The Fury: THE Deluxe Edition

Música composta e regida por John Williams. Studio Orchestra (OST); London Symphony (album version)

Selo:
Varèse Sarabande
Catálogo:
CD Club VCL 0702 1011
32 F
aixas
Cotação:

Comentário de
Miguel Andrade

 

No decorrer da sua existência, a pequena gravadora norte-americana Varèse Sarabande tem prestado um autêntico serviço de utilidade pública aos amantes da música escrita para o cinema. E isso não podia ser mais óbvio quando se olha para esta edição dedicada à música de John WilliamsThe Fury é um dos trabalhos mais queridos pelos fãs do compositor, em grande parte devido à fantástica gravação anteriormente disponível. Na verdade a edição original com a música para este filme (LP da Arista e CD, entretanto fora de catálogo, da própria Varèse Sarabande) era uma regravação realizada em Londres com a famosa London Symphony. A razão para isso foram os altos custos impostos pela união de músicos, quando das edições discográficas das gravações realizadas em Los Angeles. Assim, gravar com a prestigiada London Symphony revelou-se mais barato. Williams também teve um particular carinho pelo projeto. Embora o filme (e isto tem que ser dito) seja um disparate do início ao fim, foi capaz de trazer o melhor de Williams.

O filme teria sido o projeto seguinte de Bernard Herrmann, mas o seu desaparecimento após terminar o trabalho em Taxi Driver obrigou Brian de Palma a procurar alguém à altura de substituir o grande mestre. A escolha de Williams foi por certo motivada também pelo recente sucesso de Jaws, Star Wars e Close Encounters of The Third Kind, mas o fato dele ter tido uma relação muito próxima de Herrmann deve ter ajudado. Herdar o trabalho de um amigo e mentor querido ajudou com certeza Williams a ultrapassar os ridículos aspectos plásticos do filme, com os gestos expansivos de Carrie ou The Exorcist, e com as habituais citações a Hitchcock, habito nos filmes de De Palma, criando uma impressão musical que por si só é capaz de sugerir um tom muito mais sério ao filme. Enquanto o filme não é para ser levado a sério, os créditos iniciais levam-nos logo a pensar no contrário. Numa clara alusão à herança "Herrmannesca", Williams musica os créditos iniciais, texto branco sobre fundo negro, com uma macabra valsa que começa suavemente nas madeiras e vai crescendo na sua malevolência, até atingir um enorme e violento clímax. Apesar do disparate pegado que se segue, Williams nunca deixa de levar a sério o filme e sustenta-o dramaticamente mais do que eventualmente ele merece. Este "Main Title" já é por si um dos pontos altos do score - na estrutura leit-motivica da partitura, é também o tema principal do filme, e que o encapsula e representa toda a sua essência.

Há mais alguns temas recorrentes, o mais memorável deles todos, um alegre scherzo "For Gillian" (personagem interpretada por Amy Irving), faz a sua aparição principal na faixa 7. Orquestrado essencialmente para madeiras, é cheio de lirismo e da inocência própria da juventude. Há um tema secundário que surge como um breve interlúdio para cordas aqui pela primeira vez. Um outro tema de caráter lírico surge em "Hester's Theme" (faixa 6), mas desta feita a inocência já está perdida e há uma instabilidade na música que nos faz adivinhar as complicações que vão surgir em breve. O tema tem uma forte participação da trompa e cordas, que contribuem para a sonoridade melancólica e grave do tema. O mesmo tema volta ser desenvolvido em "Remembering Robin". Um motivo secundário, muito à moda de Herrmann, acompanha também o desenvolvimento da partitura, com uma qualidade imparável, muito como a música no prelúdio de Psycho de Herrmann ou no tema de Jaws do próprio Williams. O compositor usa o seu material de forma magistral, escolhendo para a orquestração opções que rapidamente recordam o seu mentor, mas sem perder o seu cunho pessoal.

"Visions in the Stairs" é um fabulosa peça de ação que facilmente identificamos com o estilo pessoal de Williams. "The Train Wreck" apresenta um tema secundário com uma breve participação do theremin, enquanto "Through The Alley" transforma o tema principal num veloz scherzo. Alguns dos efeitos atmosféricos, como em "The Fog Scene", com a participação de cordas, metais em linhas melódicas sincopadas e pontuação do tímpano, faz lembrar o enorme sucesso de Williams do ano anterior a The Fury, o famoso Star Wars, mas estes mesmos efeitos orquestrais são já de si reminescentes de Herrmann. "Surveillance" continua nesse caminho, com um adensar do mistério. "Gillian's Vision" começa de forma suave, com participação do sintetizador e madeiras, ganhando tensão e vai crescendo, sempre fazendo uso do tema principal, passando depois para as cordas e avançando para um tom mais violento com o surgimento dos metais, suportados por cordas cortantes, em glissandos que recordam Psycho. A faixa atinge o habitual clímax "Williamesco", para depois desvanecer em mais uma discreta apresentação do tema principal. Outras faixas com igual poder surgem em "Approaching The House", "Lifting Susan", "Father Meets Son" e o finale "Gillian's Powers", que começa de forma semelhante aos primeiros compassos da Quinta Sinfonia de Dmitri Shostakovich, um compositor que Williams guarda em alta estima.

Esta seqüência final de temas, que ilustra musicalmente o fim do filme, justifica sozinho o interesse por esta obra, ao ser uma poderosa demonstração da força da música ao ser capaz de contar a história por si própria, criando tensão, libertando-a, confortando e levando-nos para o grand finale com o apropriado clímax orgásmico, tal como apelidado por Nick Redman, nas competentes notas para o CD. Uma autêntica sinfonia de terror! Para além da semelhança com a obra de Shostakovich, "Gillian's Powers" conta ainda com uma forte presença do theremin, instrumento predecessor do sintetizador, muito usado por Herrmann mas que soa mais como uma homenagem aos filmes de série B do que propriamente um dispositivo musical na narrativa dramática. Digno de referência é ainda o atmosférico "Descent" com uma interessante escrita para cordas, assombrada pelo theremin, que interpreta o tema principal, e pontuado pelos ameaçadores e "Herrmannescos" metais. "Death on the Carousel" é essencialmente uma peça de grande tensão, que nos leva para uma brilhante explosão orquestral libertadora. "Gillian's Escape" é outra das peças que sobressai, mais outra passagem de ação, que inicia de forma tensa, visita o juvenil tema de Gillian, mas que segue depois para o tenebroso tema principal, genialmente interligado com o tema para Hester.

Embora seja uma obra brilhante e justamente desejada pelos admiradores, não deixa de haver algumas fraquezas neste CD: a continuidade não é tão musicalmente orientada como na edição anteriormente existente, e algumas das faixas mais curtas são apenas acessórias, não conseguindo criar afirmações musicais satisfatórias. Mas aqui está o grande feito da Varèse Sarabande, ao transformar esta edição num CD duplo, fazendo regressar a gravação para o LP original, realizada com a London Symphony. Esta tem do ponto de vista puramente musical muito mais interesse. Está estruturada como um poema sinfônico, para contar uma história através da música, juntando faixas diferentes de forma a criar afirmações musicais satisfatórias. A seqüência final "Death On The Carrousel and End Credits", juntando a música de "Death on the Carousel" (aqui numa versão algo diferente), "Descent" e "Gillian's Powers", funciona como um movimento de uma sinfonia... Uma estrutura única e coesa. O tema "For Gillian" é muito mais desenvolvido, assim como o próprio "Main Title", enquanto que muitas das outras faixas sofrem pequenos retoques. O theremim desaparece, ficando todos os efeitos musicais a cargo de instrumentos acústicos. Williams termina a sua apresentação concertizada da partitura com uma bela e delicada, embora cheia de mágoa e melancolia, elegia para cordas, baseada no tema principal.

Outra vantagem está na fantástica interpretação da London Symphony, cuja seção de metais é sempre insuperável. Os timings das interpretações também fluem de uma forma mais natural, mais musical, acima de tudo mais solta, do que na gravação para o filme. Acrescente-se ainda que o som foi remasterizado, e atinge uma qualidade francamente superior, não só em relação à gravação para o filme, mas também em relação à edição anterior da Varèse Sarabande. Para além da partitura, somos agraciados por competentes notas por Nick Redman, incluindo uma breve análise da música. Temos de estar gratos a John Williams por esta obra prima esquecida, mas também temos de agradecer à Varèse Sarabande por resgatá-la do limbo do esquecimento e recordar-nos que Williams, mesmo quando os filmes são infelizes, consegue sobrepor-se a eles e criar grandes obras musicais, merecedoras de serem ouvidas em todos os leitores de CD, em todas as salas de concerto, e por todos os amantes de grande música.

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