THE GREAT RAID
Música composta por Trevor Rabin


Selo: Varése Sarabande
Catálogo:
302 066 673 2
Ano: 2005

Faixas:
1. The Rescue
2. Liberate Food
3. Execute
4. Raid Begins
5. Writing Letters
6- Rangers Start
7. Campsite
8. The Great Raid
9. Burning bodies
10. Stealing Medicine
11. The Future
12. Stalking
13. Closing Titles
 
Duração: 47:50
Cotação:


Comentário de
Pablo Nieto

 

Billy Wilder disse uma vez que o importante é: falem de você, ainda que falem mal. Uma verdade, ainda que incompleta. Acontece que falar mal de alguém pode cansar e ser prejudicial, é só perguntar a Trevor Rabin o que ele acha disso. Antes de se dedicar ao mundo do cinema, Rabin era um músico respeitado, um virtuoso solista de guitarra, interessante vocalista de rock sinfônico, um dos membros mais admirados do Yes... Mesmo assim, um pouco cansado de tudo isso, Trevor decidiu focar sua carreira em outra direção, afastar-se um pouco dos holofotes e buscar alternativas profissionais. Foi então que seu bom amigo James Newton Howard o incentivou a dedicar-se à música de cinema. Sim, foi Howard quem o introduziu neste ramo. Seus primeiros trabalhos no gênero limitaram-se a oferecer sua guitarra a outro ex-Yes, Mark Mancina, em scores como Twister ou Con Air. Isso o levou a conquistar a confiança de Jerry Bruckheimer, o que, aliado ao fato de haver trabalhado com um dos grandes talentos surgidos na Media Ventures, Harry Gregson-Williams (concretamente em Armageddon e Enemy of the State), de pronto o converteu em um alvo ideal para o ataque dos grandes detratores de “Zimmer & Cia.”. Seu estilo, pouco amigo do uso de orquestras, baseado em ritmos hard rock, onipresença de guitarras e algum que outro sampler, foi duramente criticado.

Sempre no olho do furacão, e continuamente submetido à classificação de mediaventureiro, pouco a pouco Rabin começou a insurgir-se, a defender seu estilo e, sobretudo, sua independência. Porque, e que agora fique bem claro: Trevor Rabin nunca pertenceu à Media Ventures. As pessoas devem ser julgadas por seus atos, e nunca devem ser prejudicadas por sua origem. No caso de Rabin o assunto é, todavia, mais grave, pois sobre uma mentira foram construídas centenas de julgamentos sumaríssimos contra sua pessoa e sua música. Rabin não é
John Williams, tampouco Jerry Goldsmith. É simplesmente um músico com boas, ruins e regulares trilhas sonoras. Nem mais, nem menos. Há quem delas não goste, mas ele não merece ser desterrado da indústria cinematográfica por isso. Trilhas sonoras como Armageddon, Deep Blue Sea ou Remember the Titans não apenas têm um grande número de aficionados que desfrutam sem preconceitos de suas particulares propostas musicais, mas objetivamente são scores de grande valor cinematográfico, que ajudam o filme e que funcionam à perfeição junto com as imagens. The Great Raid é seu último trabalho, e sem dúvida toda uma afirmação pessoal de Rabin. Um score inteiramente orquestral, bem trabalhado e muito mais complexo que qualquer das últimas trilhas sonoras em que ele esteve envolvido nos últimos tempos. É um elegíaco olhar à Segunda Guerra Mundial, época em que está ambientada a produção.

O filme, dirigido pelo eficaz John Dahl (Red Rock West, The Last Seduction, Rounders), narra a verdadeira história de uma das operações de resgate mais épicas, arriscadas e impossíveis levada a cabo pelo exército dos Estados Unidos em toda sua história. A missão, incumbida ao sexto esquadrão dos Rangers, foi a de resgatar 500 soldados americanos presos pelo exército japonês em território filipino. É um filme realmente ambicioso, que vem recebendo elogios de público e crítica... que incluem a partitura de Rabin. Para poder mostrar sua face musical menos conhecida, Rabin teve que esperar que o destino fizesse a sua parte. O compositor originalmente designado para este projeto era Christopher Young (habitual colaborador de Dahl), e posteriormente James Newton Howard esteve a ponto de encarregar-se da música, mas devido à sua agenda lotada, decidiu recomendar aos produtores o seu amigo. O resultado podemos escutar nesta estupenda e oportuna edição da Varèse Sarabande (cujo acordo com Rabin a autoriza a lançar tudo o que ele compõe). A partitura gira em torno de um inspirado tema central de tom e estrutura marcial, sobretudo quanto ao seu caráter solene, ao uso de metais (especialmente trompa) e percussões militares. Um tema espiritualmente aparentado com a música de Williams para Saving Private Ryan ou com qualquer peça militar de James Horner, ainda que preservando o toque melódico de Rabin, presente em obras como Remember the Titans ou Armageddon. O tema é plenamente desenvolvido nos nove minutos de “The Rescue”, faixa que abre o disco mas que é ouvida ao final do filme. Trata-se de uma composição inteiramente orquestral, que exalta sentimentos como dor e honra, antes de entregar-se por completo a um êxito sem paliativos. Este início sinfônico e triunfante, contudo, não será a tônica da partitura. Na verdade, uma das maiores virtudes deste score reside na captação da tensão contida.

Rabin acerta por completo na construção das necessárias passagens descritivas do filme, onde se reflete a tensão que precede a complicada missão a ser cumprida pelos protagonistas. Faixas como “Writting Letters”, “Rangers Stars” ou “Campsite”, compartilham valores harmônicos muito semelhantes. A orquestração nestas peças está muito bem elaborada; acostumados à habitual saturação instrumental de Rabin, à pouca coerência de seus supostos contrapontos, aqui encontramos música descritiva com cabeça, com um fim... Em certos momentos, toda essa contenção leva a algumas interessantes elegias. Em composições como “Execute”, são corais, especialmente femininos, os encarregados de dar corpo ao lamento; em outras, como “The Future”, são as cordas que assumem esta função. Não podemos esquecer de outras faixas, como “Liberate Food”, onde o tema central, a elegia e a tensão unem-se; o acertado “The Great Raid”, com repetição das passagens mais intensas e marciais de “The Rescue”, incluindo um retorno ao tema central; e certamente “Raid Begins”, a única faixa ação de todo o score. É uma peça onde a agitação é apresentada em duas linhas orquestrais que se contrapõem: de um lado as cordas, do outro os metais, e no meio apuradas variações do tema central, que como é lógico tratam de encontrar seu eco na base rítmica que marca as percussões militares.

“Closing Titles” é uma composição preciosa, onde se desenvolve de modo elegante o tema central. O mesmo arranca com um progressivo crescendo orquestral e emocional, que dará lugar aos corais encarregados de terminar de desenvolver a peça. Um acertado hino aos caídos, e com certeza aos heróis, que no final de contas muitas vezes são as mesmas pessoas. A involução de coral e orquestra nos fornece um maravilhoso final, pleno de força e emoção. Uma digna conclusão para esta trilha sonora, um dos melhores momentos musicais da carreira de Trevor Rabin.

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