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Se a presença de um comentário à última
compilação de Yo-Yo Ma, num site dedicado principalmente à
música para cinema, pode à primeira vista parecer estranha, não o
será tanto se lembrarmo-nos que inclui a única gravação disponível
de um novo tema de não outro senão o grande
John Williams. Ma
interpreta aqui o novo tema de Williams para a série televisiva
Masterpiece Theatre, composto para uma série de episódios,
sub-intitulados The American Collection. Apresentado na sua
versão expandida para concerto (com cerca de três minutos e meio,
contra apenas um da versão televisiva), o tema tem um som bastante
clássico, embora apresente todas as características do som mais
maduro de Williams. Uma pequena pérola de composição, que cita o
tema original da série (o "Rondeau" de Jean Joseph Mouret), com a
Arst Recording Orchestra of L.A. a acompanhar Ma.
De resto o CD inclui duas outras peças associadas ao cinema. A
primeira é um excerto da excepcional partitura vencedora do Oscar
Crouching Tiger, Hidden Dragon, de Tan Dun; a segunda é o "Libertango"
de Astor Piazzolla, usado no filme The Tango Lesson. E as
associações filmicas ficam por aqui. Mas o CD não deixa de ser
merecedor da nossa atenção por isso. Esta é sem dúvida uma das mais
bem produzidas compilações que já ouvi, demonstrando a amplitude da
arte e versatilidade deste grande solista, um dos melhores
violoncelistas da sua geração. O álbum foca a parte mas acessível do
repertório gravado por Ma, o que não deixa de ser compreensível,
embora pessoalmente lamente não ser incluído nenhum excerto das suas
gravações de Rouse, Danielpour, Kirchner ou Taverner. O álbum abre
da melhor forma possível, com o "Preludio" da primeira suíte para
violoncelo de Bach, extraído da gravação de 1997 "Inspired by Bach"
que deu origem a seis magníficos vídeos. Este compositor é o mais
bem representado no CD, com mais duas fantásticas interpretações de
arranjos para violoncelo e orquestra barroca, de autoria do
especialista Ton Koopman.
Da mesma forma que este CD poderá atrair os fãs de música para
cinema por causa da peça de Williams, os admiradores de Ma serão
tentados pela presença destas peças apenas nele disponíveis. Um
outro tango de Piazzolla, "Fear", da suíte "Tango Sensations", é
aqui apresentado pela primeira vez na interpretação de Ma. O tom
folclórico continua em peças de Mark O'Connor ("Butterfly's Day Out"
e "Appalachia Waltz"), Edgar Meyer ("1B") e numa nova gravação para
violoncelo e vocalista da belíssima canção tradicional "Simple Gifts"
(usada por Aaron Copland no seu famoso bailado "Appalachia Spring"),
aqui com Ma a acompanhar Alison Krauss. Há apenas um cheirinho de
jazz, via o primeiro Preludio de Gershwin, aqui no arranjo para
violino e piano de Heifetz, adaptado para violoncelo e piano pelo
próprio Ma. A parte mais clássica do CD, para além das já referidas
peças de Bach, inclui um dos momentos altos: um arranjo para
violino, violoncelo e orquestra da "Dança Eslava op. 72 nº 2" de
Dvorák. Com Itzhak Perlman (violinista em Schindler's List) e
acompanhados pela Boston Symphony, sob a direcção de Seiji Osawa, os
dois solistas conferem uma delicadeza adicional a uma das mais belas
peças deste compositor.
De particular interesse é também uma gravação do "Vocalise" de
Rachmaninoff, uma das mais famosas obras da música erudita, aqui com
Ma a acompanhar Bobby McFerrin. O interesse desta peça para fãs de
música para cinema é de aqui encontrarem onde John Williams foi
beber a inspiração para as belas passagens para voz e orquestra em
Artificial Inteligence. Um excerto da sensacional gravação
das Sonatas de Brahms (com o pianista Emanuel Ax) e outro do
"Quarteto para Piano de Faure" (com Ax, o recentemente desaparecido
Isaac Stern e Jaime Laredo) preenchem o resto do CD. Adequadamente o
álbum é encerrado com Ma a solo, com uma das já referidas
composições de Mark O'Connor, "Appalachia Waltz". Este é um CD que
pode e deve servir de introdução para a arte única de Yo-Yo Ma,
violoncelista fantástico, e dono de uma versatilidade rara. Será
indispensável para os admiradores incondicionais de Ma e Williams,
pelas peças disponíveis apenas aqui. Será no entanto também a
possibilidade para muitos fãs de música para cinema, que
aparentemente nunca ouviram falar dos grandes mestres, poderem
confirmar que a música clássica não é chata... Muito antes pelo
contrário, principalmente quando esta sai do coração interpretativo
do grande Yo-Yo Ma.
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