E.T. The Extra-Terrestrial - The 20th Anniversary Edition
Música composta e regida por John Williams

Selo:
MCA/Universal Records
Catálogo:
112 819-2
Ano: 2002

21 Faixas

Duração: 75:39
Cotação:


Comentário de
Miguel Andrade

 

A infância de cada um de nós guarda momentos mágicos e únicos, que se tornam uma memória que irá marcar toda a nossa vida. Para uns pode ser o primeiro beijo, ainda cheio de inocência... para outros, um gesto simpático de um colega de escola... a lista é interminável. Há um número quase infinito de coisas que nos podem tocar em nossa infância, e que sempre nos acompanharão. Para mim, um desses momentos aconteceu numa tarde do outono de 1982. Passados vinte anos, ainda consigo recordar com grande precisão o meu coração a bater descompassadamente enquanto a música nos levava a voar numa bicicleta sobre a lua! E tudo por causa de um homem e da sua música, tão inocente como o sentimento de uma criança que encontra um novo amigo. Não pondo de lado as enormes capacidades de Steven Spielberg, de todos os atores, de artistas e técnicos, este filme existe tal como o conhecemos pela muito simples razão de que John Williams compôs sua música.

Mais que Star Wars, mais que Superman, mais que os filmes de Indiana Jones, E.T.  é o filme de John Williams. A partitura tem o necessário material temático: um tema para E.T. e os seus poderes (o mais que famoso "Flying Theme" - introduzido de forma extraordinária em "E.T. Powers", sugerindo temor e maravilha ao mesmo tempo), outro para a sua demanda (anteriormente disponível na sua versão de concerto em "Over the Moon"), muito mais ouvido durante o filme, e por fim um pequeno motivo que acompanha toda a aventura, e que abre a partitura, num delicado solo para picollo. A relação entre o pequeno Eliott e E.T. recebe também um delicado tema que vai sendo apresentado de forma discreta durante as primeiras faixas, até que o ouvimos na harpa em "The Beginning of a Friendship". Um tema ameaçador para as forças da ordem é ouvido na segunda parte de "Far From Home/E.T. Alone", surgindo primeiro nos metais; cheio de violência no decorrer da partitura vai-se diluindo e passando por muitos outros instrumentos, à medida que descobrimos que o misterioso Keys (o sempre excepcional Pete Coyote) está também a procurar o seu sonho de infância.

Surge algum material adicional, logo no início, quando E.T. percorre a floresta. Ouvimos música nas cordas, com um tom quase religioso, que nos faz sentir dentro de uma catedral (a imagem das enormes árvores a subirem em direção ao céu estrelado, como se fossem colunas) - mais tarde voltamos a ouvir este curto trecho novamente associado com a floresta. Há o delicioso tema associado aos sapos da aula de Eliott, e claro o inesquecível auto-plágio, ao surgir o "Yoda's Theme" em "The Magic of Halloween". Há, ainda, os misteriosos e atmosféricos "Main Titles", que vêem aqui a sua primeira edição, e que nos deixam na 'escuridão' durante os créditos iniciais. A forma como Williams arquiteta todos estes temas e os transforma num todo orgânico é um mistério. Mas fá-lo de forma única. E a sua música conta a história sozinha, sem ajuda das imagens. Este trabalho é uma das suas grandes obras-primas... não só na sua carreira, mas na história da música para cinema, é um marco incontornável! Basta ouvir o grand finale "Adventures on Earth" (agora chamado "Escape/Chase/Saying Goodbye", faixa 20). Magia pura!

E como compete a presente edição com as anteriores? Em qualquer análise, há que lembrar que o original (LP de 1982, CD de 1985), era um álbum de 40 minutos, pensado para ser apreciado apenas como música. Não há uma preocupação de contar uma história, mas antes de criar um ambiente musical que reflete o do filme. A maior parte das faixas eram versões de concerto, e a experiência auditiva, do ponto de vista musical, é única! A orquestra de estúdio respondeu da melhor forma possível à partitura, e deixa ficar aqui uma das melhores interpretações que já ouvi made in Hollywood. Mesmo a qualidade sonora é bastante boa. Claro que, sonicamente, esta edição é assombrosa. Parece ter sido gravada ontem, não há vinte anos! E se tivermos à nossa disposição um equipamento state of art, parece que estamos no estúdio, junto com Williams. Mas a coerência musical perdeu-se. Claro que ganhamos momentos que muitos sonharam desde 1982, e que a presente moda de edições expandidas veio resolver. Mesmo nesse aspecto este não é o álbum definitivo. Não o é também porque continua a faltar música, mais notoriamente a da cena do beijo, com uma breve citação de um tema de Richard Farrely (usado por Victor Young em The Quiet Man). E vários dos temas nem sequer são as versões usadas no filme.

Em relação à edição de 1996, apenas adiciona três faixas, outras são versões alternativas (como em "End Credits": em 1996 era a versão ouvida no filme, desta vez é uma outra), e melhora o som. Num veredicto final, esta edição é destinada: a) aos colecionadores de Williams; b) para quem ainda não tem este trabalho de Williams ou apenas a edição original. Para termos a edição definitiva de E.T. The Extra-Terrestrial, que contenha a edição de 1982 e a atual, teremos de continuar à espera. Entretanto, escolha a edição expandida que lhe agradar mais, e procure por toda a parte a edição original, infelizmente já fora de catálogo. E acredite que vale a pena o esforço. Esta é música para sonhar, e para nos fazer voar "Over the Moon", para nos fazer ter medo, mas também para nos maravilharmos. E isto tudo por causa de um simpático extraterrestre botânico... ou talvez não. Talvez seja como Spielberg escreveu em 1982: "John Williams is E.T."

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