|
Alguns talentos
são luminosos, incríveis e inesquecíveis. Há vezes em que não
queremos vê-los, que fingimos não sentir sua presença em cada coisa,
em cada feito. Fingimos não escutar sua voz, seu canto, seu grito ou
seus ensinamentos. Que preferiríamos que não permanecessem no tempo.
Tudo porque comentam, questionam e acompanham o que fazemos. Somente
uns poucos, os verdadeiros artistas, têm essa capacidade de
"continuar sendo" apesar de nossa aparente indiferença. Estão ali,
desafiando o tempo e a memória e, sem dúvida, continuarão ali mesmo
após termos partido, oferecendo sua arte e perguntando em troca
“Porque o mundo é assim?”. A música incidental para o cinema tem um
destes talentos, e esta coleção apresenta o melhor da sua obra. Ao
final de sua carreira, o compositor norte-americano
Bernard Herrmann
(1911-1975) teve a brilhante idéia de, mediante um contrato com o
selo Decca/London, passar em revista os pontos altos de mais de três
décadas de uma vida ligada fundamentalmente à criação de música para
o cinema.
Desta forma nasceram "The Concert Suites", especialmente preparadas
e conduzidas pelo compositor e interpretadas magistralmente por The
London Philharmonic Orchestra e The National Philharmonic Orchestra,
as orquestras mais importantes de sua época. Em seu conteúdo, quatro
CDs ordenados por gênero, que incluem a colaboração
Herrmann-Hitchcock e a música para os filmes fantásticos da dupla
Charles H. Schneer-Ray Harryhausen).
As
mais populares e aclamadas partituras de Herrmann estão presentes:
Citizen Kane,
The
Devil and Daniel Webster,
Jane Eyre, The Snows of Kilimanjaro, The Day The Earth
Stood Still, Journey to The Center of The Earth,
Fahrenheit 451, The Trouble with Harry, Vertigo,
North by Northwest,
Psycho
,
Marnie,
The
7th
Voyage of Sinbad,
The Three Worlds of
Gulliver,
Misterious Island
e
Jason and The Argonauts.
Cidadão Kane,
no CD 1, é talvez a música perfeita para acompanhar o gênio do
melhor diretor da historia do cinema, Orson Welles. Ali, Herrmann
faz pulsar uma emotividade contida, sublimando o filme. Sua
intervenção é fundamental e a suíte que ouvimos, brilhante. Em outra
linha, Fahrenheit 451, no CD 2, é visceral e nova, o
contraponto ideal à imaginação de Ray Bradbury e François Truffaut.
Sua execução neste disco é um ponto alto que o aficionado das
trilhas sonoras saberá desfrutar plenamente.
O CD 3 evidencia que o talento de um compositor de cinema pode
levá-lo quase a co-dirigir um filme. Herrmann foi tão “Hitchcock”
quanto o próprio Hitchcock. Um binômio perfeito que encontrou em
Um Corpo que Cai (Vertigo) sua obra-prima. Poucas vezes
na história do cinema assistimos a um encontro artístico de
semelhantes proporções.
Finalmente, o CD 4 abre espaço para a
fantasia e encontra o compositor em plena forma, arriscando a
sonoridade para ir além de seu habitual. Simbad e a Princesa
(The 7th Voyage of Sinbad) é testemunho disso e sua suíte,
impecável e misteriosa é, sem dúvida, também desafiadora.
Tampouco devemos
esquecer o generoso booklet que acompanha a edição da Masters
Film Music, que escrito por Robert Towson e Kevin Mulhall, resume
apropriadamente a carreira do compositor e cada um dos volumes em
particular (cada um destes discos foi também editado individualmente
pela Decca/London ao longo dos anos). Assim, deste modo simples mas
genial, Bernard Herrmann resumiu uma carreira que ainda hoje
continua sendo uma referência para posteriores gerações de
compositores ligados à sétima arte. Criando um estilo intransferível
que emociona, surpreende e nos obriga a refletir com a profundidade
de seus comentários musicais apoiando cada filme.
Em suma, o compêndio da obra de um grande artista. O testemunho vivo
de seu talento imperecível e uma lição permanente de como deve ser a
boa música de cinema. |