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A infância
de cada um de nós guarda momentos mágicos e únicos, que se tornam uma
memória que irá marcar toda a nossa vida. Para uns pode ser o primeiro
beijo, ainda cheio de inocência... para outros, um gesto simpático de um
colega de escola... a lista é interminável. Há um número quase infinito
de coisas que nos podem tocar em nossa infância, e que sempre nos
acompanharão. Para mim, um desses momentos aconteceu numa tarde do
outono de 1982. Passados vinte anos, ainda consigo recordar com grande
precisão o meu coração a bater descompassadamente enquanto a música nos
levava a voar numa bicicleta sobre a lua! E tudo por causa de um homem e
da sua música, tão inocente como o sentimento de uma criança que
encontra um novo amigo. Não pondo de lado as enormes capacidades de
Steven Spielberg, de todos os atores, de artistas e técnicos, este filme
existe tal como o conhecemos pela muito simples razão de que
John Williams compôs
sua música.
Mais que Star Wars, mais que Superman, mais que os filmes
de Indiana Jones, E.T. é o filme de John Williams. A
partitura tem o necessário material temático: um tema para E.T. e os
seus poderes (o mais que famoso "Flying Theme" - introduzido de forma
extraordinária em "E.T. Powers", sugerindo temor e maravilha ao mesmo
tempo), outro para a sua demanda (anteriormente disponível na sua versão
de concerto em "Over the Moon"), muito mais ouvido durante o filme, e
por fim um pequeno motivo que acompanha toda a aventura, e que abre a
partitura, num delicado solo para picollo. A relação entre o
pequeno Eliott e E.T. recebe também um delicado tema que vai sendo
apresentado de forma discreta durante as primeiras faixas, até que o
ouvimos na harpa em "The Beginning of a Friendship". Um tema ameaçador
para as forças da ordem é ouvido na segunda parte de "Far From Home/E.T.
Alone", surgindo primeiro nos metais; cheio de violência no decorrer da
partitura vai-se diluindo e passando por muitos outros instrumentos, à
medida que descobrimos que o misterioso Keys (o sempre
excepcional Pete Coyote) está também a procurar o seu sonho de infância.
Surge algum material adicional, logo no início, quando E.T. percorre a
floresta. Ouvimos música nas cordas, com um tom quase religioso, que nos
faz sentir dentro de uma catedral (a imagem das enormes árvores a
subirem em direção ao céu estrelado, como se fossem colunas) - mais
tarde voltamos a ouvir este curto trecho novamente associado com a
floresta. Há o delicioso tema associado aos sapos da aula de Eliott, e
claro o inesquecível auto-plágio, ao surgir o "Yoda's Theme" em "The
Magic of Halloween". Há, ainda, os misteriosos e atmosféricos "Main
Titles", que vêem aqui a sua primeira edição, e que nos deixam na
'escuridão' durante os créditos iniciais. A forma como Williams
arquiteta todos estes temas e os transforma num todo orgânico é um
mistério. Mas fá-lo de forma única. E a sua música conta a história
sozinha, sem ajuda das imagens. Este trabalho é uma das suas grandes
obras-primas... não só na sua carreira, mas na história da música para
cinema, é um marco incontornável! Basta ouvir o grand finale "Adventures
on Earth" (agora chamado "Escape/Chase/Saying Goodbye", faixa 20). Magia
pura!
E como compete a presente edição com as anteriores? Em qualquer análise,
há que lembrar que o original (LP de 1982, CD de 1985), era um álbum de
40 minutos, pensado para ser apreciado apenas como música. Não há uma
preocupação de contar uma história, mas antes de criar um ambiente
musical que reflete o do filme. A maior parte das faixas eram versões de
concerto, e a experiência auditiva, do ponto de vista musical, é única!
A orquestra de estúdio respondeu da melhor forma possível à partitura, e
deixa ficar aqui uma das melhores interpretações que já ouvi made in
Hollywood. Mesmo a qualidade sonora é bastante boa. Claro que,
sonicamente, esta edição é assombrosa. Parece ter sido gravada ontem,
não há vinte anos! E se tivermos à nossa disposição um equipamento
state of art, parece que estamos no estúdio, junto com Williams. Mas
a coerência musical perdeu-se. Claro que ganhamos momentos que muitos
sonharam desde 1982, e que a presente moda de edições expandidas veio
resolver. Mesmo nesse aspecto este não é o álbum definitivo. Não o é
também porque continua a faltar música, mais notoriamente a da cena do
beijo, com uma breve citação de um tema de Richard Farrely (usado por
Victor Young em The Quiet Man). E vários dos temas nem sequer são
as versões usadas no filme.
Em relação à edição de
1996, apenas adiciona três faixas, outras são versões alternativas
(como em "End Credits": em 1996 era a versão ouvida no filme, desta vez
é uma outra), e melhora o som. Num veredicto final, esta edição é
destinada: a) aos colecionadores de Williams; b) para quem ainda não tem
este trabalho de Williams ou apenas a edição original. Para termos a
edição definitiva de E.T. The Extra-Terrestrial, que contenha a
edição de 1982 e a atual, teremos de continuar à espera. Entretanto,
escolha a edição expandida que lhe agradar mais, e procure por toda a
parte a edição original, infelizmente já fora de catálogo. E acredite
que vale a pena o esforço. Esta é música para sonhar, e para nos fazer
voar "Over the Moon", para nos fazer ter medo, mas também para nos
maravilharmos. E isto tudo por causa de um simpático extraterrestre
botânico... ou talvez não. Talvez seja como Spielberg escreveu em 1982:
"John Williams is E.T." |