ERAGON
Música composta por Patrick Doyle

Selo: RCA Records
Catálogo: 704850
Lançamento: 2006
Faixas

1. Eragon
2. Roran Leaves
3. Saphira's First Flight
4. Ra'zac
5. Burning Farm
6. Fortune Teller
7. If You Were Flying
8. Brom's Story
9. Durza
10. Passing The Flame
11. Battle for Varden
12. Together
13. Saphira Returns
14. Legend of Eragon
15. Keep Holding On (Avril Lavigne)

16. One In Every Lifetime (Jem)

Duração: 55:10
Cotação:


Comentário de
José-Vidal Rodriguez

 

Patrick Doyle, um dos músicos com estilo mais pessoal da última década para este que escreve, alcançou em 2005 o patamar mais alto em sua carreira comercial, com seu excelente trabalho substituindo o mestre John Williams no quarto título da saga Harry Potter. Desta forma, aquele compositor associado normalmente a películas de caráter mais introspectivo e de menor alcance comercial, conseguia colocar-se na primeira linha do panorama musical americano, graças a um filme e um score que sem dúvida cativaram a maior parte dos espectadores.

Esta “mutação” de Doyle, mais inclinado e solicitado para trabalhar nas grandes produções hollywoodianas, parece trazer consigo o inevitável lastro que neste Eragon acaba por se evidenciar com meridiana claridade: a perda de personalidade de sua música, em favor dessa aproximação com as sonoridades convencionais e estéticas tão requeridas ultimamente pela indústria americana. Mesmo que Doyle nunca tenha sido alheio a incursões mais ou menos ambiciosas no cinema americano, normalmente as mesmas o eram para um tipo de filme em que seu ”British touch” se ajustava como uma luva, sem necessidade de recorrer a velhos clichês ou a um tipo de música despersonalizada que acarretasse a perda de identidade estilística (olhemos obras tão afortunadas como Carlito´s Way ou Great Expectations).

Mas seguindo com a introdução desta resenha, parecia óbvio que após seu imponente trabalho em Harry Potter and the Gobblet of Fire, o nome de Doyle iria ser muito considerado para futuras produções de maior envergadura comercial. E efetivamente, um ano depois, o escocês traz um de seus scores mais ambiciosos de sua carreira, ao menos no que se refere ao emprego de largos recursos. Baseada na trilogia de livros escritos pelo jovem Christopher Paolini (21 anos em 2006), o filme narra as aventuras de um jovem camponês de 17 anos, cuja vida simples se transformará em um mundo de perigos, magia e fantasia ao encontrar por acaso o ovo do qual sairá o dragão-fêmea Saphira, que será sua audaz aliada na luta contra as forças do Mal que assolam seu Reino.

Com Eragon, Doyle adentra sem hesitar em outra dessas produções de fácil consumo que povoam os períodos natalinos, evidenciando que, acima de tudo, deseja manter-se como músico de primeira ordem, ainda que ao custo de renunciar a seu tradicional tino na hora de escolher e entregar trabalhos (algo com que busca evitar o ostracismo que atinge atualmente alguns de seus colegas contemporâneos). As luzes e sombras da partitura podem ser resumidas basicamente nas seguintes características: a redescoberta do Patrick Doyle tremendamente espetacular e grandiloqüente, aquele que escutamos por exemplo em alguns fragmentos do Cálice de Fogo de Harry Potter, e o irregular rendimento que oferece em certas seções musicais incomuns em sua filmografia, como aquelas composições de ar debochado e agressivo, plenos de aparato percussivo, melódica e ritmicamente próximos a essa muito conhecida companhia de músicos que vem à mente de todos, ouvindo faixas como “Burning Farm”, “Fortune Teller” ou “Battle for Varden”. Por isso, é justo ressaltar como as desconcertantes modas que imperam hoje em Hollywood – seja via temp tracks ou por indicações expressas - podem provocar a perda de personalidade musical tão óbvia como a experimentada aqui por Patrick.

O álbum, incluindo apenas 45 minutos de música incidental, inicia com um tema central de evidentes toques épicos e preciosistas (“Eragon”), com o qual Doyle trata de refletir com vigor esse novo mundo de fantasia que se apresenta ao adolescente protagonista. Deste modo, o autor se agarra a orquestrações exaltadas - por momentos algo desproporcionais - que trazem uma frase principal melodicamente agradável e direta, imbuída da justa proporção de heroísmo e indubitável efeito retentivo; mas no fundo afastada do que de melhor compôs Doyle, em que pese sua colorida apresentação.

O compositor, que quase sempre se caracterizou pela riqueza temática de seus scores, se apresenta agora com umas idéias mundanas, em prol do espetáculo dos meios, da reiteração melódica e, definitivamente, em detrimento daquela variedade cromática que oferecia em encargos bem menos pretensiosos. De fato, se um defeito se destaca sobremaneira neste Eragon - em parte graças à seleção de temas realizada pela RCA -, é o uso excessivo do citado tema central. A quantidade de música escutada no filme, muito superior à do CD, dissimula, aos ouvidos do espectador, essa ofuscação temática, mas o álbum se estrutura de tal forma que aquele main theme parece ser a única idéia com que o compositor inicia, desenvolve e conclui o score, tornando-o um poço de monotonia que acaba por diminuir uma partitura de estimulante prólogo, mas de resolução mais do que previsível.

Apesar de tudo, a qualidade e o profissionalismo que sobram em Doyle se destacam em momentos pontuais da obra. Não há dúvida que o trabalho apresenta uma força incontestável, e ainda que se notem as imposições e trocas de registro (precisamente, as que marcam a falta de originalidade do score), sua elegância e refinamento estão presentes em faixas como “Passing The Flame”, ou mesmo nas enésimas interpretações do tema principal presentes em “If You Were Flying” ou em “Saphira Returns”. Motivo central, por certo, cuja segunda frase constitui a base melódica da canção final “One In Every Time”, interpretada pela solista Jem (que com sua onírica voz, relembra levemente a algumas daquelas sintonias vocais criadas para a trilogia de O Senhor dos Anéis.

Assim, um sabor agridoce vem das entranhas musicais deste Eragon. Trabalho interessante, excelso em sua grandiloqüência e de indiscutível eficiência no que refere à temática do filme, mas ao mesmo tempo artificial, previsível e de marcado caráter repetitivo. Pondo numa balança seus “prós” e “contras”, a partitura se mantém dentro dos cânones da correção, resultando ao menos um respeitável exercício de música épica com determinados instantes de grata apreciação, que no atual panorama já significa muito. Circunstância esta que não é obstáculo para reconhecer que a obra se afasta do virtuosismo de um músico que, até agora, soube escolher muito bem seus encargos para evitar limitações ao estilo tão pessoal e atraente que sempre lhe caracterizou.

Por isso, a nós aficionados que apreciam o Doyle - se me permitem a expressão -, mais “europeu”, tão somente nos resta esperar que o escocês não entre totalmente na voragem do cinema sem substância de Hollywood, sob o risco de colocar em perigo a que para muitos era uma das grandes referências musicais nos últimos anos.

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