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"Conheci Terry
Gilliam através de Tony Grisoni, que havia escrito o roteiro de
In
This World. Tony ficou
encantado com a música que compus para esse filme e passou um CD para
Terry, que após escutá-lo lhe perguntou se eu poderia escrever música
mais dinâmica (de ação)... o problema era que para a maioria dos filmes
nos quais havia trabalhado, devido à sua natureza introspectiva, nunca
tive a chance de criar música para cenas, por exemplo, de uma
perseguição de carruagens. Mesmo assim, comecei a pesquisar nos meus
arquivos, na minha obra de concerto, retrocedendo aos meus tempos de
estudante, em busca de música suficientemente “movimentada”, “rápida”,
para colocá-la num CD para Terry. Mandei o disco, e não soube de mais
nada até que se passaram seis meses. Um dia, em março do ano passado, o
telefone tocou, e uma hora e meia depois estava sentado com Terry vendo
partes de Os Irmãos Grimm.
Selecionei duas cenas para nelas colocar música. Terry aprovou minhas
idéias e me deu o trabalho". Assim começou tudo, como conta Dario
Marianelli numa entrevista exclusiva para o
site
Scoremagacine.
Mas você poderá se perguntar, quem é Dario Marianelli? A verdade é que a
pergunta tem difícil resposta, sobretudo porque sua bagagem musical até
2005 estava limitada a filmes de círculos independentes ou de baixo
orçamento, e isso, como sabemos, condiciona muito a difusão de um nome.
Por outro lado, ficar durante anos na sombra, configurando seu próprio
estilo, inovando com as imagens, amadurecendo como compositor de cinema,
ajuda e muito quando surge a chamada do destino. No caso de Dario, pode
ter sido a chamada do telefone de Terry Gilliam, que o convenceu a
embarcar na falida, paranóica e decepcionante película do diretor, sua
visão particular dos Irmãos Grimm - um conto
bizarro-burlesco-fantasioso, que ao final não é mais do que um meio de
enganar bobos.
O talento de Marianelli fica patente ao constatarmos como a sua música
se eleva acima das imagens, fornecendo muito mais do que elas oferecem,
aprofundando a história, demonstrando uma arrebatadora imaginação na
hora de construir passagens musicais. Mas, em sua virtude, está também o
pecado. Não é o primeiro caso onde a música é tão boa que, em contraste
com as lamentáveis imagens que a acompanham, provoca um efeito
contraproducente. Eis então outra obra-prima musical desperdiçada pelos
caprichos de quem está atrás das câmeras (na minha mente vêm filmes como
A Ilha da Garganta Cortada,
entre tantos outros).
Comentar este score, sem
levar em conta as imagens para as quais ele foi composto, seria um erro.
No entanto, como é certo que o que ficará na memória do aficionado é a
partitura de Marianelli, e o que poderia ter sido o filme a partir dela,
também seria injusto negar o extraordinário valor musical desta complexa
e espetacular obra. É um trabalho de grande pureza orquestral, onde o
compositor italiano se dá ao luxo de introduzir movimentos
contemporâneos da escola de John Corigliano (e por extensão da de Elliot
Goldenthal, aluno do primeiro). Uma partitura com mudanças contínuas,
com idéias que vêm e vão, com giros impossíveis, com uma paleta
orquestral tão variada que às vezes parece impossível dar coerência a
tanta informação musical.
Marianelli estabelece suas próprias regras, e ainda que seja demorado
adaptar-se a elas, uma vez que você entra no jogo e aceita a sua
proposta, a experiência é inesquecível. Há tempos que um compositor não
utilizava tantos recursos orquestrais diferentes, que não elevava cada
instrumento a estes níveis, que não elaborava bases harmônicas tão
surpreendentes. Atualmente, apenas compositores como
John Williams, Patrick
Doyle ou Elliot Goldenthal são capazes de oferecer recitais como o de
Marianelli. Assim, concentremo-nos nas cordas: aqui encontramos
tremolos ("The Queen´s Story"),
Pizzicatos e
Glissandos ("The Queen
Awakens"), Staccatos ("The
Forest Comes to Life"), solos
("Jake's Pledge").
Ao nível temático, o grau de criatividade mantém-se elevado. Em "Dickensian
Beginnings", são apresentados os dois motivos principais do filme: um
tema central de sete notas que potencializa a história de conto de fadas
que nos é apresentada, e que será utilizado durante toda a partitura; e
junto a ele, uma obscura e ao mesmo tempo burlesca marcha para os
irmãos, que deveriam ser chamados "Os Farsantes Grimm". Os metais, neste
motivo, são especialmente agressivos, com notas muito elevadas e uma
sensação contínua de farsa. São dois motivos de enorme consistência, e
que devido às contínuas variações, referências e inserções ao longo da
partitura, acabam tornando-se familiares. Dois clássicos com apenas
alguns meses de existência.
Estamos, sem dúvida, diante da trilha sonora revolucionária do ano. Um
trabalho que tanto nos cativa e hipnotiza por sua beleza (“Red Riding
Hood”, com um toque arábico e voz feminina) como nos sobressalta
colocando-nos em meio a uma autêntica batalha musical de percussões e
metais em seu máximo nível de agressividade (“Burning the Forest”).
Pode ser que, finalmente, Marianelli consiga passar para produções de
maiores méritos, que lhe possibilitem conquistar prêmios. Se não, após
ficar dez anos esperando que seu nome ultrapassasse as fronteiras das
produções de qualidades questionáveis para as quais trabalhou, é certo
que Dario poderá esperar mais um par de anos para colaborar em um filme
onde suas idéias e as do diretor sigam na mesma direção. Até lá,
esqueçamos de Gilliam e prestemos atenção em Marianelli. Ele está em
outro nível.
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