FITZWILLY / THE LONG GOODBYE
Música composta e regida por
John Williams

Selo:
Varèse Sarabande
Catálogo:
VCL 0804 1030 2
Ano: 2004

Faixas:
FITZWILLY
1. Main Title/Overture (3:55) 
2. Make Me Rainbows* (Instrumental) (3:07) 
3. Fitzwilly’s Date (3:39) 
4. Lefty Louie's Love Life (2:47) 
5. The Gimbel’s Robbery (3:52) 
6. Make Me Rainbows* (Vocal) (3:03) 
7. The Xerox Crisis (1:24) 
8. Sampson and Delilah (2:19) 
9. More Theft (2:27) 
10. Juliet’s Discovery (2:14) 
11. End Title (2:06)
THE LONG GOODBYE
12. Performed by Dave Grusin Trio (4:27) 
13. Performed by Dave Grusin Trio† (Vocal) (3:04) 
14. Performed by Jack Sheldon† (3:28) 
15. The Long Goodbye† (Vocal) (4:30) 
16. Trio Version (2:27) 
17. Trumpet Version (2:02) 
18. Mario in Mexico (3:34)

Duração: 54:35
Cotação:


Comentário de
Miguel Andrade

 

Quando se olha para as edições dedicadas à música de John Williams, incluídas no rejuvenescido clube da Varèse Sarabande, não se pode deixar de verificar que em geral estes trabalhos ainda são fáceis de encontrar em encarnações anteriores (The Fury, Home Alone 2) ou estão longe de ser dos itens mais procurados pelos colecionadores (Heartbeeps). É certo que qualquer umas destas edições mantêm os seus méritos, mas com tantas outras partituras a necessitar deste tipo de tratamento, as escolhas podem não parecer as melhores... De certa forma esse é o claro caso de Fitzwilly, parte da mais recente leva de edições deste clube. Enquanto ainda é fácil encontrar, mesmo em lojas on-line com a Amazon, a edição da Tsunami Records (independente das questões legais ligadas a este selo alemão), a Varèse Sarabande lança uma nova edição, identificada como a primeira em CD, mas que se limita a duplicar a edição original em LP -- e a da Tsunami Records também.

Os puristas do áudio dirão que o som está mais bem restaurado, mas depois de lançamentos que são apesar de tudo, modelos de como uma reedição devia ser (The Fury e Home Alone 2), e sabendo que parte das faixas do LP são alternates e muito mais música deste filme se mantém indisponível, o selo norte-americano perdeu aqui uma oportunidade de ouro de fazer justiça a um dos primeiros grandes sucesso do então Johnny Williams. Mas quanto à música que recebemos, o que se poderá dizer? Em Fitzwilly (1967), encontramos Williams no seu "Mancini mode", a musicar mais uma comédia de quem ninguém se lembra. Há dois temas que sobressaem, o primeiro logo na abertura, e que mais à frente, em "More Theft", recebe um tratamento único ao ser agilmente interpretado na tuba -- razão que faz o compositor lembrar este trabalho com tão particular afeto. O segundo tema é na realidade a canção "Make Me Rainbows", com letras do casal Alan e Marilyn Bergman, e que é sem dúvida uma das melhoras que Williams já escreveu -- e sem dúvida a mais gravada, por artistas como Ella Fitzgerald, Nancy Wilson e mais recentemente, Maureen McGovern. A canção recebe uma versão com coro, como era habitual na época, com uma deliciosa introdução pela orquestra -- a versão instrumental soa demasiado a "música de elevador" até o meio da interpretação, quando chegamos a um delicioso solo para saxofone que parece improvisado, e a uma eletrizante coda com ajuda da seção rítmica.

Outros temas surgem em "Fitzwily's date", mais uma vez o tipo de peça fruto da época, muito Mancinesca ou em "Sampson and Delilah", mais numa linha de light jazz. No entanto o Williams que viríamos a conhecer mais tarde já está presente noutras faixas, interpolando os temas principais e usando-os de forma altamente eficiente como música incidental e não apenas como source cues a formar um fundo sonoro, como é o caso em "The Xerox Crisis", que começa com um breve scherzo baseado no tema da primeira faixa, desaguando depois num delicado arranjo da canção. "Juliet's Discovery" quase surge como algo fora de contexto, numa faixa extremamente atmosférica e misteriosa, com uso de efeitos sonoros estranhos e até dissonância -- algo de invulgar numa comédia ligeira sobre ladrões apaixonados. Mas movemo-nos rapidamente para o "End Title", com uma breve reprise dos principais temas e uma inevitável conclusão festiva. Fitzwilly marca o fim de uma época na carreira de Williams, que tem a sua primeira "Big Break" apenas dois anos mais tarde ao substituir Lalo Schifrin em The Reivers e receber a sua primeira nomeação para um Oscar. Esta é a sua última comédia e apresenta um dos seus melhores trabalhos até então, e seguramente um dos melhores no gênero, ainda que datado pelo tipo de sonoridades usadas.

Mais do que noutros trabalhos anteriores, também mostra outros mundos sonoros que viria a explorar pouco depois nos vários filmes catástrofe em que trabalhou nos anos 70. E claro, temos a excelente canção "Make Me Rainbows." Já The Long Goodbye (1973) é um animal completamente diferente e a sua inclusão com Fitzwilly não deixa de ser curiosa -- provavelmente por ambos os trabalhos fazerem uso de arranjos jazzísticos, embora de estéticas completamente diferentes. As duas colaborações cinematográficas de Williams com o realizador Robert Altman são seguramente duas das mais criativas da carreira do compositor. Williams e Altman conheceram-se no Revue Studios (a produtora televisiva da Universal) onde Williams compôs partituras experimentais para episódios realizados por Altman, chegando a fazer uso exclusivo de instrumentos de percussão -- num episódio do Kraft Suspense Theater, "The Case Agaisnt Paul Ryker", estreado na televisão em 1964 e lançado em 1968 nos cinemas. Em 1972, a partitura para Images, nomeada para o Oscar, é uma das mais experimentais até então, não só na carreira de Williams mas em toda a história de Hollywood.

The Long Goodbye usa uma estética musical muito mais acessível, mas a forma como a música é usada é de rara genialidade, culpa dividida entre compositor e realizador. Um exercício de cinismo direcionado à visão comercialista das produtoras de Hollywood, fazendo par com o cínico Philip Marlowe de Elliott Gould, a partitura existe em volta de um único tema, a canção batizada com o nome do filme, e com letra do grande Johnny Mercer. Williams e Altman ridicularizam o uso abusivo de canções na música do cinema made in Hollywood ao usarem este tema nas situações mais diversas, a maior parte das vezes como source music, desde o rádio do carro ou da loja de conveniência, até a uma banda numa procissão fúnebre, passando mesmo pelo toque de uma campainha. Este efeito é aumentado por ser usado no início, e no final durante os créditos, uma antiga gravação de "Hooray for Hollywood" de Richard Whiting. A quantidade de variações é considerável e lamenta-se que a Varèse Sarabande tenha perdido a oportunidade de apresentar uma versão completa de toda a música gravada para o filme. Tal como surge no CD, ficam de fora muitas das variações, nomeadamente uma das poucas passagens de música incidental, a atmosférica conclusão do filme. Mas alguma coisa é melhor que nada, e temos as excelentes performances do David Grusin Trio e de Jack Sheldon (na voz e trompete).

Infelizmente a Varèse Sarabande falha novamente ao ser incapaz de nomear todos os solistas nas várias versões. No final ficamos com uma edição limitada -- e dispendiosa -- de dois trabalhos de particular interesse de Williams, mas que continuam incompletas para os colecionadores mais dedicados. Embora recomendável, até porque deveremos ter de esperar muito por edições mais elaboradas destas obras, poderá não ser a escolha mais acertada para todos os admiradores do jovem Johnny Williams.

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