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Quando
Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban estreou, tornou-se clichê
comentarem que o filme era o melhor da série graças à direção de Alfonso
Cuarón. Concordo que o filme é o melhor dos três até agora produzidos, e
sem dúvida é o mais sombrio deles. Agora, atribuir tudo isso somente a
Cuarón é uma enorme injustiça. Chris Columbus, ao meu ver, fez um
trabalho para lá de competente nos dois primeiros filmes, com um
perfeito domínio das técnicas cinematográficas e do elenco de garotos
estreantes. Para ser sincero, não notei grandes diferenças entre os
métodos de Columbus e Cuarón, e os aspectos mais distintos da produção
prendem-se basicamente às características originais da obra literária,
que também é considerada a melhor da série. Musicalmente falando, a
partitura de John Williams
não deixa dúvidas - em que pese o clima mais dark e assustador,
este ainda é um filme do menino-bruxo Harry Potter, que como seria de se
esperar está repleto de aventuras, mistério e magia. Cabe destacar que,
fato um tanto incomum (à exceção de versões remasterizadas e expandidas
de trilhas sonoras mais antigas), a ordem das faixas no CD corresponde
quase que exatamente à ordem cronológica em que as músicas são ouvidas
no filme.
Em seus quase 69 minutos de duração, a trilha sonora original reflete
bem o ritmo do filme, onde através das marcas de estilo do compositor
encontramos uma variada quantidade de melodias e gêneros. É interessante
notar que alguns criticam o score deste Harry Potter por
sua escassa utilização dos temas ouvidos nos álbuns anteriores, quando
ao meu ver isto é mais um mérito do que defeito. Afinal, quem quiser
ouvir aqueles temas, que coloque os CDs antigos para tocar. Williams,
mesmo mantendo a linha-mestra musical associada à série, não se limita a
reprisar ou reciclar composições prévias; ao contrário, a partir de
algumas melodias conhecidas ele desafia o ouvinte a partir para um
território novo e de fascínio. Assim, apenas na introdução, no final e
eventualmente em algumas faixas, ouvimos os temas básicos dos filmes
prévios. O restante do CD privilegia material inédito e de qualidade
que, via de regra, não se associa aos novos personagens humanos
introduzidos, como Sirius Black ou Lupin. Williams preferiu desenvolver
temas ligados a idéias e mesmo sentimentos (nostalgia, deslumbramento e
medo, por exemplo), como veremos mais adiante.
O álbum inicia com "Lumos! (Hedwig's Theme)", onde ouvimos o conhecido
tema que, apesar do título, raramente é utilizado na série para
representar a coruja de Potter, Edwiges. Esta assinatura musical, sem
dúvida, é uma das composições mais estimadas da produção recente de
Williams para as telas. Mas no álbum o motivo que mais se destaca,
através de suas respectivas variações, é aquele introduzido em "Double
Trouble", inicialmente como versão para coral em clima Halloween,
e posteriormente desenvolvido instrumentalmente em outras faixas. Em "Hagrid
the Professor" o tema tem sua melhor versão, interpretada em
instrumentos renascentistas. Este motivo serve para, no filme,
representar o mistério e a dualidade que cercam o passado e o futuro de
Harry Potter. Outro novo motivo de destaque é o que se relaciona
especificamente com "o passado", escutado em faixas como "A Window to
the Past". Melancólico, ele se relaciona com as recordações, a história
e a saudade dos pais de Harry Potter. Primeiramente ele surge
interpretado pelos instrumentos antigos, para finalmente se desenvolver
com a orquestra completa durante o "Finale".
Há outros temas de relevo em Harry Potter and the Prisoner of Azkaban,
que identificam diferentes situações, como por exemplo a valsa cômica de
"Aunt Marge's Waltz", que acompanha a cena onde Harry Potter lança um
feitiço contra sua tia, por ela ter ofendido a memória de seus pais.
Williams, após Catch me If You Can, parece ter novamente tomado
gosto pelo jazz, e durante a maior parte de "The Knight Bus",
ouvida durante o passeio do ônibus por Londres, ele apresenta uma
composição típica do gênero, interpretada no melhor estilo de uma
jazz band. No entanto, a criação que se destaca no álbum - ou seja,
aquela que mais gostamos de ouvir e serve de referência para todo um
trabalho - chega em "Buckbeak's Flight", tema que identifica o hipogrifo
Bicuço, a criatura mítica alada cavalgada por Harry Potter. Apesar de
não ser o tema central da partitura, é uma composição digna dos melhores
trabalhos de Williams para o gênero, e adicionalmente mostra as mudanças
de rumo que o compositor vem dando ao seu trabalho - ou seja, tem tudo o
que esperaríamos ouvir em uma cena do gênero, mas ainda assim não se
deixa levar pela obviedade. Também temos o necessário material de ação
no melhor estilo de Williams, interpretado por cordas, madeiras e
acentuado acompanhamento de metais e percussão, como nas faixas "The
Whomping Willow and the Snowball Fight" e "The Werewolf Scene".
Também a música para a partida de Quadribol é mais séria e dramática que
a ouvida nos outros filmes, sendo "Quidditch, Third Year" uma faixa de
ação de destaque no disco. O Mal é personificado, no filme, pelos
tenebrosos Dementadores, espectros que vigiam a prisão de Azkaban, e o
acompanhamento musical ouvido em suas aparições, dissonante e
amedrontador, surge em composições como "Apparition on the Train" e “The
Dementors Converge”. É nelas que encontraremos os momentos de maior
tensão musical, e é graças a elas que, a exemplo do filme, este também
seja considerado o score mais sombrio da série. Ainda há outro
motivo musical de relevo, que se relaciona com a volta ao passado e sua
alteração. Ele é encontrado nas faixas "Saving Buckbeak" e "Forward to
Time Past", onde a música está claramente acompanhada de um tic-tac
instrumental lento e um tic-tac identificado pelo som de um
relógio, sobre o qual de forma mais acelerada e crescente se desenrola a
partitura sinfônica. O coral surge em alguns trechos da partitura, por
vezes evocando o Bem ("The Patronus Light"), por vezes o Mal ("Secrets
of the Castle"). Com "Finale" Williams nos dá um magnífico encerramento
para a história, e introduz a suíte presente na última faixa, "Mischief
Managed", onde como de hábito o compositor rememora os temas principais
ouvidos durante a partitura.
Concluindo, Harry Potter and the Prisoner of Azkaban é mais um
trabalho que merece integrar a coleção dos fãs de John Williams, de
Harry Potter e da melhor música do cinema. Nele somos levados tanto aos
recantos mais obscuros de Hogwarts como a alturas deslumbrantes, como se
estivéssemos sendo levados pelas asas de um hipogrifo. Ou pela batuta do
Mestre Williams.
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