Harry Potter and the Prisoner of Azkaban
Música composta e regida por
John Williams

Selo:
Warner/Nonesuch/Atlantic
Catálogo: 7567-83711

Ano: 2004

Faixas:
1. Lumos! (Hedwig's Theme)
2. Aunt Marge's Waltz
3. The Knight Bus
4. Apparition on the Train
5. Double Trouble
6. Buckbeak's Flight 
7. A Window to the Past 
8. The Whomping Willow and the Snowball Fight 
9. Secrets of the Castle 
10. The Portrait Gallery 
11. Hagrid the Professor 
12. Monster Books and Boggarts! 
13. Quidditch, Third Year 
14. Lupin's Transformation and Chasing Scabbers 
15. The Patronus Light 
16. The Werewolf Scene 
17. Saving Buckbeak 
18. Forward to Time Past 
19. The Dementors Converge 
20. Finale 
21. Mischief Managed!

Duração: 68:53
Cotação:


Comentário de
J
orge Saldanha

 

Quando Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban estreou, tornou-se clichê comentarem que o filme era o melhor da série graças à direção de Alfonso Cuarón. Concordo que o filme é o melhor dos três até agora produzidos, e sem dúvida é o mais sombrio deles. Agora, atribuir tudo isso somente a Cuarón é uma enorme injustiça. Chris Columbus, ao meu ver, fez um trabalho para lá de competente nos dois primeiros filmes, com um perfeito domínio das técnicas cinematográficas e do elenco de garotos estreantes. Para ser sincero, não notei grandes diferenças entre os métodos de Columbus e Cuarón, e os aspectos mais distintos da produção prendem-se basicamente às características originais da obra literária, que também é considerada a melhor da série. Musicalmente falando, a partitura de John Williams não deixa dúvidas - em que pese o clima mais dark e assustador, este ainda é um filme do menino-bruxo Harry Potter, que como seria de se esperar está repleto de aventuras, mistério e magia. Cabe destacar que, fato um tanto incomum (à exceção de versões remasterizadas e expandidas de trilhas sonoras mais antigas), a ordem das faixas no CD corresponde quase que exatamente à ordem cronológica em que as músicas são ouvidas no filme.

Em seus quase 69 minutos de duração, a trilha sonora original reflete bem o ritmo do filme, onde através das marcas de estilo do compositor encontramos uma variada quantidade de melodias e gêneros. É interessante notar que alguns criticam o score deste Harry Potter por sua escassa utilização dos temas ouvidos nos álbuns anteriores, quando ao meu ver isto é mais um mérito do que defeito. Afinal, quem quiser ouvir aqueles temas, que coloque os CDs antigos para tocar. Williams, mesmo mantendo a linha-mestra musical associada à série, não se limita a reprisar ou reciclar composições prévias; ao contrário, a partir de algumas melodias conhecidas ele desafia o ouvinte a partir para um território novo e de fascínio. Assim, apenas na introdução, no final e eventualmente em algumas faixas, ouvimos os temas básicos dos filmes prévios. O restante do CD privilegia material inédito e de qualidade que, via de regra, não se associa aos novos personagens humanos introduzidos, como Sirius Black ou Lupin. Williams preferiu desenvolver temas ligados a idéias e mesmo sentimentos (nostalgia, deslumbramento e medo, por exemplo), como veremos mais adiante.

O álbum inicia com "Lumos! (Hedwig's Theme)", onde ouvimos o conhecido tema que, apesar do título, raramente é utilizado na série para representar a coruja de Potter, Edwiges. Esta assinatura musical, sem dúvida, é uma das composições mais estimadas da produção recente de Williams para as telas. Mas no álbum o motivo que mais se destaca, através de  suas respectivas variações, é aquele introduzido em "Double Trouble", inicialmente como versão para coral em clima Halloween, e posteriormente desenvolvido instrumentalmente em outras faixas. Em "Hagrid the Professor" o tema tem sua melhor versão, interpretada em instrumentos renascentistas. Este motivo serve para, no filme, representar o mistério e a dualidade que cercam o passado e o futuro de Harry Potter. Outro novo motivo de destaque é o que se relaciona especificamente com "o passado", escutado em faixas como "A Window to the Past". Melancólico, ele se relaciona com as recordações, a história e a saudade dos pais de Harry Potter. Primeiramente ele surge interpretado pelos instrumentos antigos, para finalmente se desenvolver com a orquestra completa durante o "Finale".

Há outros temas de relevo em Harry Potter and the Prisoner of Azkaban, que identificam diferentes situações, como por exemplo a valsa cômica de "Aunt Marge's Waltz", que acompanha a cena onde Harry Potter lança um feitiço contra sua tia, por ela ter ofendido a memória de seus pais. Williams, após Catch me If You Can, parece ter novamente tomado gosto pelo jazz, e durante a maior parte de "The Knight Bus", ouvida durante o passeio do ônibus por Londres, ele apresenta uma composição típica do gênero, interpretada no melhor estilo de uma jazz band. No entanto, a criação que se destaca no álbum - ou seja, aquela que mais gostamos de ouvir e serve de referência para todo um trabalho - chega em "Buckbeak's Flight", tema que identifica o hipogrifo Bicuço, a criatura mítica alada cavalgada por Harry Potter. Apesar de não ser o tema central da partitura, é uma composição digna dos melhores trabalhos de Williams para o gênero, e adicionalmente mostra as mudanças de rumo que o compositor vem dando ao seu trabalho - ou seja, tem tudo o que esperaríamos ouvir em uma cena do gênero, mas ainda assim não se deixa levar pela obviedade. Também temos o necessário material de ação no melhor estilo de Williams, interpretado por cordas, madeiras e acentuado acompanhamento de metais e percussão, como nas faixas "The Whomping Willow and the Snowball Fight" e "The Werewolf Scene
".

Também a música para a partida de Quadribol é mais séria e dramática que a ouvida nos outros filmes, sendo "Quidditch, Third Year" uma faixa de ação de destaque no disco. O Mal é personificado, no filme, pelos tenebrosos Dementadores, espectros que vigiam a prisão de Azkaban, e o acompanhamento musical ouvido em suas aparições, dissonante e amedrontador, surge em composições como "Apparition on the Train" e “The Dementors Converge”. É nelas que encontraremos os momentos de maior tensão musical, e é graças a elas que, a exemplo do filme, este também seja considerado o score mais sombrio da série. Ainda há outro motivo musical de relevo, que se relaciona com a volta ao passado e sua alteração. Ele é encontrado nas faixas "Saving Buckbeak" e "Forward to Time Past", onde a música está claramente acompanhada de um tic-tac instrumental lento e um tic-tac identificado pelo som de um relógio, sobre o qual de forma mais acelerada e crescente se desenrola a partitura sinfônica. O coral surge em alguns trechos da partitura, por vezes evocando o Bem ("The Patronus Light"), por vezes o Mal ("Secrets of the Castle"). Com "Finale" Williams nos dá um magnífico encerramento para a história, e introduz a suíte presente na última faixa, "Mischief Managed", onde como de hábito o compositor rememora os temas principais ouvidos durante a partitura.

Concluindo, Harry Potter and the Prisoner of Azkaban é mais um trabalho que merece integrar a coleção dos fãs de John Williams, de Harry Potter e da melhor música do cinema. Nele somos levados tanto aos recantos mais obscuros de Hogwarts como a alturas deslumbrantes, como se estivéssemos sendo levados pelas asas de um hipogrifo. Ou pela batuta do Mestre Williams.

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