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No decorrer da sua
existência, a pequena gravadora norte-americana Varèse Sarabande tem
prestado um autêntico serviço de utilidade pública aos amantes da música
escrita para o cinema. E isso não podia ser mais óbvio quando se olha
para esta edição dedicada à música de
John Williams. The
Fury é um dos trabalhos mais queridos pelos fãs do compositor, em
grande parte devido à fantástica gravação anteriormente disponível. Na
verdade a edição original com a música para este filme (LP da Arista e
CD, entretanto fora de catálogo, da própria Varèse Sarabande) era uma
regravação realizada em Londres com a famosa London Symphony. A
razão para isso foram os altos custos impostos pela união de músicos,
quando das edições discográficas das gravações realizadas em Los
Angeles. Assim, gravar com a prestigiada London Symphony
revelou-se mais barato. Williams também teve um particular carinho pelo
projeto. Embora o filme (e isto tem que ser dito) seja um disparate do
início ao fim, foi capaz de trazer o melhor de Williams.
O filme teria sido o projeto seguinte de
Bernard Herrmann,
mas o seu desaparecimento após terminar o trabalho em Taxi Driver
obrigou Brian de Palma a procurar alguém à altura de substituir o grande
mestre. A escolha de Williams foi por certo motivada também pelo recente
sucesso de Jaws, Star Wars e Close Encounters of The
Third Kind, mas o fato dele ter tido uma relação muito próxima de
Herrmann deve ter ajudado. Herdar o trabalho de um amigo e mentor
querido ajudou com certeza Williams a ultrapassar os ridículos aspectos
plásticos do filme, com os gestos expansivos de Carrie ou The
Exorcist, e com as habituais citações a Hitchcock, habito nos filmes
de De Palma, criando uma impressão musical que por si só é capaz de
sugerir um tom muito mais sério ao filme. Enquanto o filme não é para
ser levado a sério, os créditos iniciais levam-nos logo a pensar no
contrário. Numa clara alusão à herança "Herrmannesca", Williams musica
os créditos iniciais, texto branco sobre fundo negro, com uma macabra
valsa que começa suavemente nas madeiras e vai crescendo na sua
malevolência, até atingir um enorme e violento clímax. Apesar do
disparate pegado que se segue, Williams nunca deixa de levar a sério o
filme e sustenta-o dramaticamente mais do que eventualmente ele merece.
Este "Main Title" já é por si um dos pontos altos do score - na
estrutura leit-motivica da partitura, é também o tema principal
do filme, e que o encapsula e representa toda a sua essência.
Há mais alguns temas recorrentes, o mais memorável deles todos, um
alegre scherzo "For Gillian" (personagem interpretada por Amy
Irving), faz a sua aparição principal na faixa 7. Orquestrado
essencialmente para madeiras, é cheio de lirismo e da inocência própria
da juventude. Há um tema secundário que surge como um breve interlúdio
para cordas aqui pela primeira vez. Um outro tema de caráter lírico
surge em "Hester's Theme" (faixa 6), mas desta feita a inocência já está
perdida e há uma instabilidade na música que nos faz adivinhar as
complicações que vão surgir em breve. O tema tem uma forte participação
da trompa e cordas, que contribuem para a sonoridade melancólica e grave
do tema. O mesmo tema volta ser desenvolvido em "Remembering Robin". Um
motivo secundário, muito à moda de Herrmann, acompanha também o
desenvolvimento da partitura, com uma qualidade imparável, muito como a
música no prelúdio de Psycho de Herrmann ou no tema de Jaws
do próprio Williams. O compositor usa o seu material de forma magistral,
escolhendo para a orquestração opções que rapidamente recordam o seu
mentor, mas sem perder o seu cunho pessoal.
"Visions in the Stairs" é um fabulosa peça de ação que facilmente
identificamos com o estilo pessoal de Williams. "The Train Wreck"
apresenta um tema secundário com uma breve participação do theremin,
enquanto "Through The Alley" transforma o tema principal num veloz
scherzo. Alguns dos efeitos atmosféricos, como em "The Fog Scene",
com a participação de cordas, metais em linhas melódicas sincopadas e
pontuação do tímpano, faz lembrar o enorme sucesso de Williams do ano
anterior a The Fury, o famoso Star Wars, mas estes mesmos
efeitos orquestrais são já de si reminescentes de Herrmann. "Surveillance"
continua nesse caminho, com um adensar do mistério. "Gillian's Vision"
começa de forma suave, com participação do sintetizador e madeiras,
ganhando tensão e vai crescendo, sempre fazendo uso do tema principal,
passando depois para as cordas e avançando para um tom mais violento com
o surgimento dos metais, suportados por cordas cortantes, em
glissandos que recordam Psycho. A faixa atinge o habitual
clímax "Williamesco", para depois desvanecer em mais uma discreta
apresentação do tema principal. Outras faixas com igual poder surgem em
"Approaching The House", "Lifting Susan", "Father Meets Son" e o
finale "Gillian's Powers", que começa de forma semelhante aos
primeiros compassos da Quinta Sinfonia de Dmitri Shostakovich, um
compositor que Williams guarda em alta estima.
Esta seqüência final de temas, que ilustra musicalmente o fim do filme,
justifica sozinho o interesse por esta obra, ao ser uma poderosa
demonstração da força da música ao ser capaz de contar a história por si
própria, criando tensão, libertando-a, confortando e levando-nos para o
grand finale com o apropriado clímax orgásmico, tal como
apelidado por Nick Redman, nas competentes notas para o CD. Uma
autêntica sinfonia de terror! Para além da semelhança com a obra de
Shostakovich, "Gillian's Powers" conta ainda com uma forte presença do
theremin, instrumento predecessor do sintetizador, muito usado por
Herrmann mas que soa mais como uma homenagem aos filmes de série B do
que propriamente um dispositivo musical na narrativa dramática. Digno de
referência é ainda o atmosférico "Descent" com uma interessante escrita
para cordas, assombrada pelo theremin, que interpreta o tema principal,
e pontuado pelos ameaçadores e "Herrmannescos" metais. "Death on the
Carousel" é essencialmente uma peça de grande tensão, que nos leva para
uma brilhante explosão orquestral libertadora. "Gillian's Escape" é
outra das peças que sobressai, mais outra passagem de ação, que inicia
de forma tensa, visita o juvenil tema de Gillian, mas que segue depois
para o tenebroso tema principal, genialmente interligado com o tema para
Hester.
Embora seja uma obra brilhante e justamente desejada pelos admiradores,
não deixa de haver algumas fraquezas neste CD: a continuidade não é tão
musicalmente orientada como na edição anteriormente existente, e algumas
das faixas mais curtas são apenas acessórias, não conseguindo criar
afirmações musicais satisfatórias. Mas aqui está o grande feito da
Varèse Sarabande, ao transformar esta edição num CD duplo, fazendo
regressar a gravação para o LP original, realizada com a London
Symphony. Esta tem do ponto de vista puramente musical muito mais
interesse. Está estruturada como um poema sinfônico, para contar uma
história através da música, juntando faixas diferentes de forma a criar
afirmações musicais satisfatórias. A seqüência final "Death On The
Carrousel and End Credits", juntando a música de "Death on the Carousel"
(aqui numa versão algo diferente), "Descent" e "Gillian's Powers",
funciona como um movimento de uma sinfonia... Uma estrutura única e
coesa. O tema "For Gillian" é muito mais desenvolvido, assim como o
próprio "Main Title", enquanto que muitas das outras faixas sofrem
pequenos retoques. O theremim desaparece, ficando todos os efeitos
musicais a cargo de instrumentos acústicos. Williams termina a sua
apresentação concertizada da partitura com uma bela e delicada, embora
cheia de mágoa e melancolia, elegia para cordas, baseada no tema
principal.
Outra vantagem está na fantástica interpretação da London Symphony,
cuja seção de metais é sempre insuperável. Os timings das
interpretações também fluem de uma forma mais natural, mais musical,
acima de tudo mais solta, do que na gravação para o filme. Acrescente-se
ainda que o som foi remasterizado, e atinge uma qualidade francamente
superior, não só em relação à gravação para o filme, mas também em
relação à edição anterior da Varèse Sarabande. Para além da partitura,
somos agraciados por competentes notas por Nick Redman, incluindo uma
breve análise da música. Temos de estar gratos a John Williams por esta
obra prima esquecida, mas também temos de agradecer à Varèse Sarabande
por resgatá-la do limbo do esquecimento e recordar-nos que Williams,
mesmo quando os filmes são infelizes, consegue sobrepor-se a eles e
criar grandes obras musicais, merecedoras de serem ouvidas em todos os
leitores de CD, em todas as salas de concerto, e por todos os amantes de
grande música. |