|
"O natural
seria utilizar a música da época, mas seu conteúdo emotivo ficou tão
estranho que foi necessário reinterpretá-la para satisfazer a
imaginação dos espectadores".
Ao contrário do que se poderia pensar, a frase acima não pertence a
Basil Poledouris
nem se refere a Conan, o Bárbaro (Conan the Barbarian,
John Milius, 1982): quem a disse foi Sergei Prokofiev, falando de
sua partitura para Alexander Nevsky (Eisenstein, 1938). Mas
ainda assim se aplica a este caso. Épica e vigorosa, a trilha sonora
que Poledouris compôs para Conan possui diversos pontos em
comum com a obra do compositor russo, que vão desde as fontes
musicais e a maneira de trabalhá-las, até uma ativa participação na
montagem final das cenas do filme (Poledouris é um dos raros
exemplos de compositores formados em cinema, dominando tanto a
edição como a direção). John Milius desejava que a música possuísse
uma carga dramática intensa e ao mesmo tempo certa religiosidade de
caráter primitivo. Por outro lado, devido a que a saga de Conan
ocorre há uns doze mil anos (oito mil depois do hipotético
afundamento de Atlântida), era necessário evitar referências a
períodos históricos demasiadamente concretos.
Com todas estas idéias em sua cabeça, Poledouris compôs uma
partitura que combina melodias modais, ritmos selvagens,
orquestrações à la
Miklós Rozsa (compare "Mountain of Power Procession" com "Parade
of Charioteers", de Ben-Hur) e referências à "Carmina Burana"
de Carl Orff, obtendo um resultado tão coerente e atrativo
que transcende às imagens da tela. O CD começa com "Anvil of Crom",
que reflete com tremenda energia o caráter bárbaro do personagem e a
rudeza do mundo no qual transcorrem suas aventuras. Em "Riddle of
Steel/Riders of Doom" a música inicia serena, contemplativa, e logo
se transforma no furioso cavalgar dos ginetes que chegam para
destruir os cimérios, o povo de Conan. Os textos em latim cantados
pelo coral são do próprio Poledouris, e certamente resultam
estremecedores. Com o sabor de uma tenebrosa cerimônia ritual, "Gift
of Fury" serve de marco à cena onde a mãe de Conan é assassinada por
Thulsa Doom, o líder de uma seita de guerreiros adoradores da
serpente.
Muito sugestivas são também "Theology/Civilization", "Wheel of Pain",
"Orphans of Doom/The Awakening" e "The Orgy", em especial esta
última, desenvolvida integralmente a partir de uma idéia melódica
que se repete em um tenso crescendo orquestral. O disco está
ordenado de acordo com as seqüências do filme, um critério pouco
aconselhável na maioria dos casos e que, mesmo assim, aqui não
atenta contra o conjunto da obra. Pode dar a sensação de que os
melhores temas são os primeiros, mas para dizer a verdade o material
é bastante uniforme. Poledouris triunfa no que o próprio filme
fracassou: capturar a essência dos personagens e lugares fantásticos
que Robert E. Howard imaginou há mais de sessenta anos. E ainda por
cima, o faz com folgada qualidade musical. Uma obra imprescindível
para os apreciadores da grande música do cinema. |