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O mito do retorno eterno se ratifica na cinematografia
hollywoodiana para nos lembrar, mais uma vez, que nada se cria
mas tudo se transforma permanentemente… no mesmo. Com nossas
esperanças frustradas, assistimos ao regresso de personagens
como Rocky Balboa ou Superman, sabendo todavia que estes
filmes não terminam com a safra revival, já que os
estúdios ameaçam com um quarto filme de Indiana Jones e mais
um de Rambo, buscando abertamente que os grandes sucessos de
bilheteria da década de 1980 se repitam.
E nessa onda também volta a memorável Die Hard (Duro
de Matar), franquia onde o protagonista é John McClane (Bruce
Willis), aquele policial durão que sempre estava no lugar e na
hora errados, mas que terminava resolvendo, não sem esforço, a
situação favoravelmente. Len Wiseman substitui na direção o
sempre eficiente (mas ineficaz) John McTiernan, para este
quarto filme cujo título original é Live Free or Die Hard,
mas que por aqui o conhecemos pelo título mais saudável de
Duro de Matar 4.0. Nele Mc Clane enfrenta, como sempre,
outro grupo terrorista que quer dominar o grande país do norte
que não é o Canadá.
Adaptada para os tempos que correm, a trama propõe a
existência de um inimigo interno que escolhe o 4 de Julho -
Dia da Independência estadunidense - para atacar, controlando
através dos sistemas de informática, a segurança, as
comunicações, a economia e a infra-estrutura de todo o país, e
para combater a ameaça McClane deverá contar com a ajuda de um
hacker, personagem que na realidade foi criado para as
novas gerações de espectadores que conheceram o policial durão
em vídeo e DVD.
Mas e quanto à música? Mmm… vejamos… o compositor
Marco
Beltrami e o diretor Wiseman já haviam colaborado na pós-produção do falido
Anjos da Noite
- Evolução e, ainda
que este não pudesse ser um bom augúrio, Wiseman decidiu
arriscar e contar mais uma vez com Beltrami para a trilha
sonora, e devemos reconhecer que, ao nos referirmos ao
compositor das interessantes
O Vôo da Fênix e
Hellboy, poderíamos esperar um resultado muito bom.
Como é lógico para qualquer apreciador de scores , é
inevitável e até mesmo imprescindível comparar o trabalho de
Beltrami com o do grande
Michael Kamen (tragicamente falecido
há alguns anos) nos três filmes anteriores. Indubitavelmente
Kamen interpretou à perfeição em suas partituras a tensão
tragicômica e maliciosa da saga
Die Hard, tomando como
ponto de partida o fato de que as duas primeiras partes
transcorriam no Natal. A partir daí – o óbvio contraste de um
ato de violência acontecido precisamente durante a consagrada
Noite de Paz – o talento e a veia cômica do compositor
nova-iorquino se espalhou sobre a ação, apoiando da melhor
maneira possível o tom do personagem interpretado por Willis.
Por sua vez e começando por "Out of Bullets", Beltrami
mantém em 4.0 a inspiração original de Kamen,
utilizando o motivo de quatro notas que caracteriza a saga. A
partir daí, a ação arrebatadora toma seu lugar para não
desaparecer, exceto ao final ("Aftermath"). Este estilo de
score é saudavelmente próprio do compositor, e não copia
os esquemas oportunamente estabelecidos pelo saudoso colega.
Segue, como já dito, uma sucessão de temas vigorosos onde o
compositor apela para diferentes estruturas rítmicas,
utilizando sons sintéticos que parecem ter se convertido numa
marca do autor. Sobre essa premissa, Beltrami constrói uma
série de motivos de ação que se assemelham a um caos
orquestral acompanhado de várias dissonâncias, como em "Traffic
Jam", "Leaving the Apartment" e "It's A Fire Sale".
No filme tudo é possível para McClane: esquivar-se de balas
e sair ileso de um ataque com explosivos, destruir um
helicóptero que lhe dispara mísseis contra-atacando com um
automóvel, ou conduzir um caminhão sobre uma elevada
bombardeada, derrubando ao mesmo tempo o caça que o ataca...
Situações que são apropriadamente acompanhadas pelo conhecido
estilo do compositor nas faixas "The F-35", "Landing", "Hurry
Up!", ou a excelente "Cold Cuts", talvez a melhor de todo o
álbum.
Em que
pesem alguns supostos "erros" que esta trilha sonora tem, e
considerando os acertos que tampouco lhe faltam, Marco
Beltrami mais uma vez demonstra ser um nome obrigatório ao se
falar da boa música de cinema na atualidade e por isso
teremos de estar muito atentos a seus próximos passos, que
sempre serão no sentido de qualificar o entretenimento
cinematográfico. Disso podemos estar certos.
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