Uma vez
que apenas cerca de vinte minutos de música incidental foi gravada, Lukas Kendall e os seus colegas da FSM optaram por juntar as várias
curtas faixas em duas suítes, uma de onze minutos, a outra de oito e
meio - e uma vez que não há títulos para estas passagens, não fazia
sentido apresentar uma série de curtas faixas sem título nenhum.
Adicionalmente temos o belíssimo main title de Legrand, e uma
interessante improvisação sobre este tema, com pouco mais de seis
minutos, que Legrand aproveitou para gravar. Por certo o melhor do
álbum, uma excelente viagem musical com uma sonoridade muito mais
fresca e original que o trabalho que acabou por se ouvir no filme.
Tal como na gravação da música de Williams, o som é bastante bom,
tendo em conta a idade das fitas. Acima de tudo, Kendall e Cia. oferece-nos a possibilidade de ouvir duas visões musicais sobre um
mesmo filme, coisa rara, já que muitas vezes a partituras
rejeitadas, quando gravadas, acabam por se perder ou são destruídas.
Os seguidores assíduos da obra de John Williams vão querer o CD pelo
seu trabalho até agora inédito, que tem alguma invenção melódica,
proporciona uma audição bastante satisfatória e, em última análise,
é como sempre com Williams, absolutamente competente. Mas a minha
recomendação para a sua aquisição vai pela inclusão do original e
refrescante esforço de Legrand. |