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Não há dúvida de que qualquer edição de
uma das maiores obras de um dos grandes compositores da Música de
Cinema de todos os tempos deve ser celebrada - e estamos falando
aqui de ninguém menos que
Miklos Rozsa,
que construiu em Hollywood uma histórica carreira iniciada na
segunda metade da década de 1930 e encerrada apenas em 1982. Ao
longo dos anos o compositor húngaro visitou, com sua música, os mais
variados estilos cinematográficos, no entanto é considerado um
mestre especialmente nos gêneros noir e épico. Neste
destaca-se, ao lado de
Ben Hur e
Rei dos Reis, seu não menos monumental score para
El Cid (1961), considerado seu último grande trabalho épico.
Como vocês devem saber, o filme traz no papel título outro egresso
de Ben Hur, o astro Charlton Heston, interpretando o lendário
guerreiro espanhol que defendeu seu país contra os Mouros.
Grandiosa e com fanfarras de metais que transportam ao ouvinte todo
o heróísmo do cavaleiro e de suas façanhas, a trilha sonora de El
Cid é mais um trabalho que resultou de extensa e detalhada
pesquisa musical do compositor, que no filme conseguiu sobreviver à
perda de parte do material gravado e a um trabalho incompetente do
montador de som, que truncou desnecessariamente a partitura. Deve
ser lembrado que todas as edições discográficas até hoje lançadas de
Ben Hur, inclusive a edição original da Sony (posteriormente
reeditado pela Chapter III) com 43 minutos regida pelo próprio Rozsa,
são regravações, uma vez que os rolos com as masters
originais foram perdidos - algo que aconteceu também com os próprios
negativos do filme até que o cineasta Martin Scorsese, décadas
depois, bancou sua restauração. Em 1996 o selo Koch lançou uma
regravação muito boa, com a The New Zealand Symphony Orchestra
regida por James Sedares, que adicionou 20 minutos em relação ao
álbum original mas ainda ficou longe, em termos de interpretação e
duração, dos quase 150 minutos de música compostos por Rozsa. Assim,
mesmo estando bem representada em disco, de certo modo esta era uma
obra que há tempos estava por merecer uma edição que lhe fizesse
justiça.
Coube ao produtor James Fitzpatrick, do selo Tadlow e que já fora
responsável por produzir em 2007 o lançamento da admirável
reconstrução do score mais intimista de Rozsa para The
Private Life of Sherlock Holmes, dedicar-se ao seu projeto de
sonho: lançar a trilha sonora original de El Cid na íntegra,
interpretada por uma orquestra à altura da obra. Para tanto contou
com o regente Nic Raine, que atuou como produtor associado e
coordenou a reconstrução do score com base nas anotações
originais do compositor e nas orquestrações do colaborador de Rozsa
Eugene Zador. O resultado foi um CD triplo lançado em 2008 pela
Tadlow, com dois discos contendo a íntegra da trilha sonora e outro
com composições não utilizadas, versões alternativas de algumas
peças e e uma suíte de Double Indemnity. Finalmente agora o
selo Silva Screen, que distribuíra a edição da Tadlow, a relança em
um CD duplo contendo o que realmente interessa - toda a partitura de
El Cid, como originalmente concebida por Miklos Rozsa.
Contando com uma interpretação superior dos 91 instrumentos da
massiva City of Prague Philharmonic Orchestra e grande
coral, regida por Raine, a nova regravação busca aproximar-se da
versão ouvida no filme, com a vantagem da captação digital do som
ter resultado numa excelente fidelidade sonora. Mesmo possuindo as
versões anteriores deste score em disco, não pude deixar de
me impressionar com sua força e energia nesta edição, realçadas pelo
material adicional e a primorosa performance da orquestra. Apesar de
criado em 1961, temos então um trabalho à altura dos melhores da Era
de Ouro do Cinema, com um belíssimo tema de amor dedicado a Rodrigo
e sua amada Chimene (que tem uma de suas melhores versões em “The
Barn – Love Theme”), que transborda um romantismo hoje raramente
ouvido, e um heróico esplendor orquestral que retumba nos metais e
percussões de faixas como “The Siege of Valencia”. Também, como em
Ben Hur, Rozsa imbui sua música com uma intensa e melodiosa
religiosidade, como ouvimos em “The Legend and Epilogue”, que marca
o triunfo do herói sobre a morte e onde se destacam o inesquecível
solo de órgão e o trabalho do coral.
Mas já estamos falando do final de um álbum que, desde seu início
com “Overture”, nos maravilha com sua heroica e aventureira
grandeza. “Prelude” introduz o já citado tema de amor, numa
interpretação grandiosa, que indiscutivelmente traz uma das mais
refinadas melodias da lavra de Rozsa. Em uma partitura deste
gabarito fica difícil achar destaques, mas “The Fight For Calahorra”,
desde a primeira vez que a ouvi, é uma de suas músicas mais
empolgantes, com uma execução complexa que traduz a nobreza e a
valentia dos combatentes. Seguindo essa linha grandiosa-heróica
outras das minhas prediletas são “The Road To Asturias / Thirteen
Knights” e “For God And Spain” / ”Battle Of Valencia”. “Entracte:
The El Cid March”, composta para ser a transição entre a primeira e
a segunda metades do filme, é outro primoroso exemplo da exaltação à
coragem e nobreza, e outra das composições desta trilha sonora que
passaram para a história. “Battle Preparations / Starvation /
Revolt” é outra das minhas preferidas, trazendo uma assinatura
musical ouvida em outras partituras de Rozsa, como Ben Hur e
A Nova
Viagem de Simbad - mas que aqui soa mais ameaçadora,
antevendo as agruras e sombras da batalha que se aproxima.
Esta magnífica regravação de El Cid, complementada por um
encarte contendo notas de Martin Scorsese e da filha de Rozsa,
Juliet, é indispensável a todo colecionador sério da Música do
Cinema, seja pelas qualidades intrínsecas da composição de Miklos
Rozsa, seja pela excelência de sua interpretação e qualidade sonora.
É um verdadeiro tributo ao compositor, e sob este aspecto
Fitzpatrick e todos os que colaboraram no projeto não poderiam ter
sido mais bem sucedidos. Da minha parte, que tenho Miklos Rozsa
entre meus cinco compositores favoritos de todos os tempos, só tenho
a agradecer por este magnífico lançamento.
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