FRACTURE
Música composta por Jeff Danna e Mychael Danna, regida por Nicholas Dodd

Selo: New Line Records
Catálogo:
iTunes
Lançamento: 2007
Faixas

1. The Rube
2. Mrs. Smith
3. You're Home Early
4. Beachum
5. Objection
6. Call Me Later
7. I Didn't Know Her Last Name
8. Bedside Vigil
9. This Is Where To Find Me
10. I Haven't Decided Yet
11. Suicide
12. I Decide When It Gets Pulled
13. A Certain Kind Of Strength
14. I Got The Bullet
15. New Trial

Duração: 43:55
Cotação:


Comentário de
Jorge Saldanha

 
Voltamos aqui ao assunto "fórmula", mas desta vez tratando daquela que se relaciona aos filmes de tribunal. Um Crime de Mestre (Fracture, 2007) é a prova de que o diretor Gregory Hoblit domina bem este tipo de fórmula, que já empregara com bons resultados em As Duas Faces de um Crime, de 1996. Desta vez, temos o eterno "Hannibal" Anthony Hopkins interpretando um sujeito que atirou na própria mulher, e que decide ele mesmo ser o seu próprio advogado. Ryan Gosling é o promotor do caso, que em determinada altura vê-se na situação de ter que forjar provas para conseguir a condenação.

Dentro de uma fórmula estabelecida, Hoblit consegue fazer um filme interessante, valorizado pelo ótimo desempenho dos dois atores principais. Mas o que se pode dizer da trilha original composta a quatro pelos irmãos Mychael Danna e Jeff Danna? Indiscutivelmente os dois compositores, dentre os que eu ainda posso chamar da "nova geração", são dos mais interessantes - ainda que seus trabalhos (alguns comentados no ScoreTrack) não agradem a todos. Ambos surgiram em filmes menores ou independentes. Jeff já entrou para "o grande circuito", tendo feito a música de filmes como Resident Evil 2: Apocalypse e Terror em Silent Hill. Já Mychael, de estilo mais minimalista e revelado nos filmes do diretor Atom Egoyan, tem entre seus créditos o filme sobre a Guerra Civil americana Cavalgada com o Diabo e o recente Jesus – A História do Nascimento. Ambos já haviam trabalhado juntos nos filmes Green Dragon e Tideland.

Um filme como Um Crime de Mestre também traz em si uma fórmula para seu score, que dificilmente deveria surpreender alguém - seja um mero espectador, ou um resenhista de trilhas sonoras. E este é, de fato, o caso deste trabalho dos irmãos Danna. Mas que, como a própria realização de Hoblit, consegue transitar pela receita e obtém um resultado final sólido, que possui méritos. Caracterizada principalmente por motivos que destacam o piano, a partitura é essencialmente sombria, enfatizando o suspense. Nas mãos de compositores menos talentosos ela ficaria tão somente presa ao óbvio, à fórmula: mas os dois irmãos adicionam sutilezas e recursos de composição que a ela agregam outras - e superiores - características.

Raramente afastando-se do clima sombrio, o score possui um fluxo consistente desde seu início, enfatizando aspectos íntimos dos personagens como o conflito interno, a dúvida - como podemos constatar em "You're Home Early". Ao invés de trazerem repetição, faixas como "Call Me Later" são emocionais, melódicas, inspiradas. A partitura traz um bom trabalho das cordas, típicas de trilhas de suspense mas que aqui possuem elegância - algo no qual John Barry é um mestre. Há também a inclusão de sintetizadores e percussão eletrônica (algo que Jeff vem utilizando com eficácia ultimamente), mas tais elementos não são intrusivos por serem adicionados de forma suave, como em "Beachum". "I Didn't Know Her Last Name" é outra faixa a agregar essas sonoridades, digamos, mais pop, mescladas com orquestra, que remetem aos trabalhos dos anos 1990 de James Newton Howard.

"I Decide When It Gets Pulled", provavelmente o ponto alto da partitura com seus quase sete minutos de duração, traz a pouco usada seção de metais da orquestra. Após uma sinistra introdução ao piano e cordas, a faixa vai lentamente progredindo da tensão até a ação percussiva retumbante, com a intervenção dos metais em momentos cruciais. Uma faixa admiravelmente bem construída e orquestrada, antecedendo as três seguintes que levam a partitura a um desfecho mais do que satisfatório. Apesar de não ser um score que vá ser ouvido repetidamente, Fracture é a prova de que os dois irmãos sabem como trabalhar juntos, e o que é melhor - produzindo obras que, mesmo ainda presas a inevitáveis fórmulas, são capazes de trazer embutidos méritos inegáveis.

Apenas uma observação, antes de finalizar: na data em que escrevi esta resenha, a trilha original de Fracture ainda não fora lançada em CD - estava apenas disponível para download no iTunes.

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