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Indicado três vezes ao Oscar,
Danny Elfman, um
dos compositores mais requisitados em Hollywood, continua sua
colaboração de muitos anos com o inovador cineasta Tim Burton na
trilha sonora de A Noiva-Cadáver. Com esta nova colaboração o
binômio Burton / Elfman mostra novamente que a sua criatividade os
reúne num tema comum: o gótico. Sua primeira incursão em 2005,
Charlie and the Chocolate Factory
foi – sem dúvida - um excelente trabalho tanto para o diretor como
para o compositor. Meses depois, os dois criadores reencontraram-se
em Corpse Bride, o
filme animado realizado por Burton no sistema
Stop Motion (animação
quadro a quadro) na linha de The
Nightmare Before Christmas
e que recria, como sabemos, uma história de amor entre dois mundos.
Em momentos em que a animação digital aponta para cores vivas e um
humor sem pausas, Burton e seu co-diretor Mike Johnson apostam numa
visão mais romântica, mais sombria e porque não, também mais
artística instalando – quase despreocupadamente - a bigamia em plena
época vitoriana. Enfim, o filme poderia ser definido da seguinte
maneira: de como Burton combina um velho relato russo, o tipo de
animação que ele mais gosta, seu habitual universo sombrio, a música
de Danny Elfman e seus atores preferidos numa comédia pensada para
ser desfrutada por todos os tipos de público.
Como dissemos acima o diretor transportou a história original da
Rússia czarista para a Inglaterra vitoriana, uma época que imaginou
pálida e opressiva. Mesmo assim não há terror no filme: tudo é
música, poesia, humor e romance. O mundo dos mortos é alegre e
colorido, enquanto o dos vivos é – naturalmente - frio e cinzento.
Os defuntos cantam jazz,
os vivos operetas. Os mortos são gente muito boa e os vivos pensam
unicamente en dinheiro. No meio de tudo isso, Burton apresenta
Victor, o noivo, filho de um novo-rico, dono de uma pestilenta
peixaria e vivo (em todos os sentidos) expoente de uma pequena
burguesia em ascenção. Seus pais decidiram arranjar-lhe um bom
partido, ou seja, casá-lo com a filha de um nobre para que possa
ascender na escala social. Como seria de esperar, as coisas não
serão tão simples, ainda mais depois que Victor comete o erro de
desposar um cadáver no lugar da sua prometida.
Entre números musicais (com canções de nosso admirado Elfman) e
imagens de incrível e sombria beleza, os anti-heróis "burtonianos"
devem encontrar uma forma de resolver a confusão que causaram - como
em The Nightmare Before
Christmas (1993) – nos dois universos. E como sempre
ocorre na obra do diretor, um mundo de fantasia deve contrapor-se,
necessariamente, com um real. Elfman, da sua parte, entrega uma
trilha sonora que de vários modos lembra outras, algumas próprias,
outras não, tais como Edward
Scissorhands, Shrek,
Beetlejuice e
Bedknobs & Broomsticks
(dos irmãos Sherman), aquela partitura para a Disney que
acertadamente era tão dark como feliz.
Começando com o desenvolvimento que já é familiar nos trabalhos do
compositor (corais femininos, cordas suaves), o “Main Title”
apresenta vários motivos que o compositor desenvolverá ao longo do
score. A introdução
com cravo traz um novo som ao estilo Elfman e diferentemente de sua
obra anterior, Charlie and the
Chocolate Factory, as canções não precedem o
score, mas são
apresentadas cronologicamente no CD. O acerto das canções merece uma
nota à parte, já que foram interpretadas por uma seleção de
excelentes atores britânicos como Albert Finney, Joanna Lumley e
Tracey Ullman (em “According to Plan”) e Helena Bonham Carter e Jane
Horrocks (em “Tears to Shed”) .
Graças à sua capacidade poética, sugestiva e sonhadora - que boa
parte do cinema moderno parece ter esquecido – Burton permite que os
protagonistas possam conhecer-se e enamorar-se graças a alguns
simples acordes de piano. Então, vários temas rondarão em torno
desse som. “Victor’s Piano Solo” introduz um tema simples e
romântico que é desenvolvido mais tarde, enquanto que os demais
instrumentais encontram sua inspiração nos motivos já cortejados por
aquele, por exemplo “Casting a Spell / Moon Dance” e “According to
Plan”, que, junto ao vigoroso “Into the Forest”, demonstram que
Elfman captura a essência emotiva do filme e consegue traduzi-la
perfeitamente em música, com ou sem palavras.
No já citado tema “Tears to Shed”, Helena Bonham Carter interpreta
acertadamente o dilema da noiva cadáver com humor e uma pontada de
dor. Ainda, talvez, o mais notável sejam as
bonus tracks, quatro
temas interpretados por
Bonejangles – o próprio Danny - e seus
Bone Boys, onde Elfman
se diverte cortejando o jazz estilo New Orleans, como por
exemplo em “Remains of the Day”. A canção final, “The Wedding Song”,
nada mais é que um pastiche de diferentes estilos com um ar de
opereta que está, obviamente, cheio de transições, já que mostra
pela segunda vez o contraponto entre os personagens de uma forma
brilhante, tal como antes sucede em “According to Plan”.
Corpse Bride
funciona como um bom relógio, combinando acertadamente suas diversas
vertentes musicais ao seu estilo, via de regra satírico. Sem dúvida,
ainda que a noiva esteja morta, conhecê-la é altamente recomendável.
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