The Five Sacred Trees
Williams: Bassoon Concerto "The Five Sacred Trees"; Takemistu: TreeLine; Hovhaness: Symphony nº 2 "Mysterious Mountain"; Picker: Old and Lost Rivers -- Judith LeClair, solista/London Symphony Orchestra/John Williams

Selo:
Sony Classical
Catálogo:
SK 62729
10 Faixas
Cotação:

Comentário de
Miguel Andrade

 

Em 1997, seguidores do compositor dos maiores sucessos cinematográficos das últimas duas décadas foram finalmente agraciados com uma gravação que mostrava o outro lado das suas composições, aquelas que não são regidas pelos tempos restritivos da película. Embora fosse possível aos mais perseverantes encontrar a edição dos seus Concertos para Flauta e Violino, há muito fora de catálogo, “The Five Sacred Trees” foi o primeiro CD com obras mais extensas para sala de concerto de John Williams a ser lançado por uma prestigiada editora do ramo. Na verdade o surgimento desta gravação é só o corolário lógico de um caminho iniciado, de forma algo mais tímida nos anos 80, e mais assumida a partir de 1990, onde o compositor começou a dedicar cada vez mais tempo a compor estas obras não cinematográficas. Nos anos 80, Williams escreveu numerosas peças curtas de ocasião, assim como o seu Concerto para Tuba (1985), mas desde 1991, com o Concerto para Clarinete, encomendas para obras mais extensas seguiram-se de forma cada vez mais freqüente: concertos para Violoncelo, para Trompete, um ciclo de canções com poemas de Rita Dove intitulado "Seven for Luck", seguiram-se por entre encomendas de Hollywood, não dando descanso ao compositor.

O Concerto para Fagote e Orquestra “The Five Sacred Trees”, composto para o 150º aniversário da New York Philharmonic, e dedicado à sua fagotista principal, Judith LeClair, foi estreado em 1995, com a solista e a orquestra referidas, sob a direção de Kurt Masur, embora a peça estivesse concluída desde 1993.
Em cinco movimentos, balançando rápidos com lentos, vai beber a sua inspiração nos escritos de Robert Graves, que falam das cinco árvores sagradas para a cultura Celta. Adequadamente, há uma qualidade impressionista na música, ao tentar representar a visão do compositor de cada uma destas árvores. A primeira destas é também a mais importante segundo os Celtas, o Eó Mugna (carvalho), uma árvore igualmente majestosa e serena. Convenientemente, a obra começa com um recitativo para o solista, sugerindo com eficácia esta pacífica serenidade. A música cresce, com a entrada das cordas e das madeiras, e eventualmente atinge um grande clímax, com floreados para os trompetes, que convêm a grandiosidade do carvalho (e da idéia a ele associada), para logo depois voltar à qualidade meditativa que abriu o movimento.

Em contraste, o segundo movimento, "Tortan", representa a árvore à volta das quais as bruxas dançavam – há uma clara referência ao famoso “The Sorcerer’s Aprentice” de Paul Dukas, tornado famoso por Walt Disney. O violino e o solista entram num vivo diálogo, com algum apoio da flauta e inevitável suporte da orquestra. O resultado pode ser visto como uma adequada dança diabólica! Eó Rossa, o teixo, o terceiro movimento do concerto, representava para os antigos celtas a passagem da morte para uma nova vida - Williams cria um movimento elegíaco, mas imbuído de enorme lirismo, com um maravilhoso dueto para o solista e a harpa. Percussão exótica pontua o movimento seguinte, "Craeb Uisnig", nome celta para o freixo, símbolo de lutas. Este scherzo crepuscular apresenta uma linha melódica sincopada para o fagote, demonstrando toda a agilidade do instrumento. O movimento final representa a árvore que inspirava os poetas, também a última a ser cortada, a Dathi, e adequadamente a música é cheia de lirismo, com uma bela mas triste melodia que a permeia e um delicado diálogo com a flauta. Há um motivo que é reminescente do usado logo no primeiro movimento, e toda a estrutura repete a de "Eó Mugna"
, quase funcionando como o fechar de um ciclo, enquanto a última nota se perde no ar.

“The Five Sacred Trees” é uma obra genial, que serviu para muitos como a primeira introdução ao mundo da música ‘séria’ de John Williams – todos os toques característicos das suas composições para cinema estão presentes, fazendo desta uma das suas peças mais acessíveis, mas com uma linguagem mais refinada, onde os temas não nos são dados com a mesma leveza. Temos de percorrer um caminho para os encontrar, e no final a satisfação de sermos abraçados por estes, será a grande recompensa. O resto do álbum está preenchido por três obras de três outros compositores, todos eles sensíveis a estes assuntos arbóreos ou naturalistas. “TreeLine”, do já desaparecido Toru Takemitsu, é uma impressão orquestral de uma fileira de acácias que o compositor podia ver da janela do seu atelier. É expressionista e misteriosa, e extremamente delicada com breves explosões orquestrais, tal como se subitamente a leve brisa se transforma-se numa ventania e abana-se todos os ramos. Há um cuidado rendilhado orquestral que adensa todo este mistério à volta da idéia da árvore, mas que contribui também para a sensação de delicadeza.

Alan Hovhaness, um dos compositores que mais tempo dedicou a compor sinfonias durante o século XX (67 no total!), chamou à sua Segunda “Misteryous Mountain”. A música é brilhante e pinta a sua paisagem com largas pinceladas orquestrais, a exemplo de alguns compositores mais jovens como John Tavener ou Einojuhani Rautavaara. Em três movimentos, numa estrutura de rápido - lento - rápido, a música consegue habilmente sugerir toda a majestosa serenidade da natureza. O primeiro movimento, Andante con moto, arrebata-nos de forma calma, como se fossemos expostos pela primeira vez à grande montanha. O segundo, Double Fugue, sugere uma alegre brincadeira por entre as folhagens, enquanto que o movimento final, Andante Espressivo, tem um aspecto autunal, como se presenciássemos o mais belo ocaso. Tal como os compositores que seguiram a mesma linha musical de Hovhaness, o compositor é um homem muito espiritual, e a sua música deixa transpirar toda essa espiritualidade, desta feita, a associada à Mãe Natureza.

O CD termina com “Old and Lost Rivers” de Tobias Picker, compositor em residência da Houston Symphony, orquestra para a qual foi composta esta breve miniatura para orquestra – e embora breve, não é menor por isso. Com um som autunal, e uma melodia sinuosa, consegue-nos sugerir o correr de um fino riacho perdido por entre um nevoeiro espesso (não sei se esta era a intenção, mas é o que eventualmente me sugere.) Uma obra prima em miniatura! Escusado será dizer que para além da óbvia qualidade intrínseca à música, as interpretações são excepcionais, aliás como seria de esperar da London Symphony Orchestra. Williams revela-se um maestro muito mais do que apenas competente, ao conseguir apresentar uma leitura das peças de Hovhaness e Takemistu que competem de igual para igual com as gravações já existentes. LeClair faz pensar, através da sua extraordinária interpretação, que o fagote deverá ser o mais ágil dos instrumentos.

Para completar, a Sony Classical esmerou-se com um excepcional texto, e uma bela fotografia de Ansel Adams para a capa. Um álbum absolutamente essencial, para conhecer o outro John Williams, que misteriosamente, tal como estas árvores, habita o mesmo corpo que o célebre compositor de cinema.

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