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Parte I - A Criação
O filme mais esperado do ano. A trilha mais esperada do
ano. A dupla dinâmica está de volta. Não, não é de
Batman e Robin que estou falando, e sim do duo
Hans
Zimmer
e
James
Newton Howard,
que está novamente à serviço do diretor Christopher
Nolan. Perto das trilhas que
Danny Elfman
e Elliot Goldenthal fizeram para os filmes anteriores do
Homem-Morcego, a partitura de
Batman Begins
foi decepcionante e muito fraca musicalmente. Nada de
temas heróicos, fanfarras ou manobras orquestrais
agitadas. Ao invés disso, a trilha é repleta de batidas
eletrônicas, cordas contrapontísticas densas e
excessivamente dramáticas. Zimmer, no entanto, teve um
grande mérito - conseguiu estabelecer um tema marcante
com apenas duas notas. E foi esse motivo de duas notas
que gerou expectativas positivas para mim em relação à
trilha de Batman
- O Cavaleiro das Trevas (The
Dark Knight).
Desde o lançamento da trilha de
Batman Begins, Zimmer vêm dando sempre o mesmo
discurso: originalmente tinha composto um tema mais
extenso, mas achou que o personagem ainda não merecia um
tema completo já que o próprio Bruce Wayne ainda estava
se descobrindo, e que em um próximo filme a idéia seria
desenvolvida.
O que temos aqui em
The Dark Knight
é uma trilha mais agressiva, mais tensa, sem todo
aquele ritmo mais arrastado de
Batman Begins.
O filme em geral ganhou um ritmo diferente, cheio de
ação, conflitos e explosões. A
trilha soa essencialmente Zimmeriana. Aliás, fica bem
evidente que a presença de Howard nesta trilha foi
meramente simbólica, já que Hans colocou todas suas
marcas registradas na trilha e toma assim as rédeas na
composição. A impressão é que, de fato, eles nem
trabalharam juntos. Foi como se Zimmer tivesse dado
algumas faixas para Howard compor e fez o resto. Os dois
trabalhando em uma mesma trilha, porém cada um no seu
canto.
Ambos disseram em entrevistas que o tema do Coringa era o
trabalho de um homem, assim como o tema de Harvey Dent -
então, cada um ficou com a incumbência de compor um. O do
Coringa, sendo um personagem extremamente interessante e
também um dos principais no filme, obviamente ficou com
Zimmer. O de Harvey Dent foi o que sobrou para Howard.
Apesar de terem falado dessa divisão dos temas publicamente,
Zimmer disse que seria difícil identificar quem fez o que
nessa trilha, e que nem eles mesmos sabiam mais quem fez o
que. Acredito que isso tenha sido mais uma jogada comercial,
para tentar ilustrar que eles formaram uma equipe mesmo.
Penso que, com essa colocação, eles quiseram afirmar que
havia um sentimento de unidade na trilha. Como se eles
estivessem tão interligados que o resultado nem parece ser
trabalho de dois compositores distintos. Realmente há esse
sentimento de unidade, mas por outro motivo. Não por ter
havido essa simbiose entre dois, mas simplesmente pelo fato
de que Hans Zimmer dominou a trilha.
The Dark Knight
é por excelência uma trilha dele, Howard deu apenas alguns
pitacos. Em Batman
Begins havia uma descontinuidade, uma segmentação
irritante. A trilha não tendia para nenhum dos lados, o que
causava um certo sentimento de “não uniformidade”, uma vez
que o CD da trilha sonora ficou meio a meio, por assim
dizer. Já aqui não, e devo confessar que eu sabia que mais
cedo ou mais tarde isso iria acontecer: Zimmer ia botar o
olho nesse projeto, uma vez que ele cresceu
consideravelmente mais do que se esperava.
A
trilha conta com muitos
ostinatos de
cordas, marca registrada de Zimmer, que mesclam ação e
emoção, exatamente como ele fez em
O Código
da Vinci, e que caem como uma luva na temática do
novo filme. Aliás, além de servir no filme é gostoso de
ouvir, e acaba lhe contagiando. Aqui aproveito para
ressaltar um detalhe que há bastante tempo venho percebendo:
fica sempre bem claro em sua trilhas que Zimmer não sabe
orquestrar muito bem, já que quase não explora outros naipes
e acaba sempre escrevendo 80% de suas trilhas para cordas. O
naipe das cordas é o mais homogêneo da orquestra, por causa
da semelhança timbrística entre os instrumentos, e por isso
é um dos mais fáceis de se escrever também. Dá para ver
claramente em uma peça orquestral quando o cara é bom
orquestrador ou não. Williams por exemplo, raramente deixa
um naipe predominar durante uma trilha inteira. Até pode
acontecer, em uma ou outra, de um tema principal ser tocado
todo por apenas um instrumento como flauta ou celesta, mas o
resto da orquestra vai aparecer em algum momento da trilha
(com algumas exceções é claro). Já nas trilhas de Zimmer não
há variação, é sempre cordas! Apesar dessa pobreza
orquestral, todavia, eu gosto do estilo do Zimmer, assim
como não acho demérito nenhum ele não ser um Stravinsky da
orquestração. Essa é a personalidade musical dele.
Em resumo, a trilha de
The Dark Knight
é excelente. O que não podemos é fazer colocar Hans no mesmo
patamar de compositores com formação mais tradicional e
erudita, como John
Williams e
Jerry
Goldsmith. A estética musical e o estilo de Zimmer são
totalmente
não-tradicionais, contemporâneos, e de uma complexidade
teórica bem menor. Se fossemos analizar musicalmente as
composições do Zimmer e comparar com qualquer uma do
Williams ou do grande
Herrmann,
o alemão da Media Ventures seria massacrado. Há, porém, um
detalhe: é injusto comparar estilos diferentes, logo isso
não deve ser feito. A música de Zimmer é muito boa e serve
de forma extraordinária ao filme, só o que me irrita é a
arrogância que Zimmer teve em algumas entrevistas, onde quis
cantar de galo e esqueceu o quanto é fraco como músico,
sendo que não sabe nem ler partituras e muito menos tem
formação acadêmica.
Em uma entrevista ele menosprezou o estilo tradicional da
música de cinema, falando sobre compor temas orquestrais
heróicos e toda essa coisa mais erudita - indiretamente se
referindo a temas como
Superman de Williams e
Batman
de Elfman - ele e o Howard sabem fazer muito bem e já
fizeram bastante em suas carreiras. Para esse novo Batman,
de Nolan, ele optou por um outro caminho. Optou pelo motivo
de duas notas. “Santa arrogância, Batman!”, diria o menino
prodígio. Desde quando um motivo de duas notas é mais
difícil de compor que uma grande fanfarra orquestral? A
complexidade de escrever um tema para uma orquestra
completa, e ainda mais respeitando certas regras de
composição tradicional, é muito grande. Já criar umas
batidas eletrônicas, com alguns
ostinatos de
cordas em cima, é bem mais fácil com certeza.
Vira e mexe alguém contesta essa simplicidade, e não é de
hoje que Zimmer apela para explicações transcedentais como
justificativa para seu simplismo. Com um discurso poético,
disse que em sua análise esse Batman é um personagem
complexo, que está se descobrindo e que, portanto, não
poderia ter um tema mais elaborado, pois isso daria
informações demais sobre o personagem. Informações essas que
o personagem ainda nem tem a seu próprio respeito. Howard
parece ter concordado com essa premissa, e provavelmente
combinou que diria a mesma coisa, uma vez que em uma
entrevista recente ele praticamente repetiu as palavras de
Zimmer. Na minha opinião, Howard se posicionou dessa maneira
pelo fato de Zimmer ser o “dono” do projeto, e de ele ter
sido convidado pelo alemão para o projeto. Ele deve esse
reconhecimento ao Zimmer, de certa forma.
O erro de Zimmer é ficar se justificando. Não precisaria, já
que o motivo de duas notas é mais que o suficiente e
adequado para o filme. Eis a palavra chave: adequação!!
The Dark Knight
com certeza vai perpetuar o estilo de Zimmer com cordas bem
movimentadas, sempre lembrando um pouco
O Código da Vinci,
que aliás foi outra belíssima trilha.
Parte 2 -
Percorrendo a Trilha
O álbum abre com a tão falada
Joker Suíte
(Suíte do Coringa, chamada assim pelo próprio Zimmer em
entrevista), que aqui leva o nome de “Why So Serious?”,
frase que ficou com certeza imortalizada pela
extraordinária atuação de Heath Ledger como Coringa.
Zimmer fez uma enorme propaganda em diversas entrevistas
sobre essa composição, dizendo que para esse tema criou
um conceito novo, algo único, nunca feito antes para um
blockbuster
- mas não passa de uma música experimental que poderia
facilmente ser criado por alguma banda de
metal
industrial como Rammstein ou até mesmo Marilyn
Manson. Um
crescendo de apenas uma nota é o principal motivo da
faixa. Apesar de aparecer várias vezes no filme, acho
muito complicado classificar isso como um tema, pois a
expressão tema vêm de um campo da música chamada
“fraseologia musical”, e para considerarmos algo um tema
alguns quesitos devem ser atendidos. Um
crescendo de
uma única nota, que não tem sequer uma harmonia como
base, segundo meu entendimento, não pode ser considerado
um tema. Não sei porque Howard ficou elogiando e dizendo
que é um conceito totalmente inédito, se ele próprio
seria capaz de compor algo no mínimo cem vezes mais
interessante. Isso me pareceu ser mais bajulação do que
admiração, propriamente.
“I'm Not a Hero” inicia com o que parece ser o tal 'Tema' que
Hans Zimmer tinha composto originalmente para o primeiro
filme, e guardou na manga para mostrar depois. Basicamente o
motivo de duas notas aqui serve como pano de fundo para o
baixo que toca uma melodia. O mais interessante é a forma
como a melodia do baixo e o motivo de duas notas tocado
pelas trompas se encontram. Achei isso fantástico, com
certeza o momento mais sublime da trilha para mim. Em
seguida o cello
toma a frente, tocando um motivo que estará presente em
outros momentos, inclusive de forma um pouco mais tensa e
rápida em “Like Dogs Chasing Cars”. A faixa vai se
acalmanado e silenciando, para subitamente iniciar um novo
momento em 1:40. Não parece ser parte de uma mesma faixa,
parece mais que outra faixa começou, já que o clima mudou
totalmente. Em 3:55 a faixa pára de novo, faz um pequeno
interlúdio e recomeça, agora até há uma idéia de
continuidade.
“Harvey Two-Face” - temos um dos poucos momentos onde vemos
mais claramente toques de Howard.
“Aggressive Expansion” contém o motivo do Batman. A faixa é
emocionante, e como sempre ouvem-se ecos da composição
“Chevaliers de Sangreal” de
O Código da VInci.
“Always a Catch” contém o motivo de uma nota do Coringa. Se
observar, também há caraterísticas de Howard nesta faixa.
Essa talvez seja a única composição onde se consegue
observar tendências dos dois compositores se mesclando, o
que gera uma certa indecisão, pois não pende para nenhum dos
dois lados.
“Blood on My Hands” traz mais um pouco de Howard. Tem um
motivo de cordas que começa aos 59 segundos, que me lembrou
um pouco trilhas como
A Vila
e A Dama na
Água. Em seguida, um tema de piano fortalece a presença
de Howard nessa faixa. Aliás, ela parecer ter sido feita
pelo Howard apenas. No máximo, tem apenas um breve resquício
de Zimmer.
“A
Little Push” é uma faixa cheia de ruídos e efeitos
eletrônicos. Em essência é sombria.
“Like
a Dog Chasing Cars” é a minha faixa preferida. É Zimmer do
começo ao fim. Emocionante, heróica, repleta de ação e ao
mesmo com seus momentos sombrios, é o tipo de faixa rara
hoje em dia. Ela permeia o icônico motivo de duas notas do
Batman de várias formas diferentes, e apresenta um
ostinato nas
cordas, que é uma variação de um motivo apresentado na faixa
“I'm Not a Hero” aos 43 segundos. No final ainda temos uma
referência ao Coringa com som de cordas eletrônicas, em uma
espécie de vibrato,
que já haviam aparecido anteriormente na faixa “Why So
Serious?”, e que aliás surgem de forma bem proeminente no
começo do filme, na cena do assalto ao banco.
“I Am
The Batman” é uma faixa sombria, com alguns toques de
melancolia. As cordas comandam, com destaque para violas,
cellos e como
sempre também para os baixos. O motivo de uma nota do
Coringa aparece, em seguida temos uma esporádica aparição de
trompas e violinos tocando dissonâncias. Um som percussivo,
padrão de Zimmer tanto em
Batman Begins
como nesta trilha, sinaliza que a faixa está quase no fim, e
então o motivo de uma nota vai sumindo até silenciar.
“And
I Thought my Jokes Were Bad” começa com uma melodia tocada
pelas trompas, insinuando o tema que será tocado de forma
doce no piano na próxima faixa. É um pouco difícil de
reconhecer essa semelhança em um primeiro momento, mas é a
mesma melodia - porém aqui disfarçada. A faixa em geral é
uma continuação perfeita de “Like Dogs Chasing Cars”. O
clima continua o mesmo com algumas pequenas variações.
Inclusive, usando como base o mesmo
ostinato de
cordas. Esse
ostinato é, na realidade, um padrão criado a partir da
aceleração e variação do motivo apresentado na faixa “I'm
Not a Hero” aos 43 segundos.
“Agent of Chaos” tem um motivo de piano em elisão (quando está
terminando já começa de novo, de forma natural, gerando um
padrão cíclico que poderia não acabar nunca). Essa é a marca
de Howard na faixa, é genial. Esta e “Always a Catch” são as
únicas faixas em que os dois compositores efetivamente
colaboraram. Também gostei muito desta.
“Introduce a Little Anarchy” é uma faixa excelente. Também
faz referência a “Like Dogs Chasing Cars”, o que para mim
foi muito agradável, já que gostei demais.
“Watch The World Burn” é uma faixa sombria e extremamente
melancólica, dramática.
Cellos e baixos
conduzem quase toda a composição. No final as cordas se
tornam fortes e assombrosas, aliás um momento lindo e com
muito contraponto, provavelmente coisa de Howard. Esse
momento é um dos mais interessantes da trilha.
“A Dark Knight” é a Suíte de Encerramento da trilha, por assim
dizer, contendo os momentos mais importantes, no que tange
ao personagem do Homem-Morcego. Tudo que está aqui é
relacionado ao Batman, logo não espere o ouvir novamente o
motivo do Coringa, nem os temas do Harvey. A não ser por um
momento bem no finalzinho da faixa, onde há algo bem
discreto que faz referência ao Coringa. A faixa mostra que
ainda há um resquício de erudito, já que suítes e
composições de longa duração são marca de compositores como
John Williams e
James Horner,
que devem ter por sua vez sofrido influência de compositores
como Mahler, que compunha sempre movimentos gigantescos para
suas Sinfonias. Fechando o disco de forma heróica e
emocionante, “The Dark Knight” é uma faixa extremamente bem
construída e muito interessante de ouvir. |