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Baseado no
best-seller do escritor Arthur Golden, Memórias de uma Gueixa
é um filme que custou para sair do papel. Em meados de 1998 anunciou-se
que este seria o próximo projeto de Spielberg após O Resgate do
Soldado Ryan. Em março de 1999, o diretor chegou a reunir-se com seu
colaborador John Williams
para que este agendasse sua participação musical após as filmagens de
Minority
Report. Depois de sucessivos adiamentos, incluindo diversas
mudanças no roteiro, Spielberg desistiu do projeto no início de 2002,
mas John Williams, não! O compositor, que havia amado o livro de Golden,
manifestou seu interesse em continuar no projeto com ou sem Spielberg.
Após ser definido, em 2004, que Rob Marshall ficaria encarregado de
dirigir Gueixa, Spielberg arranjou um encontro entre Williams e o
diretor do filme Chicago. Algumas semanas depois, Marshall
garantiria a escolha de John Williams para compor e reger a partitura.
Entre seus trabalhos para
Guerra dos Mundos
e Munique, em 2005, o compositor dedicou-se a esta trilha,
convidando o violinista Itzhak Perlman e o violoncelista Yo-Yo Ma para
repetir as parcerias anteriores, respectivamente, em
A Lista de
Schindler e Sete Anos no Tibet. A estes dois excelentes
solistas, juntou-se um corpo de instrumentistas que dariam o tom
oriental para a música, executando solos de Erhu, um antigo
violino chinês de 2 cordas; o koto, uma espécie de sítara
japonesa; o shakuhachi, flauta de bambu; o shamisen,
instrumento com 3 cordas; tambores taiko e outros instrumentos de
percussão e sopro.
Dos cerca de 90 minutos de música que Williams compôs para o filme, o
álbum nos apresenta uma hora de sons e melodias que transmitem com
perfeição a atmosfera oriental e a cultura japonesa presentes na
história, iniciando com “Sayuri´s Theme”, uma melodia marcante
representativa da personagem-título do filme. Belamente solado pelo
violoncelo de Yo-Ya Ma, este tema é a espinha dorsal de toda a trilha e
garante ao músico uma participação primorosa na audição em CD. Se não
superior, tão boa quanto os solos que ele executou para Williams em
Sete Anos no Tibet. O conjunto de sopros, onde destaca-se o uso do
shakuhachi, mantém o clima em “The Journey to the Hanamachi”,
complementado pelas cordas e violoncelo. “Going to School” é uma das
minhas faixas preferidas, seu toque alegre e inocente é tão contagiante
que literalmente nos remete às crianças japonesas indo para a escola. A
seguir, os peculiares instrumentos de corda asiáticos, mencionados
anteriormente, são os protagonistas principais de “Brush on Silk”, e ao
lado da percussão quase nos fazem esquecer que o autor dos acordes é um
ocidental. “Chiyo's Prayer” traz de volta o violoncelo e, com ele, uma
melodia triste e introspectiva. O ritmo surge com “Becoming a Geisha”, e
novamente ouvimos o tema de Sayuri em todo o seu esplendor, para mais
tarde ser interrompido por um solo de percussão e retornar, nesta que é
uma das faixas destaque do álbum.
“Finding Satu” nos apresenta um ostinato que mais tarde será
plenamente desenvolvido em “Destiny's Path”. Então, afinal podemos ouvir
os solos de violino de Itzhak Perlman em “The Chairman's Waltz”,
belíssima peça bem no estilo que Williams empregou em A Lista de
Schindler. A melodia se repete em “The Garden Meeting” e está
calcada no personagem que é o interesse amoroso de Sayuri. Talvez por
isso ao final da faixa, ouvimos o violino de Perlman a recitar aquele
tema. Com “The Rooftops of the Hanamachi” voltamos à instrumentação
tipicamente oriental, desta vez com orientação muito mais descritiva do
que temática. O que se repete em “Dr. Crab's Prize”, totalmente solada
pelo shakuhachi, e em “The Fire Scene and the Coming of War”. Nesta
última, Williams incluiu um excerto de ‘Ogi No Mato’, uma famosa peça
clássica japonesa, como que um lamento a introduzir a sessão de cordas
numa linguagem mais habitual ao compositor. As faixas restantes retornam
ao material temático sem nunca abandonar o clima oriental. Destaques
para o solo de oboé e o dueto de violoncelos (Ma acompanhado de Steve
Erdody) em “As the Water”; e a belíssima “Confluence”, talvez a
composição mais tocante da toda partitura. O álbum finaliza com
“Sayuri's Theme and End Credits”, cujo arranjo mais ritmado descreve e
encerra apropriadamente a jornada de uma menina até se tornar uma
gueixa.
Memórias de uma Gueixa
marca o retorno de John Williams ao estilo dramático, introspectivo e
belo presente em
As Cinzas de
Ângela, outra adaptação cinematográfica de obra literária, e
mais do que isso, nos faz quase duvidar de que o autor destes
acordes seja um típico americano e não um compositor de terras orientais
e de olhos puxados. Um trabalho de grande qualidade e que merece,
felizmente, o reconhecimento que vem recebendo. Williams já ganhou um
Globo de Ouro por este trabalho, que provavelmente será indicado ao
Oscar.
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