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A música para filmes de ficção científica
tradicionalmente se classifica em uma de duas categorias: a primeira usa
instrumentos eletrônicos (exclusivamente ou combinados com a orquestra),
para criar um intenso mas quase frio som que mantém a audiência distante
da ação; a segunda emprega uma orquestra de proporções "wagnerianas",
movimentos arrastados e grandes leitmotifs que levam os
espectadores a uma aventura interestelar. As partituras de John
Williams para Star
Wars estabeleceram o molde para esta segunda categoria, mas
para muitos cinéfilos, especialmente aqueles criados nos anos 1950, é o
primeiro estilo que define o sci fi sound. O Dia em que
a Terra Parou, de
Bernard Herrmann, é o protótipo do primeiro estilo e pode-se dizer
que, de muitos modos, o inaugurou. Um dos primeiros trabalhos de
Herrmann em Hollywood, ele demonstra a sua fascinação por cores tonais
afiadas interpretadas por grupos de instrumentos inovadores.
Para este filme o maestro utilizou um conjunto de três trompetes e
trombones, quatro tubas, um sopro, dois órgãos Hammond, dois pianos,
violino elétrico, violoncelos, contrabaixos, uma bateria de percussão
completa e dois theremins. O theremin (para quem ainda não sabe) é um
pioneiro instrumento eletrônico tocado movendo as mãos em volta de duas
antenas. A localização da mão do músico muda a oscilação do sinal
eletrônico, quase como se ele estivesse manipulando, em um daqueles
rádios antigos, o zumbido ouvido entre as freqüências de duas estações.
O resultado é um som "extraterrestre" que sobe e desce, como uma
fantasmagórica voz humana em tom alto. Na visão de Herrmann, o
instrumento representa os visitantes alienígenas Klaatu e seu robô Gort.
O par de theremins, juntamente com outros instrumentos eletrônicos,
foram geralmente agrupados em contraste com os sons mais tradicionais
dos metais (os quais tocam frases tristes ou fanfarras militares) e
pianos.
O resultado é uma sonoridade "de outro mundo", que simboliza os embates
entre cientistas, militares e visitantes alienígenas. Na música de
abertura, "Prelude and Outer Space," Herrmann inicia em um grande
volume, introduzindo o tema principal com um glissando, seguido
por um tema ascendente dos metais (sombras de "Also Sprach Zarathustra").
Os theremins finalmente entram em cena com sua sonoridade assombrada,
ondulando a melodia antes de que todo o processo seja revertido (com os
theremins ficando em um ponto intermediário). A faixa inicia do modo
como começou, com um grande volume da orquestra mas também com um último
acorde de theremin, indicando o modo como o filme se encerrará.
Este brilhante score, um marco na história da música do cinema,
foi carinhosamente regravado por Joel McNeely para a série Film Score
Classics da Varèse Sarabande, e lançado em 2003 praticamente junto com o
filme em DVD (nos EUA). Esta edição, em relação às gravações originais
da versão cinematográfica editada em CD nos anos 1990 pela Fox,
apresenta como vantagens a qualidade de áudio muito superior e uma
interpretação afinadíssima dos theremins. Mesmo assim as gravações
históricas de Herrmann são indispensáveis, até porque foram utilizadas
pela Fox como música de arquivo nas clássicas séries de Irwin Allen dos
anos 1960 (especialmente em Perdidos no Espaço), e
possuem uma sonoridade impossível de ser reproduzida à exatidão - mesmo
Herrmann, em suas populares regravações de seus trabalhos, não conseguiu
fazê-lo.
Enfim, o que importa mesmo é que, em qualquer versão, o score
de Herrmann (que está a anos luz da trilha que Tyler Bates compôs para a
fraca refilmagem de 2008) é indispensável, não somente por sua
importância histórica mas também pelo puro prazer que sua audição
proporciona. |
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