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Godzilla (1998), adaptação americana do célebre monstro dos filmes
japoneses, foi a terceira (e última) colaboração do compositor
David
Arnold com a dupla Roland Emmerich (diretor) e Dean Devlin (produtor).
As anteriores, que com esta formam uma trilogia de aventuras de ficção
científica, foram
Stargate (1994) e
Independence Day
(1996), filmes de indiscutível eficácia enquanto entretenimento, mas que
são prejudicados pelo excesso de patriotadas pró-Tio Sam. É como se o
alemão Emmerich, cujo início de carreira foi extremamente influenciado
por George Lucas e Steven Spielberg, quisesse provar ao espectador que
pode ser tão (ou mais) norte-americano que seus ídolos. Vemos a síntese
disso na imagem de Mel Gibson correndo por um campo de batalha,
carregando a bandeira norte-americana, em
O Patriota (2000), para
o qual Emmerich dispensou Arnold e contratou em seu lugar ninguém menos
que o grande John Williams
– fato que, pelo jeito, provocou o término
definitivo da parceria.
Patriotadas à parte, o inglês Arnold sempre entregou ao
alemão Emmerich partituras de primeira linha, tanto que Stargate
e Independence Day são considerados pela maioria dos fãs da
música de cinema como seus melhores trabalhos (ao lado de
007 – O
Amanhã Nunca Morre, sua auspiciosa estréia na franquia de James Bond).
Indiscutivelmente são scores fenomenais, com grandes temas,
orquestrações elaboradas e amplo uso de coral. Mas que, até por tais
características, soam exageradamente grandiloqüentes e patrióticos quando
ouvidos acompanhando os excessos de Emmerich – como o presidente
americano discursando na frente da bandeira e depois pessoalmente
liderando o ataque aéreo contra os alienígenas invasores de
Independence Day.
De qualquer forma, não dá para dizer que Arnold não criou
trabalhos adequados ao material de que dispunha...
Já Godzilla, que sem dúvida também se
enquadra nos limites do puro cine-pipoca, explora menos o patriotismo
americano e até mesmo usa um agente francês, interpretado por Jean Reno,
para ridicularizar o café e a comida ianques.
Isso parece se refletir na trilha musical de Arnold, que sem
abrir mão de elementos de orquestra e coral similares aos anteriormente
utilizados, revela aqui um trabalho mais equilibrado, uma
verdadeira evolução dentro da trilogia citada. Mas se este é o caso,
porque então esta partitura não possui tantos defensores, ou não possui
o mesmo status das outras? Acredito que isso deva simplesmente ao
fato de que ela, até agora, não havia recebido uma edição discográfica
adequada. À época de seu lançamento, Godzilla teve lançada uma
coletânea de canções com apenas duas faixas do score de David
Arnold. Um CD exclusivamente com a música incidental seria lançado
quando do lançamento do filme em vídeo e DVD, mas infelizmente a Sony
Pictures ficou tão desapontada com o desempenho do iguana gigante nas
bilheterias que cancelou o projeto. Como resultado, Godzilla foi
considerado pela crítica o melhor score não lançado de 1998.
Posteriormente, 49 minutos da partitura surgiram em um CD promocional
bancado pelo próprio Arnold, mas que infelizmente teve pouca circulação
e foi obtido por poucos. Finalmente agora, em 2007, o selo La-La Land
resgatou do esquecimento o score completo de Arnold, lançando-o
num CD duplo de excelente qualidade de gravação, que inclui também
algumas faixas bônus.
Apresentado na íntegra e na forma como ouvido no filme, o
score se revela pleno de orquestrações brilhantes que privilegiam a
ação e a aventura, sem esquecer os momentos mais sombrios ou de suspense
e ainda melodias emotivas ou nobres, formando um delicioso fundo musical
que se adapta perfeitamente ao filme a que serve – inclusive
melhorando-o. O conjunto é valorizado por uma impecável construção de
harmonias e instrumentação vigorosa. Mesmo sem o acompanhamento de
imagens, é um deleite ouvir faixas extraordinárias como "Helicopter
Chase", "Egg discovery", "The Garden Gets It" e "Taxi Chase & Clue",
onde o inglês demonstra ser um dos melhores compositores de música de
ação atuais. Além disso, ele desenvolve temas emotivos que são decisivos
para definir minimamente os personagens, que como em todo filme de
Emmerich, são rasos como um pires. Que fique bem claro, para mim o
personagem mais humano do filme é Godzilla (em que pese os esforços do
diretor em atrair a simpatia do espectador para os fracos personagens de
Mathew Broderick e sua namorada insossa), e parece que Arnold teve a
mesma opinião, tanto que reservou para ele o melhor material temático da
partitura.
O álbum e o filme iniciam com "The Beggining" (que na versão
do antigo CD, também incluída aqui, se chamava "Gojira"), onde Arnold
introduz de forma sofisticada o ameaçador motivo de cinco notas
associado a Godzilla, o qual em outros momentos será acrescido de mais
três notas, para formar um submotivo que servirá para anticipar sua
aparição. Em sua parte inicial a composição no s remete às músicas
"espaciais" que John Barry compôs para os filmes de James Bond ( "Space
March", "007 and Counting" ), o que demonstra que seu colega e
conterrâneo representa uma inspiração que transcende aos seus trabalhos
para os filmes do agente 007. Este tema receberá um contraponto épico em
"The End", representando a vitória do bem sobre o mal (ou seria dos EUA
sobre o Japão?), numa cena cheia de felicitações e comemorações à
vitória, que é a que mais se aproxima das patriotadas anteriores de
Emmerich. Aliás, Arnold não economiza no emocionante coral ouvido no
momento da morte do único personagem que não merecia este triste
destino.
Além do material para o lagartão, Arnold apresenta um tema
de amor para o casal de protagonistas ("Nick and Audrey"), um motivo
cômico para o personagem de Jean Reno ("French Coffee", "He´s Preparing
to Feed") e um grupo de eficientes peças musicais que descrevem os
preparativos para o enfrentamento ao monstro. Destaque para a nobre (e
infelizmente curta) melodia que surge em "Evacuation", que será ouvida
novamente em uma variação presente em "Command Enters City". Por fim,
não podemos esquecer que, nesta adaptação americana, Godzilla é fêmea
(ou, no mínimo, hermafrodita) e põe ovos, dos quais emergem "adoráveis"
babyzillas famintos por carne humana. Para estas criaturas Arnold
dedica um material que nos lembra os ritmos percussivos empregados por
John Williams um ano antes, para os velociraptors de O Mundo Perdido.
Talvez as
citações musicais a Barry e Williams possam ser consideradas defeitos da
partitura (a velha questão plágio x homenagem). Ou também o fato de
Arnold, talvez por falta de experiência, eliminar o suspense e a tensão
do primeiro encontro face a face de Broderick com Godzilla ao colocar de
fundo uma música bela e emocional, indicando ao espectador que o herói
não seria devorado pelo monstro. Mas é inegável que a trilha sonora
original de Godzilla é superior ao próprio filme, e isto agora
poderá ser constatado de forma ampla graças a este lançamento que
finalmente disponibilizará, de forma mais abrangente, este que é um dos
melhores trabalhos de David Arnold. Quanto à dupla Roland Emmerich e
Dean Devlin, estão preparando seu retorno com uma refilmagem do clássico
sci fi Viagem Fantástica, que trará um score
composto pelo alemão Harald Kloser, com quem já trabalharam em O Dia
Depois de Amanhã (2004). Antecipadamente sei que, pelo menos
musicalmente, este será um filme muito mais pobre do que as memoráveis
patriotadas que Arnold, com sua música, acompanhou nos anos 1990.
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