GOLDENEYE
Música composta por Eric Serra


Selo:
EMI Capitol
Catálogo:
72435-41423-2-1
Ano: 2003

Faixas:
1. Goldeneye - Tina Turner 
2. The Goldeneye Overture 
3. Ladies First 
4. We Share the Same Passions
5. A Little Surprise For You 
6. The Severnaya Suite
7. Our Lady of Smolensk 
8. Whispering Statues 
9. Run, Shoot, and Jump
10. A Pleasant Drive in St. Petersburg
11. Fatal Weakness 
12. That's What Keeps You Alone 
13. Dish Out of Water
14. The Scale to Hell
15. For Ever, James 
16. The Experience of Love 

Duração: 54:27
Cotação:


Comentário de
Hugo Moya Arancibia

 

Após 007 - Permissão para Matar, seis anos e meio se passaram até Bond retornar às telas. A maioria dos membros históricos da equipe de produção foram substituídos, alguns inclusive por terem morrido. Um novo rosto estreava no papel do espião - Pierce Brosnan -, e a quase totalidade dos atores que interpretavam os personagens fixos da série também foram trocados. No controle da série não estava mais Albert R. Broccoli – que à época já se encontrava doente -, mas sim a sua filha e Michael G. Wilson. Sob este novo cenário foi criado o regresso de 007. No Chile a informação sobre este novo filme era escassa, porque então não havia o acesso massivo à Internet e as únicas fontes de informação eram os canais de TV pagos ou as revistas e jornais estrangeiros. Um mês antes da estréia no Chile, vi no interior de um cinema o cartaz publicitário da película, e de imediato procurei ter acesso a ele para poder me inteirar do elenco e da equipe de produção. Não nego que um dos meus principais interesses era saber quem estava encarregado da música. Tampouco poderia negar que senti certa preocupação e incerteza quando li o nome de Eric Serra como compositor da trilha sonora.

Minha preocupação não se baseava em considerar Serra um mal compositor, mas sim que, tendo conhecido alguns de seus trabalhos anteriores, tinha razoáveis dúvidas sobre  se ele era um compositor apropriado para musicar um filme de Bond. Serra se caracteriza por compor toda sua música em sintetizadores e utilizar um estilo bastante pausado, obscuro e de muita profundidade, algo assim como uma espécie de sons submarinos ou subterrâneos com muitos ecos. Este estilo é facilmente identificável em filmes como Imensidão Azul, Nikita ou O Profissional. Minha primeira impressão, antes de ver ou escutar alguma coisa, foi que este estilo não combinaria com Bond, mas ainda tinha esperanças de que Serra mudaria seu estilo em Goldeneye, ou pelo menos recorreria a um estilo mais sinfônico, como o que ele utilizou em Atlantis. Nada disso ocorreu, e pelo contrário, Serra se aferrou mais do que nunca ao seu estilo característico, o que finalmente o aniquilou como compositor para Bond, convertendo seu trabalho no pior de toda a série.
Diante desta situação, surge a seguinte pergunta: este desastre é responsabilidade de Serra ou dos produtores, que não souberam escolher o compositor apropriado? Creio que ambos têm sua quota de responsabilidade, Serra por negar-se a considerar os códigos mínimos e básicos para musicar os filmes da série, e o que é pior, tratando de destruí-los ou ridicularizá-los; e os produtores por não corrigir a tempo este equívoco. Neste último aspecto, a falta de critério dos produtores foi incrível, já que é bastante lógico supor-se que tiveram conhecimento da música durante o processo de produção, quando ainda poderia ser feita alguma modificação: ainda assim, nada fizeram.

No filme anterior critiquei que se havia quebrado a tradição de que a partitura instrumental e a canção principal fossem criadas pelo mesmo compositor. Em Goldeneye isto se repetiu, ainda que nesta ocasião a decisão tenha sido acertada. A canção principal “Goldeneye” foi composta por Bono e The Edge, e interpretada por Tina Turner. Musicalmente falando, esta canção é claramente a melhor do filme, com um estilo absolutamente fiel às canções da década de sessenta. Na interpretação, Tina Turner está soberba, lembrando-nos de certo modo Shirley Bassey. A música também está bastante coerente com o estilo das canções “Goldfinger” e “Thunderball”, e a letra, seguindo a tradição, não tem qualquer relação com a trama do filme.
Como a incorporação de uma canção exclusiva para a seqüência de créditos finais já tivesse se consolidado, Eric Serra não quis perder a oportunidade de compor uma canção para o final do filme, também interpretada por ele. Outro grande equívoco de Serra, já que esta canção pode facilmente ser considerada como a pior de toda a série. É uma canção absolutamente plana, sem nenhum momento de quebra, sem uma estrofe identificável e absolutamente chata, tornada ainda pior pela interpretação vocal do próprio Serra. Poucas vezes em minha vida vi um filme - por pior que tenha sido – com uma canção final tão ruim. Da letra é melhor nem falar já que está absolutamente fora de contexto, tanto em relação ao filme quanto à seqüência final. A exemplo de seu predecessor (Michael Kamen), Eric Serra não utilizou a canção principal como padrão para a música incidental, o que igualmente não fez com aquela por ele mesmo composta. Este último detalhe é válido para o filme, porém no álbum existe uma faixa (“The Scale To Hell”) que possui alguns acordes da dita canção, os quais não foram utilizados no filme. Tal como assinalamos  anteriormente, Eric Serra não apenas evitou ao máximo utilizar o “Tema de James Bond” no score, como também, nas poucas oportunidades em que o fez, tratou de ridicularizá-lo ou de rebaixar seu perfil, de tal forma que quase não se notamos a sua presença. Duas seqüências do filme contém o “Tema de James Bond”:

-
A primeira corresponde à seqüência pré-títulos, que no disco se denomina “The Goldeneye Overture”. Nesta composição escutamos, muito bem disfarçado, a um pequeno fragmento da melodia característica do tema. Como toda a música foi composta com sintetizador, se chega ao extremo de que estes acordes sejam supostamente interpretados por um tambor. Qualquer um que conheça algo de música sabe que um tambor não é capaz de executar notas musicais, já que se trata de um instrumento de percussão, mesmo assim neste tema podemos escutar as breves citações ao “Tema de James Bond” interpretadas por este instrumento. Certamente trata-se de uma degradação desta melodia, que elimina completamente a relevância que sempre teve. Adicionalmente Serra incorpora neste tema sons de coral que dão à música um clima mais apropriado ao terror do que a cenas de ação, o que colabora para que esta composição não atinja o efeito emotivo que habitualmente possui a música que acompanha uma seqüência de ação de James Bond, particularmente quando nela está incluído seu tema característico;

- A segunda seqüência corresponde à perseguição do tanque pelas ruas de San Petersburgo, que no disco se chama “A Pleasant Drive in St. Petersburg”. Este tema deve ser um dos casos mais insólitos na história musical de toda a série. Em várias trilhas sonoras de Bond houve temas que acabaram não sendo utilizados no filme, uma vez que as cenas correspondentes não foram incluídas na montagem final do filme. Como exemplos destes casos, podemos mencionar: “The Golden Horn” de From Russia with Love, “Mr Kiss Kiss Bang Bang” de Thunderball, “Tanaka’s World” de You Only Live Twice, “Anya” de The Spy Who Loved Me,  “Flowers for Teresa” e fragmentos de “Melina’s Revenge” de For Your Eyes Only, e o já citado caso em Goldeneye, “The Scale To Hell”. No caso de “A Pleasant Drive in St. Petersburg”, temos algo diferente destes exemplos. Em primeiro lugar, devo afirmar que este tema realmente constitui uma afronta à tradição musical da série. O arranjo musical do “Tema de James Bond” chega a ser ridículo por várias razões - teve a incorporação de algumas vozes um tanto sinistras, o ritmo está absolutamente desconectado do sentido dramático da seqüência e de um modo geral a sonoridade da composição é absolutamente alheio à tradição musical de Bond, especialmente neste tipo de cenas. Esta situação colocou aos produtores a urgente necessidade de pedir ao orquestrador de Serra, John Altman, que compusesse uma nova música para esta seqüência, mais próxima da tradição musical de Bond e que, principalmente, claramente incluísse o “Tema de James Bond”, que deveria ser interpretado com o respeito devido e ajustado à sua transcendência histórica. O resultado foi uma peça bastante satisfatória no que se refere à melhor à tradição da série e onde podemos ouvir claramente, e com a intensidade e emotividade apropriada, ao “Tema de James Bond”. Este tema foi posteriormente incluído no disco “Bond Back In Action 2”, com o título de “Tank Drive Around St. Petersburg”. O peculiar desta situação é que, pela  primeira vez, um tema é substituído por outro composto por um músico diferente e posteriormente ao lançamento do disco com a trilha sonora, situação que resulta evidente ao compararmos o tema que está no CD com o ouvido no filme. Esta situação não ficou registrada em nenhum lugar, nem mesmo nos créditos finais, onde habitualmente fica registrado quando outro autor compõe “Música Adicional”. É provável que anteriormente, em outras películas da série, alguns temas tenham sido substituídos, porém mesmo nestes casos as novas músicas certamente foram de autoria do mesmo compositor, e isso ocorreu antes do lançamento do álbum e do filme. De tal sorte que nem sequer temos certeza de que isso efetivamente tenha ocorrido.

Para não parecer tão negativo, devo assinalar que nem tudo foi ruim e que existem alguns temas interessantes, que mesmo não se encaixando perfeitamente no estilo musical de Bond, resultam em uma audição agradável. Como exemplos podemos mencionar os seguintes: “We Share The Same Passions”, “Run, Shoot, and Jump” e “The Severnaya Suite”. O que fica muito claro depois desta experiência é a relevância que adquire a música, na aceitação ou reprovação do público por um filme. A música é determinante da emoção que pode provocar cada cena ou seqüência. Certamente a trilha sonora de Goldeneye - diferentemente de quase todas as outras trilhas sonoras de Bond – não consegue fornecer quotas significativas de emoção (salvo exceções) no público, o que provoca uma sensação de vazio e desânimo ao terminar o filme. É tal a relevância da música que, somente por este único fator, às vezes não parece que estamos à frente de um filme de Bond. Ao final, ficou muito claro que os produtores se deram conta da decepção generalizada com a música de Goldeneye, já que para o filme seguinte trouxeram outro compositor, que começaria a escrever uma nova página na história da música de James Bond.

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