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Falar sobre a trilha de
Dances with Wolves é como recordar boas lembranças. No final de 1990
eu começava a iniciar minha coleção de trilhas sonoras e no ano
seguinte, John Barry
ganhava o seu quinto Oscar pela trilha deste épico de Kevin Costner.
Ávido por conhecer as melodias deste compositor que ganhara de
John Williams (que
concorreu no mesmo ano por Home Alone), comprei um dos meus
primeiros LPs de música para cinema: a trilha de Dança com Lobos.
A música me tocou profundamente e Barry ganhava naquela dia mais um
grande admirador. Alguns anos mais tarde, com a chegada dos compact
discs, vendi minha modesta coleção de trilhas em vinil e agora,
quase dez anos depois, tenho o prazer de ouvir novamente este
maravilhoso trabalho neste edição expandida* que traz um acréscimo de
cerca de 25 minutos de música inédita (não estou levando em consideração
aqui uma edição limitada de 95 que continha algumas faixas extras além
do álbum original de 1990).
John Barry criou um trabalho tão complexo e monumental que é preciso
muitas audições para começar a separar os temas e motivos que ele criou
para os personagens, e as seqüências que transcorrem na tela. Aliás,
assistir ao filme é como ouvir ao score com as imagens, uma vez
que Kevin Costner, felizmente, optou por não deixar a música como um
mero coadjuvante. O volume está na altura ideal para que a música
reforce dramaticamente as imagens que vemos. E dramaticidade é o que não
falta às composições de Barry. Ao ouvir a trilha percebe-se uma tal
coesão entre as faixas que parece estarmos ouvindo uma grande suíte
sinfônica. Mas mesmo neste unidade musical podemos identificar duas
grandes vertentes que o compositor percorre em seu trabalho: a épica e a
lírica. Comecemos pela épica, marcada principalmente pelo trabalho
conjunto da seção de cordas e de metais da orquestra, que num estilo
dominantemente sinfônico confere uma grandiosidade ímpar à jornada de
John Dunbar através das pradarias do interior americano, a nós reveladas
em grandes planos e panorâmicas. Faixas como "Ride to Fort Hayes" e "Journey
to Fort Sedgewick" são exemplos do tipo de música a que me refiro.
Nesta última, em especial, Barry nos brinda com um maravilhoso "duelo"
entre cordas e trompas à medida que o personagem de Costner viaja em
direção ao seu forte abandonado. É também nesta vertente épica que as
mesmas trompas e cordas, se revezando na execução da melodia, nos
apresentam o tema relacionado aos búfalos. Podemos ouvi-lo na introdução
de "Journey to the Buffallo Killing Ground" e nas duas faixas
subseqüentes: "Spotting the Herd" e "The Buffalo Hunt (film version)".
Por falar nesta última, é a primeira vez que podemos ouvir a música que
foi utilizada no filme para a seqüência em que Dunbar e os índios Sioux
perseguem a manada de búfalos, com seu tom heróico e mais próximo do
estilo western. No entanto, é a versão rejeitada, presente no
álbum de 1990 e aqui apresentada na faixa 23, que se aproxima mais do
espírito do filme. Em ambas as versões podemos ouvir aquela introdução
onde as cordas ditam o ritmo da cavalgada dos caçadores – acompanhadas
também pelas trompas. Mas nesta, o tema de John Dunbar tocado pelos
metais substitui com mais eficiência o heroísmo daquela. É no marcante "The
John Dunbar Theme" que reside o grande tema central do filme e que
transita do épico para o lírico.
Além desta versão para álbum interpretada pelas cordas - bem ao estilo
romântico e apaixonado de John Barry – este "Main Title" abre o filme
com um solo de trompete e reaparece em diversas ocasiões, como na já
citada "The Buffalo Hunt", solado pela gaita na faixa 16, na versão
apresentada no filme (ligeiramente contida na parte final) e num arranjo
mais triste para representar a matança indiscriminada dos búfalos (na
segunda metade de "Journey to the Buffalo Killing Ground"). Mais três
temas se inserem neste lirismo ao qual o compositor está habituado e que
é uma de suas marcas registradas: o tema do lobo (nas faixas "Two Socks/The
Wolf Theme" e "Two Socks at Play"), o tema de amor entre Dunbar e
Christine ("Falling in Love", "The Love Theme, "The Return to Winter
Camp") e o tema relacionado à amizade de Dunbar com os índios Sioux ("The
Buffalo Robe", a introdução de "Falling in Love" e "Farewell"). Todos
normalmente executados pelas cordas com alguns solos de instrumentos de
sopro.
Além destes dois grandes grupos lírico e épico, podemos destacar o tema
para os momentos de maior tensão do filme normalmente relacionados com
os índios Pawnees em "The Death of Timmons", "Stands with a Fist
Remembers" e "Pawnees/Pawnees Attack/Stone Calf Dies/Toughest Dies".
Nestas duas últimas faixas, além do registro mais agudo das cordas
(também utilizado em "Looks Like a Suicide") temos a inclusão de uma
percussão étnica, interessantemente utilizada por Barry também em "Rescue
of Dances with Wolves" – neste caso só a percussão permanece, pois o
tema utilizado representa os índios Sioux e não a ameaça dos Pawnees.
Vale ainda destacar o uso de vozes femininas, como fantasmas
representando os momentos trágicos nas vidas de John Dunbar e de
Christine ou, num clima totalmente oposto, na caça aos búfalos. Enfim,
John Barry conseguiu criar uma partitura diversa, lírica e épica que com
certeza entra para a galeria de seus melhores trabalhos e, por que não,
da grande música para o cinema.
* Esta edição expandida, um raro caso em que o CD nacional foi lançado
antes do norte-americano, apresenta a mesma capa do álbum original de
1990. Então, ao se deparar com o CD nas lojas, confira o verso para
verificar se constam as faixas estendidas e as adicionais.
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