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Parece-me
seguro dizer que este trabalho de
John Williams foi a
partitura para cinema mais esperada de 2002. A música para o
Episódio I da saga encontrou o caminho para o coração de muitos
fãs do compositor, enquanto outros eram críticos por não terem uma
partitura exatamente com o mesmo som da trilogia original. Os anos
pesaram sobre John Williams, o compositor Jedi, e apraz-me dizer que o
fizeram favoravelmente. A música de Williams amadureceu nas mais de duas
décadas que separaram o início disto tudo e o Episódio I,
diminuindo a distância entre os vocabulários que Williams usa no cinema
e nas salas de concerto. Nesse sentido The Phantom Menace
esteve muito mais próximo da alma de Williams, do que provavelmente a
música da trilogia original. De certa forma Attack of the Clones
continua esse caminho. Mas enquanto o novo material temático continua
próximo daquilo a que então chamamos de estilo maduro de Williams, o
resto do álbum está recheado de todos os floreados e fogos de artificio
orquestrais tão queridos pelos admiradores da trilogia original.
Inevitavelmente o álbum começa com a brilhante fanfarra de Star
Wars, numa interpretação com ênfase para a percussão (por
qualquer razão obscura, esta é exatamente a mesma gravação que ouvimos
em The Phantom Menace!). Vários dos temas, hoje
célebres, da trilogia original regressam, como é o caso do "Yoda's Theme"
e o quase religioso "Force Theme" (muito associado a "Ben" Obi-Wan
Kenobi), este último surgindo sempre com grande força dramática. Mas o
regresso de maior importância é a grandiosa (e extraordinariamente
malévola) "Imperial March", o célebre tema para Darth Vader, que surge
no final da partitura com toda a carga visceral apropriada - embora o
seu uso no contexto do filme seja discutível. Williams compôs uma outra
passagem para o finale, mas Lucas insistiu no uso da "Imperial
March", que o compositor tencionava apenas apresentar na sua total
glória, quando da transformação de Anakin em Darth Vader.
Temas de The Phantom Menace também regressam,
nomeadamente o delicado "Anakin's Theme", que conforme recente
entrevista do compositor, é muito mais explorado (embora ao ouvir o CD,
não se note, e na montagem final do filme, também não). "Duel of the
Fates" regressa, assim como o tema para a Trade Federation e a música
associada com Coruscant e Naboo - embora estes últimos sejam usados em
várias situações não forçosamente associadas aos mencionados planetas.
Sabemos também que o tema do Imperador/Senador Palpatine é usado no
filme, mas não o ouvimos no CD. Mas o coração deste novo trabalho é "Across
the Stars", o primeiro verdadeiro love theme em toda a saga. Na
trilogia original, o mais parecido com um tema romântico que tínhamos
era o tema associado à Princesa Leia e às suas relações não
necessariamente amorosas. Este é um grande tema romântico, cheio de
dramatismo, que convêm simultaneamente à idéia de um grande romance e do
destino terrível que espera estes dois amantes (afinal, Anakin vai
transformar-se no grande emissário do lado negro da Força). A dimensão
emocional deste tema é avassaladora. Pensem num grande épico romântico
como Doctor Zhivago, e ficarão com uma ideia da
verdadeira dimensão desta nova composição de Williams. Provavelmente não
será uma coincidência o fato deste tema fazer lembrar a música épica de
Maurice Jarre para os
filmes de David Lean. Williams usa uma longa linha melódica como base
para a sua composição, de forma não diferente da de Jarre. Ao meio da
peça, metais entoam, quase como se se tratasse de um pesadelo que tenta
violar o mais desejado dos sonhos, o tema de "Duel of the Fates"; mas o
tema regressa, e a peça termina de forma delicada com um solo na harpa.
Quanto a material temático há um segundo motivo romântico e outro
aparentemente associado à Trade Federation - mais um tema que recorda o
"Belly of the Steel Beast" de Indiana Jones and the Last Crusade.
É também curioso ver que os temas acima mencionados surgem apenas de
forma fugaz: o de Yoda é ouvido uma única vez, assim como o da Trade
Federation e o "Duel of the Fates". A música para Coruscant tem alguma
predominância, mas é apenas uma fanfarra, perdida no meio de tantas
outras. Os dois únicos temas que realmente dominam a música tal como
ouvida no CD são o novo "Across the Stars" e o tema da Força, que de
resto, surgem diversas vezes juntos (sugerindo magistralmente a
dualidade entre os sentimentos de Anakin e as obrigações que lhe são
inerentes enquanto Cavaleiro Jedi - não sentirás medo, nem amarás, nem
odiarás). E mesmo assim, o surgimento destes temas é uma parte pequena
da duração do CD. A ausência mais notória no corpo da partitura (no que
respeita ao CD) é a fanfarra de Star Wars. Apenas a
ouvimos no "Main Title" e no finale... mas este não seria um
filme da saga sem estas aparições já obrigatórias. Attack of the
Clones é muito mais motívico do que temático: Os temas tem
estas aparições fugazes e quase todas as faixas tem os seus próprios
temas, ou melhor ainda, motivos musicais. Esse torna-se o problema do CD
- a audição fica mais cansativa, quase todas a faixas surgem como se
tratasse de música de cena, e em muitos casos o ouvinte cansa-se de
esperar por um dos seus temas preferidos. Eles eventualmente surgem... e
quando surgem, a espera justifica-se. Se por um lado a fraqueza do álbum
está na falta de unidade temática entre as faixas, por outro, quando
surge uma apresentação de um tema mais familiar, sentimo-nos totalmente
recompensados. E isso porque Williams, digam o que disserem, continua a
ser um mestre na interpolação do material temático com o restante,
adequado a cada cena. Isso acontece logo em "Across The Stars", com os
ecos de "Duel of the Fates" nos metais, ecos que vem não da melodia
principal do tema do filme anterior, mas da sua estrutura.
"Yoda and The Younglings" inclui naturalmente o tema do mestre Jedi, mas
também uma brilhante variação sobre o tema da Força. "Bounty Hunter's
Pursuit", uma das melhores faixas, inclui um novo motivo que sugere a
urgência da cena que musica, e depois de uma passagem atmosférica e
misteriosa, um crescendo leva-nos para uma brilhante apresentação do
tema da Trade Federation. O novo tema, dentro do gênero do da Trade
Federation (e de "The Belly of The Steel Beast" em Indiana Jones
and The Last Crusade) surge em "Love Pledge and the Arena",
justapondo música de ação com o delicado "Across the Stars". Muitas
outras faixas limitam-se a apresentar os seus próprios temas, como em "Zam
The Assassin and The Chase Through Coruscant", a mais longa do álbum,
com grande ênfase para a percussão, e com fanfarras para os metais. É
curioso ouvir por algumas vezes no decorrer desta faixa o surgimento de
uma guitarra elétrica. Curiosamente, apesar de a música se referir à
ação passada em Coruscant, a mim faz-me lembrar a música para Tatooine
em Star Wars. "Return to Tatooine" é aquilo que todos
esperaram até a faixa 10... ouvir finalmente a música do lado negro!
Depois de uma variação sobre o tema da Força, cheio de dramatismo e
idêntico no arranjo ao "Binary Sunset" de Episode IV,
quando este parece ir subir de tom, eis que Williams faz encaixar um
arranjo de "Duel of the Fates". A partir daqui o território é muito mais
familiar. "The Tusken Camp and Homestead" começa com material
reminescente da música de Star Wars para o planeta
natal de Anakin, mas o grande momento desta faixa é quando ouvimos pela
primeira vez, quase como uma memória distante, a "Imperial March",
apresentada suavemente, e no entanto ameaçadora (enquanto vislumbramos
também a raiva e o ódio que assombram Anakin).
Love Pledge and the Arena" continua o clima das faixas anteriores e o
grande final chega em "Confrontation with Count Dooku and Finale". Uma
primeira apresentação nervosa nas cordas do tema da força leva-nos para
música para voz, muito como a de A.I. - Artificial Intelligence.
Esta composição é misteriosa e sombria, enquanto musica o encontro entre
Dooku e o Mestre Sith/Palpatine. E quando a música parece encaminhar-se
novamente para o tema da Força, como acontecia em "Return To Tatooine",
Williams desvia-nos, mas desta vez em vez de "Duel of the Fates",
ouvimos uma versão totalmente realizada da "Imperial March". Este é o
grande momento do álbum (embora como já mencionado, o seu uso é
discutível no filme). Esta marcha é provavelmente o grande tema de toda
a saga, e ouvi-lo pela primeira vez na nova trilogia com toda esta força
é uma experiência única. Williams demonstra novamente as suas grandes
capacidades enquanto orquestrador ao criar estas transições. Segue-se
uma dramática apresentação do love theme e seguimos para a
habitual suíte dos créditos finais, dominada quase totalmente por "Across
the Stars" e terminando com uma breve citação do tema de Anakin e da
"Imperial March". Mas desta vez, ao contrário do eco distante em
The Phantom Menace, o tema de Darth Vader surge com um tom
muito mais confiante, e sabemos, musicalmente falando, qual o destino do
jovem Anakin. Toda esta sequência final será aquela que nos faz sentir
realmente que estamos a ouvir a música de um filme da saga Star
Wars. Há os temas já conhecidos, e grande parte da música é
algo reminescente da música de batalha dos filmes anteriores.
Possivelmente parte da música vai soar familiar, mas não dentro do
contexto da saga: há passagens corais que recordam a música de
Hook, um dos arranjos do love theme, em "Anakin and
Padme" faz lembrar o recente Harry Potter, e algumas
passagens com um som mais oriental remetem-nos para Seven Years
in Tibet. No entanto a música é fresca e há clara invenção
melódica... ou como diria
Bernard Herrmann,
como não há de ser parecido, se foi escrito pela mesma pessoa! O grande
problema é que os temas isolados não tem a força de um "Asteroid Field",
de um "Throne Room" ou mesmo "Parade of the Ewoks"... ou ainda da "Flag
Parade" ou "The Forest Battle".
Note-se que esta é música de alta qualidade... Williams não nos
desilude, mas é também aquilo que se pode chamar de Mickey Mousing...
segue a ação de uma forma demasiado literal. No final é música de fundo.
Os novos temas não ficam na memória como as set pieces dos
outros filmes, o que é pena, penalizados pela qualidade motívica do
material utilizado. As idéias musicais que servem de base para a
construção das várias faixas são demasiado pequenas para deixarem uma
marca impressa na nossa mente como as passagens dos filmes anteriores. O
mais interessante do CD fica nas cores orquestrais que Williams emprega,
e no cada vez mais proeminente uso de percussão exótica. Ainda assim
ficamos com uma competente imagem musical de mais um capítulo na
odisséia de George Lucas, mas que não consegue atingir o estatuto dos
seus antecessores, pelo menos na sua presente forma. Os fãs mais
ferrenhos de Williams poderão não concordar, e a culpa poderá não ser do
compositor, mas a ausência de mais referências ao material já conhecido
acabou por limitar a musicalidade do álbum. Por isso mesmo a parte final
se torna a mais satisfatória. Este é mais um trabalho de grande
interesse, que eventualmente o tempo nos ajudará a destilar melhor, mas
que é acima de tudo música para cinema, feita para servir ao filme. Hoje
tenho as minhas dúvidas quanto à sua capacidade para sobreviver como os
seus antecessores, com a clara exceção do maravilhoso "Across the
Stars". Não deixo por isso de recomendar a aquisição... se a avaliação
soa negativa é por comparação com aquilo que são alguns dos melhores
trabalhos que o cinema já ouviu. No final, Williams continua a ser um
mestre, e mesmo que se ache que não acertou em cheio, esta é mais uma
partitura digna de se ouvir e acarinhar. |