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Se tem algo que
diferencia Hans
Zimmer dos outros
compositores do cinema não é apenas que ele seja um dos mais conhecidos,
um dos mais seguidos, um dos mais polêmicos e um dos mais ativos do
panorama musical atual... O que o diferencia dos outros, em especial, é
sua acertada aproximação musical a cada novo filme, bem como sua
variedade e evolução musical. Em seus mais de 20 anos de carreira no
cinema, suas obras têm sido as mais díspares possíveis e sua evolução na
forma de compor não deixa de nos surpreender a cada trabalho que
realiza. Como todos os compositores, ele criou trabalhos melhores e
piores, mas se destaca a ausência de um claro “retrocesso musical”, sua
evolução foi continuada e ainda continuamos sem saber (para alegria dos
fãs) em que estilo seguirá surpreendendo, qual será sua trajetória
musical seguinte.
Zimmer compôs scores onde
utilizava exclusivamente sintetizadores, genuinamente revolucionários
para sua época. Também há trabalhos onde ele combinou os sintetizadores
com orquestras; scores
onde trabalhava com um grupo reduzido de músicos;
scores onde o ponto forte
era uma grande orquestra com pequenas inclusões de sintetizadores, ou
seja, ele realizou quase todas as combinações musicais possíveis hoje em
dia. Atualmente o compositor se caracteriza por sua paixão pelas
orquestras sinfônicas e corais, com uma predileção desmedida pelas
cordas, como é o caso da obra que tratamos aqui; e o mais admirável
disso tudo é que, componha da maneira que componha, todas as suas obras
trazem seu perfil, seu estilo próprio.
A atual fase da evolução musical de Zimmer remonta ao final dos anos
1990, quando criou um de seus melhores
scores,
The Thin Red Line, e onde
começou a utilizar um “lado sombrio” e intimista que ouviríamos mais
vezes (Hannibal,
The Ring, etc.). O
paradoxo é que para conseguir esse intimismo Zimmer emprega importantes
formações orquestrais que conferem à sua música um ar grandioso e
elegante. Para O
Código Da Vinci, o diretor
Ron Howard, diante da impossibilidade de contar com seu colaborador
habitual James Horner,
escolheu com total acerto o compositor alemão, com quem já trabalhara 15
anos antes em Backdraft e
onde Zimmer criou um dos seus melhores trabalhos, uma obra inesquecível
que tinha todos os elementos musicais do compositor.
Inicialmente Zimmer concebeu este trabalho em torno da complexa série
matemática de Fibonacci, ponto de partida da trama contada no filme. No
entanto, a engenhosa e arriscada aposta de construir as melodias, a
harmonia, a orquestração em geral do
score de um filme tão
controvertido como este, tomando como referência uma série matemática,
era uma autêntica loucura. Deste modo, o compositor passou da
frivolidade dos números à paixão das cordas, ao confronto do sacro com o
pagão. Ao Zimmer eclético e inovador, em busca de novas soluções e
propostas musicais, sem renunciar em nenhum momento ao seu estilo.
The Da Vinci Cide
é uma evolução lógica de The Thin Red
Line, Hannibal
e The Ring. Um verdadeiro
esforço do compositor em realizar uma aproximação séria com a composição
clássica na linha de Mestres como Sibelius, Mahler e Bruckner. Neste
sentido basta escutar a imensa abertura do filme, “Dies Mercurii I
Martius”, onde Zimmer apresenta as linhas básicas do
score, adaptando-se às
reviravoltas dramáticas do filme: morte no Louvre, apresentação de
Silas, morte do conservador (terrífico crescendo na metade do tema), e
conjugando tudo isto com a apresentação de Robert Langdon e do tema que
chamaremos de “busca”. A faixa termina com um dramático adágio de
cordas, acompanhando a agonia do conservador. A flagelação e o martírio
de Silas, acompanhado do flashback,
e as conseqüências de sua penitência, são introduzidos musicalmente em
"L Esprit des Gabriel" e levados à sua máxima expressão em “The Paschal
Spiral”. A composição tem aqui um componente trágico e religioso,
apresentando o tema antagonista, associado à conspiração que utiliza o
Opus Dei como braço
executor. O violino de Hugh Marsh faz às vezes de introdução ao
sofrimento, sobressaindo um violento crescendo que coincide com o
momento da flagelação. Talvez um dos temas mais densos, agoniantes e
aterrorizantes da carreira do compositor alemão.
Chegamos a “Fructus Gravis”, e com ela ao tema de Sangreal. Um motivo
construído sobre a base de cordas com proeminência do
cello. Uma
tour de force, que nos
insere na dinâmica da música de ação, mas sob um novo ponto de vista. O
mesmo enfoque apresentado por Zimmer em
The Ring, com um embate entre
as cordas. Um scherzo,
onde o agitato de
violoncelos, contrabaixos e violas, acompanhados por poderosas
percussões, intensifica o efeito dinâmico da música. Tanto “Ad Arcana”
como “Malleus Maleficarum” ajudam a diminuir o tom de tensão, a
partitura se torna mais lírica, apresentando diversas melodias (entre as
quais se destaca o tema de Sophie) de enorme sensibilidade, com destaque
para os solos de violino, e as compensações da harpa. Na última faixa
mencionada há o reforço do uso do coral, interpretando um motivo que em
tempo e orquestração nos remete à mítica “Injection” de
Mission: Impossible 2.
Uma lástima que “Salvete Virgines” não tenha sido utilizada no filme.
Este canto pagão foi escrito para um dos
flashbacks, quando Sophie
descobre seu avô participando de uma cerimônia de iniciação no Priorado.
É uma faixa de enorme carga erótica e espiritual, uma autêntica jóia na
discografia de Hans Zimmer que por sorte podemos desfrutar no disco.
“Daniels 9th Cipher” inicia com o tema de Sophie, continuando com o
mesmo adágio para cordas usado na primeira faixa do CD (acompanhando a
morte do conservador). É um resumo da típica suíte “Zimmeriana”, cuja
segunda parte se destaca por sua maior espiritualidade e contenção, com
absoluto destaque de coral e cordas.
O ponto alto do score
chega com “Poisoned Chalice”. Uma passagem absolutamente estremecedora,
onde a beleza do coral, e em especial dos solos da soprano Hila Plitmann,
alcançam níveis de absoluto virtuosismo. Para não romper a dinâmica
musical, temos “The Citrine Cross”, onde a sensação da “busca” se
acentua mantendo o nível do coral, mas aumentando o dinamismo e o ritmo.
A verdade começa a vir à luz. A força de “Rose of Arimathea”, com o
desenvolvimento do tema antagonista e sobre a base de uma música sóbria
e contundente quanto à evolução do coral, e momentos puntuais de
liberação contida com o uso do tema de Sophie, interpretado por meio de
um piano em contraponto com o violino elétrico de Hugh Marsh, nos serve
de escudo para enfrentarmos, mais uma vez, a valente aposta de Zimmer
pela transgressão.
“Beneath Alrischa”, por sua vez, é uma faixa memorável, agressiva e
brutal, onde as cordas são levadas ao limite em um
scherzo que parece não ter
fim. Segue uma passagem acertadamente unida ao momento chave da
partitura, do filme e com certeza da história: “CheValiers de Sangreal”.
O tema da “busca” é apresentado em sua dimensão mais gloriosa e
emocional, através do recurso do adágio progressivo orquestral inventado
por Zimmer (enquanto ninguém provar o contrário) em
The Thin Red Line, melhorado
em Pearl Harbor e adaptado
aos novos tempos em
King Arthur,
The Last Samurai
ou
Batman Begins.
É uma composição que não merece ser comentada, mas sim ouvida.
O disco finaliza com a preciosa e sacramental “Kyrie for the Magdalene”,
escrito por Richard Harvey para coral, e cuja dimensão eclesiástica sem
dúvida está de acordo com o espirito da produção. Infelizmente este
final do disco não tem a mesma importância no filme, sendo utilizado
apenas um par de segundos como
source music durante o
flashback onde vemos o funeral de Sir Isaac Newton,
personagem chave no filme. Um visionário adiante de seu tempo, um
revolucionário, como Hans Zimmer. Ambos gênios. |