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John Williams regressa
ao mundo da fantasia na primeira aventura de Harry Potter, o jovem
aprendiz de feiticeiro, criação da inglesa J. K. Rowling, cujas cinco
novelas deliciam crianças e adultos (o próprio Williams incluído).
Grande antecipação surgiu em redor do que Williams iria apresentar, para
a primeira aventura de Potter e para o seu primeiro trabalho do gênero
em dez anos, desde Hook, em 1991. E a música do filme de
Spielberg é de fato a melhor forma de comparar os dois. De fato Harry
Potter vive no mesmo mundo mágico que Peter Pan, principalmente em
termos musicais. Aqueles que esperavam um novo Hook, poderão no
entanto não ficar totalmente satisfeitos... Não quero dizer que Williams
tenha apresentado um trabalho menor. Muito antes pelo contrário, Harry
Potter está cheio da magia dos livros. Aliás, é a música que cria essa
magia no filme. Mas muito simplesmente, o Williams de Hook não é
o mesmo que de Harry Potter. Hook remonta a 1985, ainda
antes da grande mudança no estilo do compositor.
Para o filme de Spielberg, Williams usou bastante material que havia
composto em 1985 para um projeto depois abandonado. No fundo já estamos
a 16 anos de distância da gênese de Hook, quase uma vida! E o
estilo de Williams amadureceu, principalmente durante os anos noventa.
Essa mudança estilística está presente neste novo trabalho,
particularmente notório na forma como o compositor trata o material. E
será esse o grande interesse para o estudante da obra deste compositor
em ouvir Harry Potter. Não há nada de novo para encontrar aqui.
Williams não explora novo território, ao contrário do que acontece no
excepcional A.I. Não temos uma reciclagem musical, mas
toda a construção da partitura é tradicional, muito dentro do gênero do
já mencionado Hook. Temos vários temas (eu contei pelo menos
nove) que são desenvolvidos no decorrer de duas horas de música (70
minutos no CD), desenvolvimento esse, já atualizado ao estilo mais
maduro de Williams.
Há um tema claramente principal, o "Hedwig's Theme", que é apresentado na
sua forma de concerto no última faixa. Este tema, constituído na
realidade por dois temas, é uma dança, a primeira delas mais misteriosa,
com celeste e cordas a tocar uma melodia em acorde menor, e uma segunda,
mais agitada em acorde maior, com a participação de toda a orquestra. A
coruja Hedwig, é o personagem preferido de Williams, embora tenha uma
participação muito discreta no filme. Mais do que representar Hedwig,
este tema encapsula toda a essência do filme, enquanto carrega qualquer
coisa reminescente da "Devil's Dance" de Witches of Eastwick.
O álbum abre com uma variação mais discreta do tema, em "Prologue"
,
e este vai sendo usado um pouco por todo o álbum. De referência a
extraordinária apresentação do tema com coro em "Platform
Nine-and-Three-Quarters and The Journey to Hogwarts".
Harry, claro, também tem o seu tema. Dois na verdade. Um mais calmo para
clarinete e cordas, faz lembrar o "Childhood" de Hook - ambos tem
a mesma qualidade enternecedora, mas Williams cria agora um tema
atualizado ao seu estilo mais recente. Esta bela melodia é associada aos
sonhos de Harry, à sua família e amigos. Há também uma pequena fanfarra
para os metais, que reflete o tom mais aventureiro de Harry. A escola de
Hogwarts e o seu diretor recebem um dos motivos musicais mais
interessantes, principalmente na apresentação feita em "Hogwarts Forever!
and The Moving Stairs", com o quarteto de trompas. Ao mesmo tempo,
solene e simples, contraria a idéia de pompa e circunstância que se
podia esperar aqui. Williams sabe que está a musicar uma instituição
anciã, que já não precisa de floreados para mostrar o que vale... e como
sempre Williams sabe o que faz. Mais à frente, transforma este tema numa
fanfarra para usar na faixa "The Quidditch Game". Voldmort, o vilão,
recebe um tema, que é mais um motivo, do que propriamente um tema. A
música é reminescente da "Imperial March", e faz-me lembrar também o
tema principal de Nixon... é o tipo de música que associamos logo
ao vilão da fita, sem nos assustar. Surge por algumas vezes no álbum,
incluindo no já mencionado "The Quidditch Game" e claro, em "The Face of
Voldemort".
Para além destes temas recorrentes há muita música e momentos
interessantes... Diagon Alley recebe música para madeiras que se
assemelha a uma dança popular, Fluffy, o cão com três cabeças, tem um
lindo e delicado tema para contra-fagote e harpa, e para o jogo de
xadrez, Williams compõe uma set-piece memorável, com um rufar de
tambores que conferem um tom militarista, e mais para a frente impõe um
ritmo Holstiano, isto tudo 'salteado' com alguns dos temas discutidos
acima. Há ainda, digno de nota, o delicioso "Christmas at Hogwarts", com
uma pequena passagem de coral fantasmagórica... um cântico de Natal
muito invulgar, todo ele criado pelo compositor. Chegamos ao final do
filme com "Leaving Hogwarts", uma apresentação completa do tema de Harry,
e um último esboçar do tema de Hedwig, e ficamos cheios de vontade de
mais. No filme seguia-se o "Harry's Wondrous World", uma extraordinária
suíte com cerca de cinco minutos, mas que no CD surge na faixa 2. O
álbum termina de forma igualmente satisfatória com a apresentação de "Hedwig's
Theme".
E embora, na minha humilde opinião, este não seja o melhor trabalho de
Williams em 2001 (e mesmo dentro do gênero, o compositor já terá feito
melhor), eu não imagino melhor acompanhamento musical para a primeira
aventura de Harry Potter. Williams fez de novo aquilo que só ele sabe
fazer: tocou o nosso coração de criança, através da sua magia única,
quer seja a acompanhar aprendizes de feiticeiros, ou robôs que querem
ser rapazinhos. E depois disto tudo só nos resta esperar que ele agite a
sua batuta mágica e nos volte a levar além da nossa imaginação... e isso
apenas com a sua música. |