GODZILLA (1998, SCORE)
Música composta por David Arnold
Selo: La-La Land Records

Catálogo: LLLCD 1058

Lançamento: 2007

Faixas

CD 1

1.
The Beginning
2. Tanker Gets It
3. Chernobyl
4. Footprint
5. Footprints / New York / Audrey
6. Chewing Gum Nose
7. Ship Reveal / Nick Discovers Fish / Flesh
8. The Boat Gets It
9. Dawn Of The Species
10. Joe Gets a Bite / Godzilla Arrives
11. Mayor´s Speech
12. Caiman´s Office
13. Animal´s Camera
14. Military Command Center / New Jersey
15. Audrey´s Idea
16. Evacuation
17. French Coffee
18. Subway Damage / Command Enters City
19. Fish
20. Guess Who´s Coming To Dinner?
21. 1st Helicopter Chase / Godzilla Swats A Chopper
22. We Fed Him / Audrey Sees Nick
23. Nick And Audrey / He´s Pregnant / Audrey Takes The Tape / French Breakfast
24. He´s Preparing To Feed
25. Nick Gets Fired / Nick Gets Abducted / Frenchie´sWarehouse / Nick Joins The Foreign Legion

CD 2
1. Chewing Gum
2. Rumble In The Tunnel
3. Godzilla O Park / Godzilla Takes A Dive / Godzilla Versus The Submarine / Egg Discovery
4. Baby ´Zillas Hatch
5. Nick Phones For Help
6. Eat The French
7. Phillip Shoots The Lock
8. Nick´s Big Speech / The Garden Gets It
9. He´s Back! / Taxi Chase & Clue
10. Big G Goes To Monster Heaven
11. The End
Bonus Tracks:
12. The Beginning (no choir)
13. Footprints / New York / Audrey (alt.)
14. The Boat Gets It (alt.)
15. Gojira (Album Version)

Duração: 109:15
Cotação:

Comentário de
J
orge Saldanha

 

Godzilla (1998), adaptação americana do célebre monstro dos filmes japoneses, foi a terceira (e última) colaboração do compositor David Arnold com a dupla Roland Emmerich (diretor) e Dean Devlin (produtor). As anteriores, que com esta formam uma trilogia de aventuras de ficção científica, foram Stargate (1994) e Independence Day (1996), filmes de indiscutível eficácia enquanto entretenimento, mas que são prejudicados pelo excesso de patriotadas pró-Tio Sam. É como se o alemão Emmerich, cujo início de carreira foi extremamente influenciado por George Lucas e Steven Spielberg, quisesse provar ao espectador que pode ser tão (ou mais) norte-americano que seus ídolos. Vemos a síntese disso na imagem de Mel Gibson correndo por um campo de batalha, carregando a bandeira norte-americana, em O Patriota (2000), para o qual Emmerich dispensou Arnold e contratou em seu lugar ninguém menos que o grande John Williams – fato que, pelo jeito, provocou o término definitivo da parceria.

Patriotadas à parte, o inglês Arnold sempre entregou ao alemão Emmerich partituras de primeira linha, tanto que Stargate e Independence Day são considerados pela maioria dos fãs da música de cinema como seus melhores trabalhos (ao lado de 007 – O Amanhã Nunca Morre, sua auspiciosa estréia na franquia de James Bond). Indiscutivelmente são scores fenomenais, com grandes temas, orquestrações elaboradas e amplo uso de coral. Mas que, até por tais características, soam exageradamente grandiloqüentes e patrióticos quando ouvidos acompanhando os excessos de Emmerich – como o presidente americano discursando na frente da bandeira e depois pessoalmente liderando o ataque aéreo contra os alienígenas invasores de Independence Day.
De qualquer forma, não dá para dizer que Arnold não criou trabalhos adequados ao material de que dispunha... Godzilla, que sem dúvida também se enquadra nos limites do puro cine-pipoca, explora menos o patriotismo americano e até mesmo usa um agente francês, interpretado por Jean Reno, para ridicularizar o café e a comida ianques.

Isso parece se refletir na trilha musical de Arnold, que sem abrir mão de elementos de orquestra e coral similares aos anteriormente utilizados, revela aqui um trabalho mais equilibrado, uma verdadeira evolução dentro da trilogia citada. Mas se este é o caso, porque então esta partitura não possui tantos defensores, ou não possui o mesmo status das outras? Acredito que isso deva simplesmente ao fato de que ela, até agora, não havia recebido uma edição discográfica adequada. À época de seu lançamento, Godzilla teve lançada uma coletânea de canções com apenas duas faixas do score de David Arnold. Um CD exclusivamente com a música incidental seria lançado quando do lançamento do filme em vídeo e DVD, mas infelizmente a Sony Pictures ficou tão desapontada com o desempenho do iguana gigante nas bilheterias que cancelou o projeto. Como resultado, Godzilla foi considerado pela crítica o melhor score não lançado de 1998. Posteriormente, 49 minutos da partitura surgiram em um CD promocional bancado pelo próprio Arnold, mas que infelizmente teve pouca circulação e foi obtido por poucos. Finalmente agora, em 2007, o selo La-La Land resgatou do esquecimento o score completo de Arnold, lançando-o num CD duplo de excelente qualidade de gravação, que inclui também algumas faixas bônus.

Apresentado na íntegra e na forma como ouvido no filme, o score se revela pleno de orquestrações brilhantes que privilegiam a ação e a aventura, sem esquecer os momentos mais sombrios ou de suspense e ainda melodias emotivas ou nobres, formando um delicioso fundo musical que se adapta perfeitamente ao filme a que serve – inclusive melhorando-o. O conjunto é valorizado por uma impecável construção de harmonias e instrumentação vigorosa. Mesmo sem o acompanhamento de imagens, é um deleite ouvir faixas extraordinárias como "Helicopter Chase", "Egg discovery", "The Garden Gets It" e "Taxi Chase & Clue", onde o inglês demonstra ser um dos melhores compositores de música de ação atuais. Além disso, ele desenvolve temas emotivos que são decisivos para definir minimamente os personagens, que como em todo filme de Emmerich, são rasos como um pires. Que fique bem claro, para mim o personagem mais humano do filme é Godzilla (em que pese os esforços do diretor em atrair a simpatia do espectador para os fracos personagens de Mathew Broderick e sua namorada insossa), e parece que Arnold teve a mesma opinião, tanto que reservou para ele o melhor material temático da partitura.

O álbum e o filme iniciam com "The Beggining" (que na versão do antigo CD, também incluída aqui, se chamava "Gojira"), onde Arnold introduz de forma sofisticada o ameaçador motivo de cinco notas associado a Godzilla, o qual em outros momentos será acrescido de mais três notas, para formar um submotivo que servirá para anticipar sua aparição. Em sua parte inicial a composição no s remete às músicas "espaciais" que John Barry compôs para os filmes de James Bond ( "Space March", "007 and Counting" ), o que demonstra que seu colega e conterrâneo representa uma inspiração que transcende aos seus trabalhos para os filmes do agente 007. Este tema receberá um contraponto épico em "The End", representando a vitória do bem sobre o mal (ou seria dos EUA sobre o Japão?), numa cena cheia de felicitações e comemorações à vitória, que é a que mais se aproxima das patriotadas anteriores de Emmerich. Aliás, Arnold não economiza no emocionante coral ouvido no momento da morte do único personagem que não merecia este triste destino.

Além do material para o lagartão, Arnold apresenta um tema de amor para o casal de protagonistas ("Nick and Audrey"), um motivo cômico para o personagem de Jean Reno ("French Coffee", "He´s Preparing to Feed") e um grupo de eficientes peças musicais que descrevem os preparativos para o enfrentamento ao monstro. Destaque para a nobre (e infelizmente curta) melodia que surge em "Evacuation", que será ouvida novamente em uma variação presente em "Command Enters City". Por fim, não podemos esquecer que, nesta adaptação americana, Godzilla é fêmea (ou, no mínimo, hermafrodita) e põe ovos, dos quais emergem "adoráveis" babyzillas famintos por carne humana. Para estas criaturas Arnold dedica um material que nos lembra os ritmos percussivos empregados por John Williams um ano antes, para os velociraptors de O Mundo Perdido.

Talvez as citações musicais a Barry e Williams possam ser consideradas defeitos da partitura (a velha questão plágio x homenagem). Ou também o fato de Arnold, talvez por falta de experiência, eliminar o suspense e a tensão do primeiro encontro face a face de Broderick com Godzilla ao colocar de fundo uma música bela e emocional, indicando ao espectador que o herói não seria devorado pelo monstro. Mas é inegável que a trilha sonora original de Godzilla é superior ao próprio filme, e isto agora poderá ser constatado de forma ampla graças a este lançamento que finalmente disponibilizará, de forma mais abrangente, este que é um dos melhores trabalhos de David Arnold. Quanto à dupla Roland Emmerich e Dean Devlin, estão preparando seu retorno com uma refilmagem do clássico sci fi Viagem Fantástica, que trará um score composto pelo alemão Harald Kloser, com quem já trabalharam em O Dia Depois de Amanhã (2004). Antecipadamente sei que, pelo menos musicalmente, este será um filme muito mais pobre do que as memoráveis patriotadas que Arnold, com sua música, acompanhou nos anos 1990.

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