THE BROTHERS GRIMM
Música composta por Dario Marianelli

Catálogo:
36136
Ano: 2005

Faixas:

1. Dickensian Beginnings
2. Shrewd Thespians
3. Red Riding Hood
4. The Queen's Story
5. The Forest Comes to Life
6. Jakes's Pledge
7. Muddy
8. Inside the Tower
9. The Queen Awakens
10. The French Arrive
11. Burning the Forest
12. The Eclipse Begins
13. A Slice of Quiche Would Be Nice
14. It's You: You Know the Story
15. Sleeping Beauties
16. And they Lived Happily Ever After
17. End Credits
Duração: 73:41
Cotação:


Comentário de
Pablo Nieto

 

"Conheci Terry Gilliam através de Tony Grisoni, que havia escrito o roteiro de In This World. Tony ficou encantado com a música que compus para esse filme e passou um CD para Terry, que após escutá-lo lhe perguntou se eu poderia escrever música mais dinâmica (de ação)... o problema era que para a maioria dos filmes nos quais havia trabalhado, devido à sua natureza introspectiva, nunca tive a chance de criar música para cenas, por exemplo, de uma perseguição de carruagens. Mesmo assim, comecei a pesquisar nos meus arquivos, na minha obra de concerto, retrocedendo aos meus tempos de estudante, em busca de música suficientemente “movimentada”, “rápida”, para colocá-la num CD para Terry. Mandei o disco, e não soube de mais nada até que se passaram seis meses. Um dia, em março do ano passado, o telefone tocou, e uma hora e meia depois estava sentado com Terry vendo partes de Os Irmãos Grimm. Selecionei duas cenas para nelas colocar música. Terry aprovou minhas idéias e me deu o trabalho". Assim começou tudo, como conta Dario Marianelli numa entrevista exclusiva para o site Scoremagacine.

Mas você poderá se perguntar, quem é Dario Marianelli? A verdade é que a pergunta tem difícil resposta, sobretudo porque sua bagagem musical até 2005 estava limitada a filmes de círculos independentes ou de baixo orçamento, e isso, como sabemos, condiciona muito a difusão de um nome. Por outro lado, ficar durante anos na sombra, configurando seu próprio estilo, inovando com as imagens, amadurecendo como compositor de cinema, ajuda e muito quando surge a chamada do destino. No caso de Dario, pode ter sido a chamada do telefone de Terry Gilliam, que o convenceu a embarcar na falida, paranóica e decepcionante película do diretor, sua visão particular dos Irmãos Grimm - um conto bizarro-burlesco-fantasioso, que ao final não é mais do que um meio de enganar bobos.

O talento de Marianelli fica patente ao constatarmos como a sua música se eleva acima das imagens, fornecendo muito mais do que elas oferecem, aprofundando a história, demonstrando uma arrebatadora imaginação na hora de construir passagens musicais. Mas, em sua virtude, está também o pecado. Não é o primeiro caso onde a música é tão boa que, em contraste com as lamentáveis imagens que a acompanham, provoca um efeito contraproducente. Eis então outra obra-prima musical desperdiçada pelos caprichos de quem está atrás das câmeras (na minha mente vêm filmes como A Ilha da Garganta Cortada, entre tantos outros).

Comentar este score, sem levar em conta as imagens para as quais ele foi composto, seria um erro. No entanto, como é certo que o que ficará na memória do aficionado é a partitura de Marianelli, e o que poderia ter sido o filme a partir dela, também seria injusto negar o extraordinário valor musical desta complexa e espetacular obra. É um trabalho de grande pureza orquestral, onde o compositor italiano se dá ao luxo de introduzir movimentos contemporâneos da escola de John Corigliano (e por extensão da de Elliot Goldenthal, aluno do primeiro). Uma partitura com mudanças contínuas, com idéias que vêm e vão, com giros impossíveis, com uma paleta orquestral tão variada que às vezes parece impossível dar coerência a tanta informação musical.

Marianelli estabelece suas próprias regras, e ainda que seja demorado adaptar-se a elas, uma vez que você entra no jogo e aceita a sua proposta, a experiência é inesquecível. Há tempos que um compositor não utilizava tantos recursos orquestrais diferentes, que não elevava cada instrumento a estes níveis, que não elaborava bases harmônicas tão surpreendentes. Atualmente, apenas compositores como John Williams, Patrick Doyle ou Elliot Goldenthal são capazes de oferecer recitais como o de Marianelli. Assim, concentremo-nos nas cordas: aqui encontramos tremolos ("The Queen´s Story"), Pizzicatos e Glissandos ("The Queen Awakens"), Staccatos ("The Forest Comes to Life"), solos ("Jake's Pledge"). 

Ao nível temático, o grau de criatividade mantém-se elevado. Em "Dickensian Beginnings", são apresentados os dois motivos principais do filme: um tema central de sete notas que potencializa a história de conto de fadas que nos é apresentada, e que será utilizado durante toda a partitura; e junto a ele, uma obscura e ao mesmo tempo burlesca marcha para os irmãos, que deveriam ser chamados "Os Farsantes Grimm". Os metais, neste motivo, são especialmente agressivos, com notas muito elevadas e uma sensação contínua de farsa. São dois motivos de enorme consistência, e que devido às contínuas variações, referências e inserções ao longo da partitura, acabam tornando-se familiares. Dois clássicos com apenas alguns meses de existência.

Estamos, sem dúvida, diante da trilha sonora revolucionária do ano. Um trabalho que tanto nos cativa e hipnotiza por sua beleza (“Red Riding Hood”, com um toque arábico e voz feminina) como nos sobressalta colocando-nos em meio a uma autêntica batalha musical de percussões e metais em seu máximo nível de agressividade (“Burning the Forest”).

Pode ser que, finalmente, Marianelli consiga passar para produções de maiores méritos, que lhe possibilitem conquistar prêmios. Se não, após ficar dez anos esperando que seu nome ultrapassasse as fronteiras das produções de qualidades questionáveis para as quais trabalhou, é certo que Dario poderá esperar mais um par de anos para colaborar em um filme onde suas idéias e as do diretor sigam na mesma direção. Até lá, esqueçamos de Gilliam e prestemos atenção em Marianelli. Ele está em outro nível.

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