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Após 007 - Permissão
para Matar, seis anos e meio se passaram até Bond retornar às telas.
A maioria dos membros históricos da equipe de produção foram
substituídos, alguns inclusive por terem morrido. Um novo rosto estreava
no papel do espião - Pierce Brosnan -, e a quase totalidade dos atores
que interpretavam os personagens fixos da série também foram trocados.
No controle da série não estava mais Albert R. Broccoli – que à época já
se encontrava doente -, mas sim a sua filha e Michael G. Wilson. Sob
este novo cenário foi criado o regresso de 007. No Chile a informação
sobre este novo filme era escassa, porque então não havia o acesso
massivo à Internet e as únicas fontes de informação eram os canais de TV
pagos ou as revistas e jornais estrangeiros. Um mês antes da estréia no
Chile, vi no interior de um cinema o cartaz publicitário da película, e
de imediato procurei ter acesso a ele para poder me inteirar do elenco e
da equipe de produção. Não nego que um dos meus principais interesses
era saber quem estava encarregado da música. Tampouco poderia negar que
senti certa preocupação e incerteza quando li o nome de Eric Serra como
compositor da trilha sonora.
Minha preocupação não se baseava em considerar Serra um mal compositor,
mas sim que, tendo conhecido alguns de seus trabalhos anteriores, tinha
razoáveis dúvidas sobre se ele era um compositor apropriado para
musicar um filme de Bond. Serra se caracteriza por compor toda sua
música em sintetizadores e utilizar um estilo bastante pausado, obscuro
e de muita profundidade, algo assim como uma espécie de sons submarinos
ou subterrâneos com muitos ecos. Este estilo é facilmente identificável
em filmes como Imensidão Azul, Nikita ou O Profissional.
Minha primeira impressão, antes de ver ou escutar alguma coisa, foi que
este estilo não combinaria com Bond, mas ainda tinha esperanças de que
Serra mudaria seu estilo em Goldeneye, ou pelo menos recorreria a
um estilo mais sinfônico, como o que ele utilizou em Atlantis.
Nada disso ocorreu, e pelo contrário, Serra se aferrou mais do que nunca
ao seu estilo característico, o que finalmente o aniquilou como
compositor para Bond, convertendo seu trabalho no pior de toda a série.
Diante desta situação, surge a seguinte pergunta:
este desastre é responsabilidade de Serra ou dos produtores, que não
souberam escolher o compositor apropriado?
Creio que ambos têm sua quota de responsabilidade, Serra por negar-se a
considerar os códigos mínimos e básicos para musicar os filmes da série,
e o que é pior, tratando de destruí-los ou ridicularizá-los; e os
produtores por não corrigir a tempo este equívoco. Neste último aspecto,
a falta de critério dos produtores foi incrível, já que é bastante
lógico supor-se que tiveram conhecimento da música durante o processo de
produção, quando ainda poderia ser feita alguma modificação: ainda
assim, nada fizeram.
No filme anterior critiquei que se havia
quebrado a tradição de que a partitura instrumental e a canção principal
fossem criadas pelo mesmo compositor. Em
Goldeneye isto se repetiu, ainda que nesta ocasião a decisão
tenha sido acertada. A canção principal “Goldeneye” foi composta por
Bono e The Edge, e interpretada por Tina Turner. Musicalmente falando,
esta canção é claramente a melhor do filme, com um estilo absolutamente
fiel às canções da década de sessenta. Na interpretação, Tina Turner
está soberba, lembrando-nos de certo modo Shirley Bassey. A música
também está bastante coerente com o estilo das canções “Goldfinger” e
“Thunderball”, e a letra, seguindo a tradição, não tem qualquer relação
com a trama do filme.
Como a incorporação de uma canção exclusiva
para a seqüência de créditos finais já tivesse se consolidado, Eric
Serra não quis perder a oportunidade de compor uma canção para o final
do filme, também interpretada por ele. Outro grande equívoco de Serra,
já que esta canção pode facilmente ser considerada como a pior de toda a
série. É uma canção absolutamente plana, sem nenhum momento de quebra,
sem uma estrofe identificável e absolutamente chata, tornada ainda pior
pela interpretação vocal do próprio Serra. Poucas vezes em minha vida vi
um filme - por pior que tenha sido – com uma canção final tão ruim. Da
letra é melhor nem falar já que está absolutamente fora de contexto,
tanto em relação ao filme quanto à seqüência final.
A exemplo de seu
predecessor (Michael
Kamen), Eric Serra não utilizou a canção principal como padrão para
a música incidental, o que igualmente não fez com aquela por ele mesmo
composta. Este último detalhe é válido para o filme, porém no álbum
existe uma faixa (“The Scale To Hell”) que possui alguns acordes da dita
canção, os quais não foram utilizados no filme. Tal como assinalamos
anteriormente, Eric Serra não apenas evitou ao máximo utilizar o “Tema
de James Bond” no score, como
também, nas poucas oportunidades em que o fez, tratou de ridicularizá-lo
ou de rebaixar seu perfil, de tal forma que quase não se notamos a sua
presença. Duas seqüências do filme contém o “Tema de James Bond”:
-
A primeira corresponde à seqüência
pré-títulos, que no disco se denomina “The Goldeneye Overture”. Nesta
composição escutamos, muito bem disfarçado, a um pequeno fragmento da
melodia característica do tema. Como toda a música foi composta com
sintetizador, se chega ao extremo de que estes acordes sejam
supostamente interpretados por um tambor. Qualquer um que conheça algo
de música sabe que um tambor não é capaz de executar notas musicais, já
que se trata de um instrumento de percussão, mesmo assim neste tema
podemos escutar as breves citações ao “Tema de James Bond” interpretadas
por este instrumento. Certamente trata-se de uma degradação desta
melodia, que elimina completamente a relevância que sempre teve.
Adicionalmente Serra incorpora neste tema sons de coral que dão à música
um clima mais apropriado ao terror do que a cenas de ação, o que
colabora para que esta composição não atinja o efeito emotivo que
habitualmente possui a música que acompanha uma seqüência de ação de
James Bond, particularmente quando nela está incluído seu tema
característico;
-
A segunda seqüência corresponde à
perseguição do tanque pelas ruas de San Petersburgo, que no disco se
chama “A Pleasant Drive in St. Petersburg”. Este tema deve ser um dos
casos mais insólitos na história musical de toda a série. Em várias
trilhas sonoras de Bond houve temas que acabaram não sendo utilizados no
filme, uma vez que as cenas correspondentes não foram incluídas na
montagem final do filme. Como exemplos destes casos, podemos mencionar:
“The Golden Horn” de From Russia with
Love, “Mr Kiss Kiss Bang Bang” de
Thunderball, “Tanaka’s World” de
You Only Live Twice, “Anya” de
The Spy Who Loved Me, “Flowers for Teresa” e fragmentos de
“Melina’s Revenge” de For Your Eyes Only,
e o já citado caso em Goldeneye,
“The Scale To Hell”. No caso de “A Pleasant Drive in St. Petersburg”,
temos algo diferente destes exemplos. Em primeiro lugar, devo afirmar
que este tema realmente constitui uma afronta à tradição musical da
série. O arranjo musical do “Tema de James Bond” chega a ser ridículo
por várias razões - teve a incorporação de algumas vozes um tanto
sinistras, o ritmo está absolutamente desconectado do sentido dramático
da seqüência e de um modo geral a sonoridade da composição é
absolutamente alheio à tradição musical de Bond, especialmente neste
tipo de cenas. Esta situação colocou aos produtores a urgente
necessidade de pedir ao orquestrador de Serra, John Altman, que
compusesse uma nova música para esta seqüência, mais próxima da tradição
musical de Bond e que, principalmente, claramente incluísse o “Tema de
James Bond”, que deveria ser interpretado com o respeito devido e
ajustado à sua transcendência histórica. O resultado foi uma peça
bastante satisfatória no que se refere à melhor à tradição da série e
onde podemos ouvir claramente, e com a intensidade e emotividade
apropriada, ao “Tema de James Bond”. Este tema foi posteriormente
incluído no disco “Bond Back In Action 2”, com o título de “Tank Drive
Around St. Petersburg”. O peculiar desta situação é que, pela primeira
vez, um tema é substituído por outro composto por um músico diferente e
posteriormente ao lançamento do disco com a trilha sonora, situação que
resulta evidente ao compararmos o tema que está no CD com o ouvido no
filme. Esta situação não ficou registrada em nenhum lugar, nem mesmo nos
créditos finais, onde habitualmente fica registrado quando outro autor
compõe “Música Adicional”. É provável que anteriormente, em outras
películas da série, alguns temas tenham sido substituídos, porém mesmo
nestes casos as novas músicas certamente foram de autoria do mesmo
compositor, e isso ocorreu antes do lançamento do álbum e do filme. De
tal sorte que nem sequer temos certeza de que isso efetivamente tenha
ocorrido.
Para não parecer tão negativo, devo assinalar que
nem tudo foi ruim e que existem alguns temas interessantes, que mesmo
não se encaixando perfeitamente no estilo musical de Bond, resultam em
uma audição agradável. Como exemplos
podemos mencionar os seguintes: “We Share The Same Passions”, “Run,
Shoot, and Jump” e “The Severnaya Suite”. O
que fica muito claro depois desta experiência é a
relevância que adquire a música, na
aceitação ou reprovação do público
por um filme. A música é determinante da
emoção que pode provocar cada cena ou
seqüência. Certamente a trilha sonora de Goldeneye
- diferentemente de quase todas as outras trilhas sonoras de Bond –
não consegue fornecer quotas significativas de emoção (salvo exceções)
no público, o que provoca uma sensação de vazio e desânimo ao terminar o
filme. É tal a relevância da música que, somente por este único fator,
às vezes não parece que estamos à frente de um filme de Bond.
Ao final, ficou muito claro que os produtores se
deram conta da decepção generalizada com a música de
Goldeneye, já que para o filme
seguinte trouxeram outro compositor, que começaria a escrever uma nova
página na história da música de James Bond.
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