HARRY POTTER AND THE CHAMBER OF SECRETS
Música composta John Williams. Adaptação de temas e regência da London Symphony Orchestra por William Ross

Selo:
Warner/Elektra
Catálogo:
756783574-2
Ano: 2002

20 Faixas

Cotação:

Comentário de
Miguel Andrade

 

Quando rumores sobre a participação de John Williams no segundo filme da série Harry Potter foram confirmados pelo próprio compositor, afirmando que o seu envolvimento seria limitado, ficando responsável apenas pela composição de cerca de quarenta minutos de novo material temático, com a adaptação dos novos e velhos temas ficando a cargo de Williams Ross, muitos foram os que lamentaram com desespero a situação. Apraz-me dizer que as razões para o pânico foram exageradas, e que Harry Potter and the Chamber of Secrets é um excelente trabalho de um dos mais confiáveis compositores de Hollywood. Embora não consiga ter o mesmo impacto que o primeiro tomo da aventura do jovem Mr. Potter, tal como acontece com o filme, que já não surpreende, Chamber of Secrets está recheado de todas as trademarks de John Williams, e a sua simples audição faz-nos pensar exatamente qual terá sido a verdadeira contribuição de William Ross (para além da direção da orquestra, que aliás, é irrepreensível). O próprio Ross explicou recentemente qual o papel que desempenhou, e ficou claro que pouco fez, no que toca a adaptar a música.

Segundo o compositor, enquanto estava em Londres já a gravar a partitura com a London Symphony Orchestra, chegavam pelo correio novas passagens que Williams acabara de compor, do outro lado do Atlântico! Ross apenas foi responsável por pequenas alterações que mais terão a ver com timings do que com a real composição da música. No final, todos os méritos (ou falta deles) da partitura devem-se a um só homem: John Williams, feiticeiro da música para cinema. Mas como se compara esta nova incursão no universo da escola de feitiçaria de Hogwarts com o trabalho anterior, celebrado por muitos fãs do compositor como um regresso às partituras para grandes espetáculos cinematográficos? Nada mal, devo dizer. O CD inicia de forma adequada com o mesmo solo para celeste de The Philosopher's Stone, e depois é levado para uma apresentação breve dos temas de Hedwig e da família. É curioso que nesta nova aventura, embora estes temas continuem e a ter a sua presença assegurada, é o segundo que ganha um maior destaque. Música associada ao jogo de Quidditch também surge, mas apenas no filme, já que no CD não há sombra dela. Partir desta primeira faixa surgem as novidades, que preenchem em grande parte a primeira metade do álbum.

Começamos com "Fawkes the Phoenix", o tema mais emblemático deste trabalho, e que serve de paralelo com o tema para Hedwig no primeiro filme. É construído sobre uma melodia longa, cheia de nobreza, com predominância para as cordas, trompas e madeiras, e pode ser ouvido novamente mais tarde em faixas como "Fawkes is Reborn" ou no final de "Dueling the Basilik". "The Chamber of Secrets" é o tema que mais se pode encontrar durante a partitura, sendo uma expansão de um tema já presente no filme anterior, e que de certa forma retrata o arqui-inimigo de Potter, Voldemort. Já que é construído sobre um curto motivo anunciado pelos metais, é fácil introduzí-lo em qualquer lado, no decorrer da partitura, e o seu uso é em geral muito bem feito, mas embora esta versão de concerto apresentada na faixa 3 seja satisfatória, a sua coda cria uma expectativa que não é totalmente satisfeita com a faixa seguinte, "Gilderoy Lockhart". Esta pode ser facilmente descrita como uma variação sobre "No Ticket" de Indiana Jones and the Last Crusade, com um certo toque mais aristocrático, em grande parte graças ao uso do cravo. Alguns naturalmente, e com certa razão, poderão queixar-se do óbvio reaproveitamento, mas em abono da verdade, a música não podia ser mais adequada ao patético personagem interpretado por Kenneth Branagh. Refira-se o excelente uso deste tema em "The Dueling Club", onde realiza todo a sua comicidade.

"The Flying Car" segue eficazmente o rasto cômico deixado pelo tema anterior, com uma melodia sinuosa, que de forma perfeitamente adequada à situação, descreve o vôo atribulado de Harry e Ron no carro da família Wesley. Enquanto chegam à escola de Hogwarts, uma versão do tema de Hedwig, com direito a coro e tudo o mais, surge com grande força dramática, encaminhando os nosso heróis para uma desastrosa aterragem. "Knockturn Alley" não apresenta novo material temático, começando com música misteriosa, seguido por uma variação da música para Diagon Alley, do primeiro filme, e uma completa apresentação do tema da família. A faixa seguinte, "Introducing Colin", também usa material do filme anterior, neste caso o referente ao Natal em Hogwarts. Mais três temas são apresentados de forma adequada a serem ouvidas em concerto: "Dobby The House Elf" é uma das mais memoráveis faixas do CD, com uma simpática e terna melodia para as madeiras. Infelizmente não é muito usada no resto do trabalho. "The Spiders", com ritmos nervosos que balançam entre as cordas, madeiras e metais abafados, é um exemplo típico de música para aracnídeos, não sendo de particular interesse. A faixa avança deste tema nervoso para uma passagem de ação com que termina.

Finalmente, o curto "Moaning Myrtle" apresente um último tema, também algo sinuoso, com um coro etéreo, que vai acelerando até ao seu desfecho. A partir daqui temos faixas que servem de desenvolvimento do material anteriormente apresentado, variando entre faixas mais misteriosas e atmosféricas com outras claramente de ação. Destaque para o grande finale, o tour de force orquestral em "Dueling the Basilisk", que inevitavelmente leva-nos para o triunfo do jovem Harry Potter. Após isto, "Reunion of Friends", surge mais como um epílogo retraído, com predominância do tema da família - curiosamente a coda é cheia de bravura, com uma breve apresentação do tema de Hedwig. O CD conclui com "Harry's Wondrous World", peça já nossa conhecida do primeiro filme (onde também servia como end credits). O álbum no seu todo é bem balançado, e mostra que Williams continua na posse dos seus poderes, bastando para isso esvoaçar a sua varinha mágica. A contribuição de Ross (que se resume à direção de orquestra) é extremamente competente, e a London Symphony está à altura das expectativas, como sempre.

No entanto, Harry Potter and the Chamber of Secrets já não tem o mesmo brilho que o anterior, talvez porque a magia da surpresa já está ausente... Talvez porque, embora sejam esperadas grandes coisas de Mr. Potter, ele não as consiga concretizar, por muito que o compositor veterano tente... através de novos e deliciosos temas, mas que já não transmitem a mesma excitante vibração do ano passado. Será que isso faz deste trabalho algo menor? Menor não, apenas não tão bom como o anterior, mas ainda assim digno de nota, não fosse o autor destas notas mágicas o sempre inconfundível John Williams.

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