DIE ANOTHER DAY
Música composta por
David Arnold

Selo:
Warner 
Catálogo:
48348
Ano: 2002

Faixas:
1. Die Another Day - Madonna
2. Bond Vs. Oakenfold - (Oakenfold mix)
3. Gun Barrel / On The Beach
4. How Do You Intend To Kill Me Now, Mr. Bond?
5. Hovercraft Chase
6. Kiss Of Life 
7. Peaceful Fountains Of Desire 
8. Welcome To Cuba 
9. Jinx Jordan 
10. Wheelchair Access 
11. Jinx And James

Duração: 54:54
Cotação:


Comentário de
Jorge Saldanha e Hugo Moya Arancibia

 
Quatro décadas e vinte filmes depois, o agente secreto inglês com permissão para matar mostrou ainda ter fôlego para atrair multidões aos cinemas e enfrentar a atual concorrência (Triplo X). 007 - Um Novo Dia para Morrer (Die Another Day, 2002) foi saudado como o melhor James Bond da era Pierce Brosnam, o que comprova que os produtores, ao longo dos anos, têm sabido preservar as características do personagem, ao mesmo tempo em que sutilmente venham adaptando o personagem e suas aventuras às mudanças políticas e de costumes que ocorreram nas últimas quatro décadas. Musicalmente a fórmula segue um padrão similar - canções e score refletem tendências da época da realização, mas nunca distanciando-se em demasia da fórmula que o compositor inglês John Barry desenvolveu até a perfeição. Desde 007 - O Amanhã Nunca Morre (Tomorrow Never Dies, 1997), a voz musical de James Bond é de responsabilidade do também inglês David Arnold, que após a controvertida partitura de Eric Serra para 007 Contra GoldenEye (GoldenEye, 1995), resgatou o estilo de Barry nas partituras da série, revitalizando-as com ritmos contemporâneos e eletrônicos. Neste aspecto, e do mesmo modo que em 007 - O Mundo não é o Bastante (The World is not Enough, 1999), Die Another Day caracteriza-se por, pela primeira vez, um músico distinto de Barry ter composto três trilhas sonoras para a série, e de forma consecutiva. Nesta terceira incursão de Arnold, temos uma trilha com as seguintes características:

1. Existe uma canção principal, "Die Another Day", composta por Madonna, Michel Colombier e Mirwais Ahmadazai e interpretada por Madonna, que acompanha as seqüências de créditos iniciais e finais;
2. A canção principal não é utilizada como padrão para ser utilizada instrumentalmente dentro da trilha sonora, exceto quando ela é ouvida  brevemente na seqüência da recepção no Castelo de Gelo;
3. Durante o filme escutamos bastante o "Tema de James Bond".

Historicamente as canções ouvidas nos créditos de abertura são sempre o destaque musical destes filmes, via de regra elegantes e sensuais. Já a canção "Die Another Day" é tão elegante quanto um canguru, e tão sensual como um lambari. Certamente a escolha deste tema foi feita mais com um critério comercial do que com um sentido estritamente cinematográfico. Ela até inicia promissora com alguns acordes de violino, mas logo surge a voz distorcida de Madonna e uma batida eletrônica seca. Há de se reconhecer que este tema é uma típica canção composta para o estilo da cantora, portanto claramente é uma canção pop, mas que mesmo com esses atenuantes não convence muito. A interpretação de Madonna parece bastante artificial, notando-se em demasia a intervenção do computador, inclusive na distorção da voz da intérprete. Adicionalmente não há uma melodia propriamente dita, apenas a repetição da batida e da letra cantada por Madonna, algo impossível de ser utilizado no score de Arnold. Ou seja, dificilmente esta canção passará à historia como uma das mais destacadas da série, pelo menos em um sentido mais artístico. Porém, ela se encaixa bem nos créditos de abertura, que mostram Bond sendo torturado pelos norte-coreanos, e acabou tornando-se um enorme sucesso de execução em rádios e danceterias. Seguindo com a tendência, novamente a canção-tema não possui qualquer conexão com o argumento do filme, e ao contrário dos cinco anteriores, neste não houve um segundo tema (que habitualmente era utilizado para a seqüência de créditos finais), voltando-se à antiga tradição de usar o mesmo tema para a seqüência de créditos iniciais e finais. A única diferença é que a canção é ouvida nos créditos finais em uma versão remix.

Como já assinalado em outro comentário, a experiência musical de O Amanhã Nunca Morre deixou grandes expectativas a respeito do que Arnold poderia agregar musicalmente à serie. Estas expectativas não foram satisfeitas com a música de O Mundo não é o Bastante, não por ser uma trilha sonora ruim, mas porque Arnold começou a mostrar seu estilo mais pessoal para este tipo de produção, cuja principal característica é a combinação de seções eletrônicas com fragmentos sinfônicos, o que nem sempre resulta muito atraente. A trilha sonora de Um Novo Dia para Morrer claramente vai neste mesmo sentido, o que é bastante lógico se consideramos que cada autor trata de fixar seu próprio estilo de música, deixando de basear-se unicamente no trabalho de outros. Porém muitos não consideram deste modo, e acham que a receita de Arnold desandou francamente em favor dos sintetizadores e ritmos techno. Contudo é bom frisar que na aclamada partitura de Tomorrow Never Dies uma das partes mais celebradas era uma vibrante faixa de ação, "Backseat Driver", onde para acompanhar uma perseguição de carros Arnold colocou junto à orquestra uma destacada base de acompanhamento eletrônico e pop, que concluía com uma gloriosa interpretação do famoso "James Bond Theme", de Monty Norman, na guitarra - algo similar ao que o próprio Barry já fizera na trilha de 007 Marcado para a Morte (The Living Daylights, 1987), sua última colaboração para a série. A respeito da utilização do "James Bond Theme", constata-se que nesta trilha se produz um "justo" equilíbrio entre o excesso de O Amanhã Nunca Morre e a escassez de O Mundo não é o Bastante. Neste disco Arnold baseia duas de suas composições em tal tema ("On The Beach" e "Overcraft Chase") e o incorpora sutilmente dentro de outras composições. Também foi incluída no CD uma versão do "Tema de James Bond" que nunca foi utilizada no filme, interpretada por Paul Oakenfold e que se denomina "Bond vs. Oakenfold". Esta prática já havia sido implementada nas mesmas condições na trilha sonora de O Amanhã Nunca Morre, com a versão do mesmo tema interpretada por Moby. Em ambos os casos teria sido preferível incorporar uma composição da trilha sonora ao invés de um remix que sequer faz parte do filme.

Com uma análise das faixas principais da partitura de Die Another Day, constata-se que ela sofre com a virtual impossibilidade do compositor em valer-se da canção-tema na partitura. A primeira faixa do score, "On The Beach", inicia com o tema de James Bond sempre ouvido na abertura, onde o agente dispara contra a tela. Os efeitos de sintetizadores já nos dão uma pista do que virá a seguir. Em "Hovercraft Chase" Arnold mais uma vez entrega uma de suas músicas de ação típicas, onde a orquestra interpreta variações do "James Bond Theme" acompanhada por uma base eletrônica de ritmo forte e quebrado. "Welcome To Cuba" é uma conveniente e acústica salsa, com piano e metais. Mas o que realmente se destaca no score é o tema romântico dedicado à Bond Girl Jinx, interpretada por Halle Berry. Em "Jinx Jordan" e "Jinx & James", temos momentos românticos com violinos e flauta nos quais este tema é apresentado em uma melodia estruturalmente similar ao tema de Com 007 só se Vive Duas Vezes (You Only Live Twice, 1967), significativa homenagem à nobre herança musical de Barry. Mas ainda há o suspense, que surge principalmente em "A Touch of Frost" e "Icarus", sendo que nesta temos um bom desenvolvimento orquestral e, em destaque, o coral London Voices interpretando o motivo musical relativo à arma conhecida como "Projeto Icarus". Logo em seguida voltamos à ação com metais e eletrônicos, nas movimentadas "Laser Fight" e "Iced Inc.". A ótima "Antonov", em seus 12 minutos de duração, consegue o melhor balanceamento do álbum entre a orquestra e o acompanhamento eletrônico, onde além do destaque da instrumentação acústica, temos a participação da soprano Natacha Atlas. Outro fator que prejudica o CD desta trilha sonora é que, a exemplo de casos anteriores, mais da metade do score está ausente do CD, em favor da versão remix do "James Bond Theme" de Oakenfold e de uma seção em CD-Rom que inclui o clipe e um making-of da canção de Madonna. Segue abaixo uma relação de composições/cenas que não foram incluídas no álbum:

- A cena inicial de surfe;
- O acompanhamento de todas as seqüências de Bond em Hong Kong;
- Uma segunda versão de "Welcome to Cuba", que inclui um breve segmento do "Tema de James Bond";
- A música da batalha da Isla Los Organos (destruição da clínica);
- A luta de Esgrima;
- Bem Vindo à Islândia;
- O ataque virtual às dependências do MI6;
- A introdução do Aston Martin;
- Bond investigando no reduto de Graves;
- Miranda Frost era a traidora;
- Bond busca Jinx;
- Bond salva Jinx;
- A queda do helicóptero (ao final);
- A cena romântica entre Bond e Moneypenny;
- O remix da canção de Madonna durante os créditos finais.

Vê-se que, em contraste com o filme, temos um disco de James Bond que poderia ser bem melhor - no caso, se tivesse mais do score e menos material de apelo puramente comercial. Se isto aponta uma tendência, o mundo musical de 007 entra no século 21 destinado a ficar progressivamente mais empobrecido. É de se esperar que algum dia possamos ter a trilha completa, como vem ocorrendo com o relançamento de algumas trilhas mais antigas de Bond em versões estendidas, que incluem praticamente todas as composições que permaneciam inéditas em disco. No mais, mantendo o rumo de O Mundo não é o Bastante, David Arnold vai estabelecendo seu estilo para Bond, e este trabalho se sustém mais do que satisfatoriamente, dando ao filme o complemento emocional requerido para cada seqüência em que a música faz-se necessária. Finalmente, deixamos assinalado que até agora não surgiu um compositor melhor capacitado que David Arnold para assumir a música de James Bond. O próprio John Barry o definiu como seu herdeiro, e acreditamos falar em nome de todos os fãs, ao dizermos que nosso desejo é a continuidade de David Arnold como responsável pela música da série.

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