THE DA VINCI CODE
Música composta por
Hans Zimmer

Selo:
Decca / Universal
Catálogo:
B0006479-02
Ano: 2006
Faixas:
1. Dies Mercurii I Martius
2. L Esprit des Gabriel
3. The Paschal Spiral
4. Fructus Gravis
5. Ad Arcana
6. Malleus Maleficarum
7. Salvete Virgines
8. Daniel 9th Cipher
9. Poisoned Chalice
10. The Citrine Cross
11. Rose of Arimathea
12. Beneath Alrischa
13. Chevaliers de Sangreal
14. Kyrie for the Magdalene (Richard Harvey)

Duração: 68:03
Cotação:


Comentário de
Pablo Nieto

 

Se tem algo que diferencia Hans Zimmer dos outros compositores do cinema não é apenas que ele seja um dos mais conhecidos, um dos mais seguidos, um dos mais polêmicos e um dos mais ativos do panorama musical atual... O que o diferencia dos outros, em especial, é sua acertada aproximação musical a cada novo filme, bem como sua variedade e evolução musical. Em seus mais de 20 anos de carreira no cinema, suas obras têm sido as mais díspares possíveis e sua evolução na forma de compor não deixa de nos surpreender a cada trabalho que realiza. Como todos os compositores, ele criou trabalhos melhores e piores, mas se destaca a ausência de um claro “retrocesso musical”, sua evolução foi continuada e ainda continuamos sem saber (para alegria dos fãs) em que estilo seguirá surpreendendo, qual será sua trajetória musical seguinte.

Zimmer compôs scores onde utilizava exclusivamente sintetizadores, genuinamente revolucionários para sua época. Também há trabalhos onde ele combinou os sintetizadores com orquestras; scores onde trabalhava com um grupo reduzido de músicos; scores onde o ponto forte era uma grande orquestra com pequenas inclusões de sintetizadores, ou seja, ele realizou quase todas as combinações musicais possíveis hoje em dia. Atualmente o compositor se caracteriza por sua paixão pelas orquestras sinfônicas e corais, com uma predileção desmedida pelas cordas, como é o caso da obra que tratamos aqui; e o mais admirável disso tudo é que, componha da maneira que componha, todas as suas obras trazem seu perfil, seu estilo próprio.

A atual fase da evolução musical de Zimmer remonta ao final dos anos 1990, quando criou um de seus melhores scores, The Thin Red Line, e onde começou a utilizar um “lado sombrio” e intimista que ouviríamos mais vezes (Hannibal, The Ring, etc.). O paradoxo é que para conseguir esse intimismo Zimmer emprega importantes formações orquestrais que conferem à sua música um ar grandioso e elegante. Para O Código Da Vinci, o diretor Ron Howard, diante da impossibilidade de contar com seu colaborador habitual James Horner, escolheu com total acerto o compositor alemão, com quem já trabalhara 15 anos antes em Backdraft e onde Zimmer criou um dos seus melhores trabalhos, uma obra inesquecível que tinha todos os elementos musicais do compositor.

Inicialmente Zimmer concebeu este trabalho em torno da complexa série matemática de Fibonacci, ponto de partida da trama contada no filme. No entanto, a engenhosa e arriscada aposta de construir as melodias, a harmonia, a orquestração em geral do score de um filme tão controvertido como este, tomando como referência uma série matemática, era uma autêntica loucura. Deste modo, o compositor passou da frivolidade dos números à paixão das cordas, ao confronto do sacro com o pagão. Ao Zimmer eclético e inovador, em busca de novas soluções e propostas musicais, sem renunciar em nenhum momento ao seu estilo.

The Da Vinci Cide é uma evolução lógica de The Thin Red Line, Hannibal e The Ring. Um verdadeiro esforço do compositor em realizar uma aproximação séria com a composição clássica na linha de Mestres como Sibelius, Mahler e Bruckner. Neste sentido basta escutar a imensa abertura do filme, “Dies Mercurii I Martius”, onde Zimmer apresenta as linhas básicas do score, adaptando-se às reviravoltas dramáticas do filme: morte no Louvre, apresentação de Silas, morte do conservador (terrífico crescendo na metade do tema), e conjugando tudo isto com a apresentação de Robert Langdon e do tema que chamaremos de “busca”. A faixa termina com um dramático adágio de cordas, acompanhando a agonia do conservador. A flagelação e o martírio de Silas, acompanhado do flashback, e as conseqüências de sua penitência, são introduzidos musicalmente em "L Esprit des Gabriel" e levados à sua máxima expressão em “The Paschal Spiral”. A composição tem aqui um componente trágico e religioso, apresentando o tema antagonista, associado à conspiração que utiliza o Opus Dei como braço executor. O violino de Hugh Marsh faz às vezes de introdução ao sofrimento, sobressaindo um violento crescendo que coincide com o momento da flagelação. Talvez um dos temas mais densos, agoniantes e aterrorizantes da carreira do compositor alemão.

Chegamos a “Fructus Gravis”, e com ela ao tema de Sangreal. Um motivo construído sobre a base de cordas com proeminência do cello. Uma tour de force, que nos insere na dinâmica da música de ação, mas sob um novo ponto de vista. O mesmo enfoque apresentado por Zimmer em The Ring, com um embate entre as cordas. Um scherzo, onde o agitato de violoncelos, contrabaixos e violas, acompanhados por poderosas percussões, intensifica o efeito dinâmico da música. Tanto “Ad Arcana” como “Malleus Maleficarum” ajudam a diminuir o tom de tensão, a partitura se torna mais lírica, apresentando diversas melodias (entre as quais se destaca o tema de Sophie) de enorme sensibilidade, com destaque para os solos de violino, e as compensações da harpa. Na última faixa mencionada há o reforço do uso do coral, interpretando um motivo que em tempo e orquestração nos remete à mítica “Injection” de Mission: Impossible 2.

Uma lástima que “Salvete Virgines” não tenha sido utilizada no filme. Este canto pagão foi escrito para um dos flashbacks, quando Sophie descobre seu avô participando de uma cerimônia de iniciação no Priorado. É uma faixa de enorme carga erótica e espiritual, uma autêntica jóia na discografia de Hans Zimmer que por sorte podemos desfrutar no disco. “Daniels 9th Cipher” inicia com o tema de Sophie, continuando com o mesmo adágio para cordas usado na primeira faixa do CD (acompanhando a morte do conservador). É um resumo da típica suíte “Zimmeriana”, cuja segunda parte se destaca por sua maior espiritualidade e contenção, com absoluto destaque de coral e cordas.

O ponto alto do score chega com “Poisoned Chalice”. Uma passagem absolutamente estremecedora, onde a beleza do coral, e em especial dos solos da soprano Hila Plitmann, alcançam níveis de absoluto virtuosismo. Para não romper a dinâmica musical, temos “The Citrine Cross”, onde a sensação da “busca” se acentua mantendo o nível do coral, mas aumentando o dinamismo e o ritmo. A verdade começa a vir à luz. A força de “Rose of Arimathea”, com o desenvolvimento do tema antagonista e sobre a base de uma música sóbria e contundente quanto à evolução do coral, e momentos puntuais de liberação contida com o uso do tema de Sophie, interpretado por meio de um piano em contraponto com o violino elétrico de Hugh Marsh, nos serve de escudo para enfrentarmos, mais uma vez, a valente aposta de Zimmer pela transgressão.

“Beneath Alrischa”, por sua vez, é uma faixa memorável, agressiva e brutal, onde as cordas são levadas ao limite em um scherzo que parece não ter fim. Segue uma passagem acertadamente unida ao momento chave da partitura, do filme e com certeza da história: “CheValiers de Sangreal”. O tema da “busca” é apresentado em sua dimensão mais gloriosa e emocional, através do recurso do adágio progressivo orquestral inventado por Zimmer (enquanto ninguém provar o contrário) em The Thin Red Line, melhorado em Pearl Harbor e adaptado aos novos tempos em King Arthur, The Last Samurai ou Batman Begins. É uma composição que não merece ser comentada, mas sim ouvida.

O disco finaliza com a preciosa e sacramental “Kyrie for the Magdalene”, escrito por Richard Harvey para coral, e cuja dimensão eclesiástica sem dúvida está de acordo com o espirito da produção. Infelizmente este final do disco não tem a mesma importância no filme, sendo utilizado apenas um par de segundos como source music durante o flashback onde vemos o funeral de Sir Isaac Newton, personagem chave no filme. Um visionário adiante de seu tempo, um revolucionário, como Hans Zimmer. Ambos gênios.

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