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Quando se
olha para as edições dedicadas à música de
John Williams,
incluídas no rejuvenescido clube da Varèse Sarabande, não se pode deixar
de verificar que em geral estes trabalhos ainda são fáceis de encontrar
em encarnações anteriores (The Fury, Home Alone 2) ou
estão longe de ser dos itens mais procurados pelos colecionadores (Heartbeeps).
É certo que qualquer umas destas edições mantêm os seus méritos, mas com
tantas outras partituras a necessitar deste tipo de tratamento, as
escolhas podem não parecer as melhores... De certa forma esse é o claro
caso de Fitzwilly, parte da mais recente leva de edições deste
clube. Enquanto ainda é fácil encontrar, mesmo em lojas on-line
com a Amazon, a edição da Tsunami Records (independente das questões
legais ligadas a este selo alemão), a Varèse Sarabande lança uma nova
edição, identificada como a primeira em CD, mas que se limita a duplicar
a edição original em LP -- e a da Tsunami Records também.
Os puristas do áudio dirão que o som está mais bem restaurado, mas
depois de lançamentos que são apesar de tudo, modelos de como uma
reedição devia ser (The Fury e Home Alone 2), e sabendo
que parte das faixas do LP são alternates e muito mais música
deste filme se mantém indisponível, o selo norte-americano perdeu aqui
uma oportunidade de ouro de fazer justiça a um dos primeiros grandes
sucesso do então Johnny Williams. Mas quanto à música que recebemos, o
que se poderá dizer? Em Fitzwilly (1967), encontramos Williams no
seu "Mancini mode",
a musicar mais uma comédia de quem ninguém se lembra. Há dois temas que
sobressaem, o primeiro logo na abertura, e que mais à frente, em "More
Theft", recebe um tratamento único ao ser agilmente interpretado na tuba
-- razão que faz o compositor lembrar este trabalho com tão particular
afeto. O segundo tema é na realidade a canção "Make Me Rainbows", com
letras do casal Alan e Marilyn Bergman, e que é sem dúvida uma das
melhoras que Williams já escreveu -- e sem dúvida a mais gravada, por
artistas como Ella Fitzgerald, Nancy Wilson e mais recentemente, Maureen
McGovern. A canção recebe uma versão com coro, como era habitual na
época, com uma deliciosa introdução pela orquestra -- a versão
instrumental soa demasiado a "música de elevador" até o meio da
interpretação, quando chegamos a um delicioso solo para saxofone que
parece improvisado, e a uma eletrizante coda com ajuda da seção rítmica.
Outros temas surgem em "Fitzwily's date", mais uma vez o tipo de peça
fruto da época, muito Mancinesca ou em "Sampson and Delilah", mais numa
linha de light jazz. No entanto o Williams que viríamos a
conhecer mais tarde já está presente noutras faixas, interpolando os
temas principais e usando-os de forma altamente eficiente como música
incidental e não apenas como source cues a formar um fundo
sonoro, como é o caso em "The Xerox Crisis", que começa com um breve
scherzo baseado no tema da primeira faixa, desaguando depois num
delicado arranjo da canção. "Juliet's Discovery" quase surge como algo
fora de contexto, numa faixa extremamente atmosférica e misteriosa, com
uso de efeitos sonoros estranhos e até dissonância -- algo de invulgar
numa comédia ligeira sobre ladrões apaixonados. Mas movemo-nos
rapidamente para o "End Title", com uma breve reprise dos principais
temas e uma inevitável conclusão festiva. Fitzwilly marca o fim
de uma época na carreira de Williams, que tem a sua primeira "Big Break"
apenas dois anos mais tarde ao substituir
Lalo Schifrin em
The Reivers e receber a sua primeira nomeação para um Oscar. Esta é
a sua última comédia e apresenta um dos seus melhores trabalhos até
então, e seguramente um dos melhores no gênero, ainda que datado pelo
tipo de sonoridades usadas.
Mais do que noutros trabalhos anteriores, também mostra outros mundos
sonoros que viria a explorar pouco depois nos vários filmes catástrofe
em que trabalhou nos anos 70. E claro, temos a excelente canção "Make Me
Rainbows." Já The Long Goodbye (1973) é um animal completamente
diferente e a sua inclusão com Fitzwilly não deixa de ser curiosa
-- provavelmente por ambos os trabalhos fazerem uso de arranjos
jazzísticos, embora de estéticas completamente diferentes. As duas
colaborações cinematográficas de Williams com o realizador Robert Altman
são seguramente duas das mais criativas da carreira do compositor.
Williams e Altman conheceram-se no Revue Studios (a produtora
televisiva da Universal) onde Williams compôs partituras experimentais
para episódios realizados por Altman, chegando a fazer uso exclusivo de
instrumentos de percussão -- num episódio do Kraft Suspense Theater,
"The Case Agaisnt Paul Ryker", estreado na televisão em 1964 e lançado
em 1968 nos cinemas. Em 1972, a partitura para Images, nomeada
para o Oscar, é uma das mais experimentais até então, não só na carreira
de Williams mas em toda a história de Hollywood.
Já The Long Goodbye usa uma estética musical muito mais
acessível, mas a forma como a música é usada é de rara genialidade,
culpa dividida entre compositor e realizador. Um exercício de cinismo
direcionado à visão comercialista das produtoras de Hollywood, fazendo
par com o cínico Philip Marlowe de Elliott Gould, a partitura existe em
volta de um único tema, a canção batizada com o nome do filme, e com
letra do grande Johnny Mercer. Williams e Altman ridicularizam o uso
abusivo de canções na música do cinema made in Hollywood ao
usarem este tema nas situações mais diversas, a maior parte das vezes
como source music, desde o rádio do carro ou da loja de
conveniência, até a uma banda numa procissão fúnebre, passando mesmo
pelo toque de uma campainha. Este efeito é aumentado por ser usado no
início, e no final durante os créditos, uma antiga gravação de "Hooray
for Hollywood" de Richard Whiting. A quantidade de variações é
considerável e lamenta-se que a Varèse Sarabande tenha perdido a
oportunidade de apresentar uma versão completa de toda a música gravada
para o filme. Tal como surge no CD, ficam de fora muitas das variações,
nomeadamente uma das poucas passagens de música incidental, a
atmosférica conclusão do filme. Mas alguma coisa é melhor que nada, e
temos as excelentes performances do David Grusin Trio e de Jack Sheldon
(na voz e trompete).
Infelizmente a Varèse Sarabande falha novamente ao ser incapaz de nomear
todos os solistas nas várias versões. No final ficamos com uma edição
limitada -- e dispendiosa -- de dois trabalhos de particular interesse
de Williams, mas que continuam incompletas para os colecionadores mais
dedicados. Embora recomendável, até porque deveremos ter de esperar
muito por edições mais elaboradas destas obras, poderá não ser a escolha
mais acertada para todos os admiradores do jovem Johnny Williams. |