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Quatro décadas e vinte filmes depois, o
agente secreto inglês com permissão para matar mostrou ainda ter fôlego
para atrair multidões aos cinemas e enfrentar a atual concorrência (Triplo
X). 007 - Um Novo Dia para Morrer (Die Another Day,
2002) foi saudado como o melhor James Bond da era Pierce Brosnam, o que
comprova que os produtores, ao longo dos anos, têm sabido preservar as
características do personagem, ao mesmo tempo em que sutilmente venham
adaptando o personagem e suas aventuras às mudanças políticas e de
costumes que ocorreram nas últimas quatro décadas. Musicalmente a
fórmula segue um padrão similar - canções e score refletem
tendências da época da realização, mas nunca distanciando-se em demasia
da fórmula que o compositor inglês
John Barry
desenvolveu até a perfeição. Desde 007 - O Amanhã Nunca Morre (Tomorrow
Never Dies, 1997), a voz musical de James Bond é de responsabilidade
do também inglês
David Arnold,
que após a controvertida partitura de Eric Serra para 007
Contra GoldenEye (GoldenEye, 1995), resgatou o estilo de
Barry nas partituras da série, revitalizando-as com ritmos
contemporâneos e eletrônicos. Neste aspecto, e do mesmo modo que em
007 - O Mundo não é o Bastante (The World is not Enough,
1999), Die Another Day caracteriza-se por, pela
primeira vez, um músico distinto de Barry ter composto três trilhas
sonoras para a série, e de forma consecutiva. Nesta terceira incursão de
Arnold, temos uma trilha com as seguintes características:
1.
Existe uma canção principal, "Die Another Day", composta por
Madonna, Michel Colombier e Mirwais Ahmadazai e interpretada por
Madonna, que acompanha as seqüências de créditos iniciais e finais;
2.
A canção principal não é utilizada como padrão para ser utilizada
instrumentalmente dentro da trilha sonora, exceto quando ela é ouvida
brevemente na seqüência da recepção no Castelo de Gelo;
3.
Durante o filme escutamos bastante o "Tema de James Bond".
Historicamente as
canções ouvidas nos créditos de abertura são sempre o destaque musical
destes filmes, via de regra elegantes e sensuais. Já a canção "Die
Another Day" é tão elegante quanto um canguru, e tão sensual como um
lambari. Certamente a escolha deste tema foi feita
mais com um critério comercial do que com um sentido estritamente
cinematográfico. Ela até inicia promissora com alguns acordes de
violino, mas logo surge a voz distorcida de Madonna e uma batida
eletrônica seca. Há de se reconhecer que este tema é
uma típica canção composta para o estilo da cantora, portanto claramente
é uma canção pop, mas que mesmo com esses atenuantes não convence
muito. A interpretação de Madonna parece
bastante artificial, notando-se em demasia a intervenção do computador,
inclusive na distorção da voz da intérprete. Adicionalmente não
há uma melodia propriamente dita, apenas a repetição da batida e da
letra cantada por Madonna, algo impossível de ser utilizado no score
de Arnold. Ou seja, dificilmente esta canção
passará à historia como uma das mais destacadas da série, pelo menos em
um sentido mais artístico. Porém, ela se encaixa bem nos créditos
de abertura, que mostram Bond sendo torturado pelos norte-coreanos, e
acabou tornando-se um enorme sucesso de execução em rádios e
danceterias. Seguindo com a tendência, novamente a
canção-tema não possui qualquer conexão com o argumento do filme, e ao
contrário dos cinco anteriores, neste não houve um segundo tema (que
habitualmente era utilizado para a seqüência de créditos finais),
voltando-se à antiga tradição de usar o mesmo tema para a seqüência de
créditos iniciais e finais. A única diferença é que a canção é ouvida
nos créditos finais em uma versão remix.
Como já assinalado em outro comentário, a
experiência musical de O Amanhã Nunca Morre
deixou grandes expectativas a respeito do que
Arnold poderia agregar musicalmente à serie. Estas expectativas não
foram satisfeitas com a música de O Mundo não é o Bastante, não
por ser uma trilha sonora ruim, mas porque Arnold começou a mostrar seu
estilo mais pessoal para este tipo de produção, cuja principal
característica é a combinação de seções eletrônicas com fragmentos
sinfônicos, o que nem sempre resulta muito atraente. A trilha sonora de
Um Novo Dia para Morrer claramente vai neste mesmo
sentido, o que é bastante lógico se consideramos que cada autor trata de
fixar seu próprio estilo de música, deixando de basear-se unicamente no
trabalho de outros. Porém muitos não consideram deste modo, e
acham que a receita de Arnold desandou francamente em favor dos
sintetizadores e ritmos techno. Contudo é bom frisar que na
aclamada partitura de Tomorrow Never Dies uma das partes mais
celebradas era uma vibrante faixa de ação, "Backseat Driver", onde para
acompanhar uma perseguição de carros Arnold colocou junto à orquestra
uma destacada base de acompanhamento eletrônico e pop, que
concluía com uma gloriosa interpretação do famoso "James Bond Theme", de
Monty Norman, na guitarra - algo similar ao que o próprio Barry
já fizera na trilha de 007 Marcado para a Morte (The Living
Daylights, 1987), sua última colaboração para a série. A respeito da
utilização do "James Bond Theme", constata-se que
nesta trilha se produz um "justo" equilíbrio entre o excesso de
O Amanhã Nunca Morre e a escassez de O
Mundo não é o Bastante. Neste disco Arnold baseia duas de suas
composições em tal tema ("On The Beach" e "Overcraft Chase") e o
incorpora sutilmente dentro de outras composições. Também foi incluída
no CD uma versão do "Tema de James Bond" que nunca foi utilizada no
filme, interpretada por Paul Oakenfold e que se denomina "Bond vs.
Oakenfold". Esta prática já havia sido implementada nas mesmas condições
na trilha sonora de O Amanhã Nunca Morre,
com a versão do mesmo tema interpretada por Moby.
Em ambos os casos teria sido preferível incorporar uma composição da
trilha sonora ao invés de um remix que sequer faz parte do filme.
Com uma análise das faixas principais da partitura de Die
Another Day, constata-se que ela sofre com a virtual impossibilidade
do compositor em valer-se da canção-tema na partitura. A primeira faixa
do score, "On The Beach", inicia com o tema de James Bond sempre
ouvido na abertura, onde o agente dispara contra a tela. Os efeitos de
sintetizadores já nos dão uma pista do que virá a seguir. Em "Hovercraft
Chase" Arnold mais uma vez entrega uma de suas músicas de ação típicas,
onde a orquestra interpreta variações do "James Bond Theme" acompanhada
por uma base eletrônica de ritmo forte e quebrado. "Welcome To Cuba" é
uma conveniente e acústica salsa, com piano e metais. Mas o que
realmente se destaca no score é o tema romântico dedicado à
Bond Girl Jinx, interpretada por Halle Berry. Em "Jinx Jordan" e "Jinx
& James", temos momentos românticos com violinos e flauta nos quais este
tema é apresentado em uma melodia estruturalmente similar ao tema de
Com 007 só se Vive Duas Vezes (You Only Live Twice, 1967),
significativa homenagem à nobre herança musical de Barry. Mas ainda há o
suspense, que surge principalmente em "A Touch of Frost" e "Icarus",
sendo que nesta temos um bom desenvolvimento orquestral e, em destaque,
o coral London Voices interpretando o motivo musical relativo à arma
conhecida como "Projeto Icarus". Logo em seguida voltamos à ação com
metais e eletrônicos, nas movimentadas "Laser Fight" e "Iced Inc.". A
ótima "Antonov", em seus 12 minutos de duração, consegue o melhor
balanceamento do álbum entre a orquestra e o acompanhamento eletrônico,
onde além do destaque da instrumentação acústica, temos a participação
da soprano Natacha Atlas. Outro fator que prejudica o CD desta
trilha sonora é que, a exemplo de casos anteriores, mais da metade do
score está ausente do CD, em favor da versão remix do "James
Bond Theme" de Oakenfold e de uma seção em
CD-Rom que inclui o clipe e um making-of da canção de Madonna.
Segue abaixo uma relação de composições/cenas que
não foram incluídas no álbum:
- A
cena inicial de surfe;
- O acompanhamento de todas as seqüências de Bond em Hong Kong;
- Uma segunda versão de "Welcome to Cuba", que
inclui um breve segmento do "Tema de James Bond";
- A música da batalha da Isla Los Organos (destruição da clínica);
- A luta de Esgrima;
- Bem Vindo à Islândia;
- O ataque virtual às dependências do MI6;
- A introdução do Aston Martin;
- Bond investigando no reduto de Graves;
- Miranda Frost era a traidora;
- Bond busca Jinx;
- Bond salva Jinx;
- A queda do helicóptero (ao final);
- A cena romântica entre Bond e Moneypenny;
- O remix da canção de Madonna durante os créditos finais.
Vê-se que, em contraste com o filme, temos
um disco de James Bond que poderia ser bem melhor - no caso, se tivesse
mais do score e menos material de apelo puramente comercial. Se
isto aponta uma tendência, o mundo musical de 007 entra no século 21
destinado a ficar progressivamente mais empobrecido. É de se esperar que
algum dia possamos ter a trilha completa, como vem ocorrendo com o
relançamento de algumas trilhas mais antigas de Bond em versões
estendidas, que incluem praticamente todas as composições que
permaneciam inéditas em disco. No mais, mantendo o
rumo de O Mundo não é o Bastante, David Arnold vai estabelecendo
seu estilo para Bond, e este trabalho se sustém mais do que
satisfatoriamente, dando ao filme o complemento emocional requerido para
cada seqüência em que a música faz-se necessária. Finalmente, deixamos
assinalado que até agora não surgiu um compositor melhor capacitado que
David Arnold para assumir a música de James Bond. O próprio John Barry o
definiu como seu herdeiro, e acreditamos falar em nome de todos os fãs,
ao dizermos que nosso desejo é a continuidade de David Arnold como
responsável pela música da série.
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