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Quando
rumores sobre a participação de
John Williams no
segundo filme da série Harry Potter foram confirmados pelo
próprio compositor, afirmando que o seu envolvimento seria limitado,
ficando responsável apenas pela composição de cerca de quarenta minutos
de novo material temático, com a adaptação dos novos e velhos temas
ficando a cargo de Williams Ross, muitos foram os que lamentaram com
desespero a situação. Apraz-me dizer que as razões para o pânico foram
exageradas, e que Harry Potter and the Chamber of Secrets é um
excelente trabalho de um dos mais confiáveis compositores de Hollywood.
Embora não consiga ter o mesmo impacto que o primeiro tomo da aventura
do jovem Mr. Potter, tal como acontece com o filme, que já não
surpreende, Chamber of Secrets está recheado de todas as
trademarks de John Williams, e a sua simples audição faz-nos pensar
exatamente qual terá sido a verdadeira contribuição de William Ross
(para além da direção da orquestra, que aliás, é irrepreensível). O
próprio Ross explicou recentemente qual o papel que desempenhou, e ficou
claro que pouco fez, no que toca a adaptar a música.
Segundo o compositor, enquanto estava em Londres já a gravar a partitura
com a London Symphony Orchestra, chegavam pelo correio novas passagens
que Williams acabara de compor, do outro lado do Atlântico! Ross apenas
foi responsável por pequenas alterações que mais terão a ver com
timings do que com a real composição da música. No final, todos os
méritos (ou falta deles) da partitura devem-se a um só homem: John
Williams, feiticeiro da música para cinema. Mas como se compara esta
nova incursão no universo da escola de feitiçaria de Hogwarts com o
trabalho anterior, celebrado por muitos fãs do compositor como um
regresso às partituras para grandes espetáculos cinematográficos? Nada
mal, devo dizer. O CD inicia de forma adequada com o mesmo solo para
celeste de The Philosopher's Stone, e depois é levado para
uma apresentação breve dos temas de Hedwig e da família. É curioso que
nesta nova aventura, embora estes temas continuem e a ter a sua presença
assegurada, é o segundo que ganha um maior destaque. Música associada ao
jogo de Quidditch também surge, mas apenas no filme, já que no CD não há
sombra dela. Partir desta primeira faixa surgem as novidades, que
preenchem em grande parte a primeira metade do álbum.
Começamos com "Fawkes
the Phoenix", o tema mais emblemático deste trabalho, e que serve de
paralelo com o tema para Hedwig no primeiro filme. É construído sobre
uma melodia longa, cheia de nobreza, com predominância para as cordas,
trompas e madeiras, e pode ser ouvido novamente mais tarde em faixas
como "Fawkes is Reborn" ou no final de "Dueling the Basilik". "The
Chamber of Secrets" é o tema que mais se pode encontrar durante a
partitura, sendo uma expansão de um tema já presente no filme anterior,
e que de certa forma retrata o arqui-inimigo de Potter, Voldemort. Já
que é construído sobre um curto motivo anunciado pelos metais, é fácil
introduzí-lo em qualquer lado, no decorrer da partitura, e o seu uso é
em geral muito bem feito, mas embora esta versão de concerto apresentada
na faixa 3 seja satisfatória, a sua coda cria uma expectativa que não é
totalmente satisfeita com a faixa seguinte, "Gilderoy Lockhart". Esta
pode ser facilmente descrita como uma variação sobre "No Ticket" de
Indiana Jones and the Last Crusade, com um certo toque mais
aristocrático, em grande parte graças ao uso do cravo. Alguns
naturalmente, e com certa razão, poderão queixar-se do óbvio
reaproveitamento, mas em abono da verdade, a música não podia ser mais
adequada ao patético personagem interpretado por Kenneth Branagh.
Refira-se o excelente uso deste tema em "The Dueling Club", onde realiza
todo a sua comicidade.
"The Flying Car" segue eficazmente o rasto cômico deixado pelo tema
anterior, com uma melodia sinuosa, que de forma perfeitamente adequada à
situação, descreve o vôo atribulado de Harry e Ron no carro da família
Wesley. Enquanto chegam à escola de Hogwarts, uma versão do tema de
Hedwig, com direito a coro e tudo o mais, surge com grande força
dramática, encaminhando os nosso heróis para uma desastrosa aterragem. "Knockturn
Alley" não apresenta novo material temático, começando com música
misteriosa, seguido por uma variação da música para Diagon Alley, do
primeiro filme, e uma completa apresentação do tema da família. A faixa
seguinte, "Introducing Colin", também usa material do filme anterior,
neste caso o referente ao Natal em Hogwarts. Mais três temas são
apresentados de forma adequada a serem ouvidas em concerto: "Dobby The
House Elf" é uma das mais memoráveis faixas do CD, com uma simpática e
terna melodia para as madeiras. Infelizmente não é muito usada no resto
do trabalho. "The Spiders", com ritmos nervosos que balançam entre as
cordas, madeiras e metais abafados, é um exemplo típico de música para
aracnídeos, não sendo de particular interesse. A faixa avança deste tema
nervoso para uma passagem de ação com que termina.
Finalmente, o curto "Moaning Myrtle" apresente um último tema, também
algo sinuoso, com um coro etéreo, que vai acelerando até ao seu
desfecho. A partir daqui temos faixas que servem de desenvolvimento do
material anteriormente apresentado, variando entre faixas mais
misteriosas e atmosféricas com outras claramente de ação. Destaque para
o grande finale, o tour de force orquestral em "Dueling
the Basilisk", que inevitavelmente leva-nos para o triunfo do jovem
Harry Potter. Após isto, "Reunion of Friends", surge mais como um
epílogo retraído, com predominância do tema da família - curiosamente a
coda é cheia de bravura, com uma breve apresentação do tema de Hedwig. O
CD conclui com "Harry's Wondrous World", peça já nossa conhecida do
primeiro filme (onde também servia como end credits). O álbum no
seu todo é bem balançado, e mostra que Williams continua na posse dos
seus poderes, bastando para isso esvoaçar a sua varinha mágica. A
contribuição de Ross (que se resume à direção de orquestra) é
extremamente competente, e a London Symphony está à altura das
expectativas, como sempre.
No entanto, Harry Potter and the Chamber of Secrets já não tem o
mesmo brilho que o anterior, talvez porque a magia da surpresa já está
ausente... Talvez porque, embora sejam esperadas grandes coisas de Mr.
Potter, ele não as consiga concretizar, por muito que o compositor
veterano tente... através de novos e deliciosos temas, mas que já não
transmitem a mesma excitante vibração do ano passado. Será que isso faz
deste trabalho algo menor? Menor não, apenas não tão bom como o
anterior, mas ainda assim digno de nota, não fosse o autor destas notas
mágicas o sempre inconfundível John Williams. |